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Offset quer controlar sua narrativa

O rapper falou com a i-D sobre flow, foco e por que ele não vai contar pra ninguém o nome do seu novo álbum.

por Christelle Oyiri; Traduzido por Marina Schnoor
05 Fevereiro 2019, 9:00am

Offset usa Louis Vuitton por Virgil Abloh. Óculos Chanel. Fotografia por Manuel Obadia

Offset entra num restaurante de um hotel chique de Paris usando um macacão branco e espalhando uma vibe radiante. Ele é o último dos três membros do Migos a lançar um disco solo, com um título que ele ainda não revela. “Quero que as pessoas tenham tudo de uma vez, material e título, porque se você dá o título antes, isso já tem um impacto em como o álbum é percebido”, ele diz. Se Offset quer controlar a narrativa cercando seu primeiro álbum, provavelmente é porque ele passou os últimos meses sob um microscópio, quase sendo sacrificado no altar da opinião pública por causa de sua vida pessoal. Offset é a última peça no quebra-cabeça do Migos, uma banda que já não precisa mais de apresentação. “Migos, o melhor trio desde Three Kings”, “Migos: melhores que os Beatles”. Os três garotos dourados de Atlanta já estão acostumados com elogios superlativos.

Com os controversos e virais hits "Hannah Montana" e "Versace", muitos viam o Migos como um one hit wonder, até o lançamento de Culture no começo de 2017. Se originalmente as três vozes eram indistinguíveis para a maioria, o tempo permitiu que Quavo, Takeoff e Offset trabalhassem seus respectivos estilos. Offset corrobora essa teoria. “Acho que nossos estilos são cada vez mais distintos, mas a verdade é que fazer esse álbum solo não é só sobre praticar meu flow ou me estabelecer, mas também sobre contar minha história, porque no final das contas as pessoas não me conhecem realmente.”

Offset Manuel Obadia
Offset usa Louis Vuitton por Virgil Abloh. Foto por Manuel Obadia

i-D: Podemos voltar um pouco para a gênese do Migos?
Offset: Quavo, Takeoff e eu somos da mesma família. Na verdade, eu nem fazia rap no começo, e foi o Quavo quem escreveu meu primeiro rap. Não levávamos o rap a sério na época. Quavo curtia futebol americano, eu também. Aí, alguns anos atrás, conhecemos Sonny Digital [icônico produtor da 808 Mafia], que nos levou para conhecer algumas gravadoras, já que ele já era um artista assinado. Não funcionou logo de cara, fomos rejeitados por quase todas as grandes gravadoras. Estávamos pensando muito à frente pra eles.

É muito louco pensar que essas gravadoras desperdiçaram a oportunidade de assinar com o Migos. E vocês se tornaram uma sensação enquanto Atlanta virava a nova capital do rap.
Coach K [empresário dele e chefe da Quality Control] sempre diz que Atlanta é a Hollywood Negra. É verdade que chegamos na cena quando Gucci Mane, Future, K Camp, Peewee Longway e outros já estavam ali... aqueles dias foram insanos.

Na verdade já gravamos com Peewee Longway, ele tem um estúdio lá. Todo mundo colava lá, até o Lil Baby do Lil Baby & Gunna frequentava o lugar quando se tornou rapper. Peewee fez muito pelo rap de Atlanta, foi ele também que nos apresentou ao P, o outro chefe da Quality Control, e foi aí que assinamos o contrato que permitiu que nossa carreira decolasse.

Não foi o flow do Migos que permitiu isso?
Gosto de tomar o papel do líder. É uma benção pra mim ver como esse flow seduziu as pessoas. Tinha muitos haters quando os rappers começaram a rimar como nós, mas vemos isso como um elogio. Alguns rappers são muito possessivos com seus estilos, mas eu não. Se quiser fazer rap um dia, você pode usar esse flow... o mais importante é saber de onde você está emprestando ele.

Vocês têm estilos muito diferentes: o do Quavo é mais melódico e emotivo, Takeoff tem um senso de humor muito louco. Como você define seu estilo?
Meu estilo é mais rápido e agressivo. Canto muito pouco, mas foco nas rimas e no flow, que geralmente são mais sombrios e nervosos. Parece que a batida se torna o centro da atenção, mas sinceramente quero que o ato de rimar esteja na frente. No meu disco, por exemplo, não vai ter muito autotune, que nunca foi meu ponto forte mesmo.

Ainda não sabemos o nome do seu álbum. Você não quer promovê-lo?
Sim, estou lançando um disco solo. E não, não vou te dar um título. Hoje, a gente é afogado num fluxo constante de informação. Você recebe uma tonelada de conteúdo sem ter que fazer nada, só chegando até você sem parar. Quero que meu álbum saia quando for a hora certa, e do jeito como vejo, um título já é informação demais. Não quero que as pessoas projetem nada antes mesmo do disco sair, seja seus desejos ou opiniões. Estou dando o tempo certo porque quero garantir que tudo faça sentido.

Offset Manuel Obadia
Offset usa Louis Vuitton por Virgil Abloh. Foto por Manuel Obadia

Uma vez você disse que o que importava pra você eram os números. Você não acha uma pena que esse rap agora se foque mais em vendas do que nos discos em si?
Claro que não! Números não mentem. E o rap é um esporte. Basicamente, números te permitem se situar realisticamente. Eles impedem que você viva na fantasia. As pessoas falam muito sobre vendas da semana de lançamento, mas não estou interessado nisso. Olha o álbum do Post Malone, não vendeu muito quando saiu, mas agora está no topo das paradas há 18 meses. Isso significa que a música dele está inscrita na memória das pessoas agora... Pra mim, é uma questão de longevidade.

Muita gente achava que o Migos não superaria "Versace" e "Hannah Montana". Ainda assim, 4 anos depois, o disco Culture levou vocês direto pro topo.
Teve um momento — entre 2014 e 2016 — em que tive problemas com a lei. Foi o fundo do poço. Aí saiu "Bitch Dab" em 2015, e todo mundo começou a fazer o dab (algo que não foi a gente que inventou), mas quase não teve resultados do nosso lado... foi um caminho difícil, mas é porque tiramos um tempo e insistimos que estamos aqui hoje.

Do drip ao dab, você lançaram algumas tendências. O que drip significa pra você?
É uma palavra que vem de Atlanta, e significa que você tem um estilo foda. Muitas pessoas acham que drip significa um monte de roupas de marcas famosas, mas você não precisa disso para ter drip. Às vezes é só uma questão de ter as peças certas, a atitude certa e uma confiança à prova de bala. Isso veio a definir meu próprio estilo, que chamo de classe e futurismo. Adoro Chrome Hearts, Off-White, Louis Vuitton. Virgil Abloh já deixou sua marca na história se tornando o primeiro diretor criativo negro da Louis Vuitton. Um salve pra ele.

Você não participou de vários clipes quando era criança?
Sim! Eu estava no clipe de "Whatchulookinat" da Whitney Houston e num vídeo do TLC também. Foi uma experiência incrível. Não lembro de muita coisa. Acho que eu tinha uns 9 anos e não percebia quão grande a Whitney Houston era. Que ela descanse em paz. Sempre estive no show business!

Que dicas você daria para uma pessoa jovem entrando na indústria?
A coisa mais importante é trabalhar. Talento é legal, mas trabalho sempre vale mais que o resto. A segunda coisa é que você tem que se destacar. Mesmo se parecer que não está funcionando no começo, como aconteceu com o Migos, você precisa manter sua originalidade e nunca desistir por pressão de fora.

Offset Manuel Obadia
Offset usa Louis Vuitton por Virgil Abloh. Foto por Manuel Obadia.

Créditos:

Fotografia: Manuel Obadia-Wills
Styling: Will Johnson
Assistente de Styling: Ouss Thiam

A i-D agradece o l'Hôtel National des Arts et Métiers.

Matéria originalmente publicada pela i-D França.

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