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Motherboard

Por que Alguns Animais Tentam Transar Com a Espécie Errada

O sexo entre diferentes espécies – também chamado de “acasalamento equivocado” ou “interferência reprodutiva” – é raro, mas não inédito, no reino animal.

por Gian Volpicelli
24 Novembro 2014, 2:19pm

​Um lobo-marinho na Antártica no meio de pinguins-reis. Crédito: Liam Quinn/Flickr

A silenciosa, congelada e solitária Antártica não é bem um lugar que geralmente traz à tona pensamentos relacionados a sexo. Mas o continente coberto de gelo recentemente revelou um lado perverso, quando biólogos relataram que na Ilha Marion, lobos-marinhos estão imprudentemente forçando lindos pinguins a fazerem sexo.

Cientistas da Universidade de Pretória, na África do Sul, detalharam o fenômeno em um artigo publicado no periódico Polar Biology; o texto é acompanhado por um vídeo que mostra o incidente de forma bem clara. Nele, um lobo-marinho macho forçadamente encoxa um pinguim-rei, com outros pinguim apenas observando o estranho casal. A pobre vítima tenta bicar seu agressor em determinado momento, mas sem sucesso. As imagens são perturbadoras e sinistramente surreais. Ao final, a pergunta que fica é a seguinte: por que diabos um lobo-marinho estaria transando com um pinguim ao invés de outro lobo-marinho?

O sexo entre diferentes espécies – também chamado de "acasalamento equivocado" ou "interferência reprodutiva" – é raro, mas não inédito, no reino animal. Além de lobos-marinhos, alguns golfinhos, pássaros e grandes felinos já tomaram parte em diversas atividades sexuais com outras espécies. Ainda assim, é um assunto bastante nebuloso.

"É um tanto quanto complicado explicar o porquê acontece, já que não parece ser algo particularmente benéfico", disse-me ao telefone Bram Kuijper, zoólogo da University College de Londres. "Digo, em alguns casos você obviamente não obterá rebentos a partir daquilo. Mas mesmo quando acontece entre espécies semelhantes, e ocorre a procriação, geralmente não dá lá muito certo".

É UM TANTO QUANTO COMPLICADO EXPLICAR O PORQUÊ ACONTECE, JÁ QUE NÃO PARECE SER ALGO PARTICULARMENTE BENÉFICO

Quanto ao imbróglio da Ilha Marion, de acordo com o ecologista mamífero marinho Iain Staniland, uma explicação provisória seria a de que aqueles lobos-marinhos estavam simplesmente transbordando hormônios. "Os lobos-marinhos tem um sistema de procriação muito rígido, em que um macho dominante pode acabar ficando com até 12 fêmeas, deixando o restante sem parceiras. Então estes jovens machos ficam frustrados sexualmente, e os pinguins tornam-se presa fácil desta frustração", disse. A interpretação de Staniland ecoa aquela dos autores do estudo, que haviam trabalhado com a hipótese de que o incidente possa ter sido causado por "privação de cópula".

Staniland também destacou que a violência dos lobos-marinhos em direção aos pinguins possa estar crescendo por conta de um efeito de imitação distorcido: "Os lobos-marinhos são animais espertos, e os machos estão aprendendo uns com os outros que os pinguins servem para aquilo. Felizmente, isso deve ser algo apenas regional, daquela ilha", explicou. A Ilha Marion, onde as primeiras focas sexualmente violentas foram avistadas em 2008, parece então estar fadada a se tornar uma espécie de Gomorra antártica.

Mas essa tendência movida a hormônios não é o pior que pode acontecer em termos de sexo interespecífico. Golfinhos-roaz, por exemplo, já foram flagrados no papel de estupradores-e-assassinos de cetáceos menores como o golfinho toninha, um hábito que deu origem ao neologismo "toninhacídio". Estes ataques horrorosos, perturbadoramente, ainda confere aos animais certa credibilidade. "No caso dos golfinhos, não é só impulso sexual, o que importa mais são seus comportamentos sociais. Ao levarem adiante estas ações com outras espécies é como se dissessem 'Eu que mando. Eu domino você'", afirmou Staniland.

Um filhote de ligre. Crédito: ​Liontamer/Flickr

Saindo do mar para a terra firme e ar, as coisas ficam um pouco menos desesperançosas e, em geral, mais fecundas. Aqui, o "acasalamento equivocado", muitas vezes é resultado de semelhanças entre espécies, que acabam copulando e tendo filhos. Kuijper citou a frequente endogamia entre dois pássaros (o papa-moscas de colarinho e o papa-moscas-preto), mas exemplo é o que não falta, da mula aos híbridos de nomes mais engraçados como o zebralo ou a cama (híbrido de camelo com lhama).

Muitas destas "interferências" acontecem em cativeiro, já que os dois indivíduos envolvidos nunca acasalariam caso se encontrassem fora de um zoológico. "Um leão e um tigre só copulam se você colocar ambos na mesma jaula e geralmente só acontece porque o macho não tem ideia de como seria uma fêmea de sua espécie", disse Kuijper.

Ou seja, a força que deu origem ao tal ligre foi a abençoada ignorância de um leão que não sabia por quem deveria suspirar.

Comparada a violência grotesca de lobos-marinhos contra pinguins que temos visto na Ilha Marion, isso parece apenas um mero detalhe.

Tradução: Thiago "Índio" Silva