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Neil Young quer salvar o mundo por que a arte não vai morrer

Com sessenta anos de estrada, Young ainda combate a indústria fonográfica. Em uma rara entrevista, o mestre fala sobre arte, algoritmos e a probabilidade da música salvar o mundo.

por Andrea Domanick, e Alex Robert Ross; Traduzido por Stephanie Fernandes
02 Abril 2018, 11:00am

Ilustração por Andrea Domanick

Entrevista originalmente publicada pelo Noisey US.

“São lindas”, comentou Neil Young a respeito das novas melodias que estão fermentando em sua cabeça. Ele tamborila sobre as pernas cruzadas em uma suíte do Four Seasons, no centro de Austin, Texas, com a camisa preta aberta a ponto de revelar a peita do selo Third Man Records. “Mas as letras para todas essas melodias são profanas. Tudo é profanação, e isso é muito confuso para mim”. Sob o chapéu preto vintage, seus olhos azuis perfuram a sala refrigerada. Essa afronta toda mira nas plataformas de streaming e nos algoritmos, conta ele. Talvez praguejar seja a única linguagem potente para articular a ira e a frustração de viver em 2018. Isso, e a música. Ele tende a seguir em frente com a ideia: “Se eu lançar o Profane [Profano], que seria o título do álbum, e todas essas lindas melodias tiverem apenas palavrões.... Bom, seria bem radical.”

Com 72 anos de idade, quase 40 álbuns de estúdio e seis décadas de legado enquanto gênio renegado, o ícone Neil Young ainda está tentando salvar o mundo. E está desgraçado da cabeça com a possibilidade de tentarem pará-lo. Ele está aqui para divulgar Paradox em cartaz na Netflix —, um faroeste surreal em que ele aparece como o misterioso Homem de Chapéu Preto. Mas logo começa a falar sobre o Neil Young Archives, notável projeto online que ele lançou ano passado. É uma extensa fonte de recursos que abriga todos os álbuns lançados por Young, desde os primórdios da banda The Squires até sua obra-prima solo enquanto ás do folk americano, passando pelos discos Trans e Everybody's Rockin’, tão infames quanto fascinantes, incluindo o The Visitor, lançamento vivaz e enérgico do ano passado. Tudo, claro, disponível na mais alta qualidade. Ele é famoso por seu ativismo passional. Protesta contra guerras e a Monsanto e corrupção e tudo mais. Mas a batalha mais popular de Young nos últimos anos tem sido o embate com a tecnologia que achata a qualidade dos áudios.

É tudo parte do mesmo todo. A música, diz Young, alimenta o espírito humano, e o áudio com qualidade de mp3 que escutamos em serviços de streaming nos oferece apenas uma fração desse sustento, se tanto. Para entender os esforços incansáveis (e recentemente malfadados) de Neil Young para trazer o Pono às massas, ou seu comprometimento com a integridade do áudio em seus arquivos, é preciso enxergar o que Neil Young enxerga: um bando de coxinhas engomados conspirando para foder com nosso direito divino a uma alma. E ele vai continuar lutando contra isso. Como não lutar?

Nossa conversa com Young foi dinâmica, mudou de marcha a todo momento. Leia abaixo na íntegra.

Noisey: Recentemente, você revisitou todo o seu catálogo para criar o Neil Young Archives. Como foi retornar à obra toda e olhar para si mesmo como um cara mais jovem tocando música, reagindo às mudanças do mundo?
Neil Young: Sabe, não penso muito nisso. Me imaginam pensando nisso o tempo todo enquanto vasculho os Arquivos, mas os Arquivos na verdade são apenas uma crônica, uma plataforma para organizar as coisas que já aconteceram. Estou trabalhando com a minha tralha, organizando, nada demais. De vez em quando, volto ao passado e fico imerso em coisas que fiz, e simplesmente... é legal poder revisitá-las. Mais legal ainda poder ouvi-las, porque não gosto de escutar as coisas agora, o som é tão ruim. A música sofreu muito nas mãos da grande tecnologia. A maioria dos ouvintes mal sabe o que está perdendo. Eles escutam e adoram música — isso é bom. Mas só ouvem cinco por cento do som da música — em especial, se compararmos com os clássicos dos anos 30, 40, 50, 60, 70, 80. As novas cópias em mp3, seja lá de que inferno vieram, não passam de cinco por cento. É como se eu fosse um pintor, e agora estivéssemos observando uma pintura toda colorida em um tom sépia tosco — é perturbador. Esse é meu combustível. É por isso que insisto na tecnologia de áudio.

Venho do passado, e quero dizer que existe uma porta que pode ser aberta, ou uma janela que pode ser aberta. E vocês que curtem muito música, que curtem o cenário e tudo relacionado ao tema, talvez escutem algo e sintam algo que nunca tiveram a chance de sentir antes. Essa é minha abordagem agora. Vou até as gravadoras e digo: “Por que restringir acesso aos portões dourados da música —às joias da coroa, às gravações, à porra toda dos velhos tempos, grandes obras de Frank Sinatra, Cab Calloway, Jimmy Reed, Muddy Waters, Glenn Miller, tudo? Por que reduzir a qualidade do som a cinco por cento da produção original? Qual é a vantagem disso?”

Quão difícil é manter o otimismo na música e na vida com esse histórico nas costas, de batalhas contra coisas assim?
Bom, sou muito otimista quanto à capacidade de superação do espírito humano. Não acho que o agora seja um sinal dos tempos por vir. Acho que estamos em um ponto baixo, numa extremidade do pêndulo. As coisas não vão bem. Mas minha maior preocupação não é que o cara no comando não tenha colhões e não saiba dizer adeus às pessoas e seja um péssimo exemplo para as crianças. Isso pesa bastante para mim, mas não significa nada em comparação ao tanto que ele está prejudicando o meio ambiente. É inconsequente, me incomoda.

É um momento muito obscuro. E as pessoas estão começando a sentir. Não gosto quando as pessoas chegam até mim [o Archives] pelo Facebook. Se resolverem logar via Facebook, quero oferecer a elas a opção de ler umas coisas sobre o Facebook, para saberem de onde estão vindo. E ainda recorro ao Facebook porque quero mostrar o que estamos fazendo para os usuários, os fãs, para quem tiver interesse. É só chegar junto, e não temos aquelas regras todas, também não vamos rastrear ou usar as pessoas. Assim que deixam aquela área, entram numa zona segura, a nossa área. Queremos que as pessoas saibam que nos importamos com isso. Porque hoje tem algoritmo até para encorajar crianças de menos de dez anos a curtir pornografia…

É tenebroso, distópico até. É uma loucura conceber a existência disso.
É um mau uso da tecnologia. A tecnologia é feita para deixar a vida melhor. Os vilões sabem que podem usar as ferramentas que o mocinho usa, que foram feitas para o mocinho. Eles também têm essas ferramentas, e as pessoas que as projetam estão muito equivocadas quando dizem que não é responsabilidade delas. É responsabilidade delas, sim, mas não querem policiar. Não querem acabar com o próprio negócio. Mas é preciso se dar conta de que há responsabilidade em deter poder. Então é preciso informar as pessoas sobre o que está acontecendo. Deixá-las a par.

“O oxigênio da arte, a arte que respiramos, vai nos salvar.”

Algo precisa ser criado, não para mim, mas pela arte. O que será do jovem artista que está tentando fazer por onde, mas não consegue porque não tem valor, porque a música dele não tem valor? Hoje é difícil lançar uma música e ganhar algo em troca para comprar um amplificador e um ônibus para levar a banda aos shows. Você lança um álbum incrível e várias pessoas escutam, mas ninguém é pago por isso. É assim com todas as músicas que eu faço, tudo que eu fiz até hoje, me pagam pelas minhas músicas, mas ninguém paga a Crazy Horse, ninguém paga as bandas, ninguém ganha royalties. Mas o foco aqui não sou eu, ou meus parceiros, os caras mais velhos. Sabe, e as pessoas que ainda não conhecemos? Os músicos novinhos? Que caralhas eles podem fazer para seguir rumo? Não dá. É uma situação gravíssima para as artes. Não quero ser pessimista. Precisamos dar um jeito de ter uma postura positiva.

O que talvez seja ainda mais insidioso é que a própria arte está começando a ser comoditizada a ponto das pessoas já não diferenciarem mais. As pessoas passarão a ver a arte mais como um acessório do que como algo que as move, em termos espirituais e existenciais.
Esse é um dos maiores perigos das plataformas.

Hoje vemos a arte como capital.
O negócio tá feio mesmo.

E à medida que os músicos se agarram cada vez mais a essas novas plataformas, capaz que testemunhemos a absorção da arte.
Não vai acontecer. Não vai. Não se preocupe com isso.

O que você acha que vai balançar o pêndulo para a outra extremidade?
O oxigênio da arte, a arte que respiramos, vai nos salvar. Isso quando conseguirmos restaurar a forma original da arte — e vou provar que a tecnologia está no caminho. Não entendo por que esses lugares todos não oferecem a mesma qualidade que meu site. A única razão que passa pela minha cabeça é o negócio das gravadoras. Coisa que eu resolverei. Vou trazer isso à tona, e vai fazer diferença. Vai acontecer. E se não acontecer, vou morrer tentando, e outra pessoa vai dar conta.

“É por isso que os anos 50 e 60 e 70 foram tão incríveis — as pessoas estavam imersas na arte porque podiam senti-la. Isso se perdeu. Mas quando retomarmos, todas as outras coisas vão começar a se voltar para o lado bom.”

Vai acabar acontecendo. Porque a arte não vai morrer. Não dá pra matar a arte. E a arte precisa respirar, então é preciso dar à arte todo o ar que ela precisa, não só esse tantinho. A arte está sofrendo agora. Se deixarem a arte respirar, todo mundo vai respirar arte. Eles também vão respirar arte, e todos nós vamos melhorar. Tudo vai melhorar, porque a arte vai nos sustentar. As pessoas não captam a maravilha da arte hoje porque não dá pra ouvir direito — ali só tem cinco por cento do que foi gravado originalmente. Aquilo que acontecia com meu corpo quando eu ouvia os grandes álbuns do meu tempo, quando estava totalmente voltado para a música, já não acontece hoje. Não rola. Foi isso que fez o movimento acontecer. É por isso que os anos 50 e 60 e 70 foram tão incríveis — as pessoas estavam imersas na arte porque podiam senti-la. Isso se perdeu. Mas quando retomarmos, todas as outras coisas vão começar a se voltar para o lado bom. Talvez não sejam tão livres quanto eram antes, mas acho que as pessoas que escutam música nas plataformas poderiam ser muito mais livres para respirar arte, sentir arte, sentir na alma. É isso que faz a arte, e essas tecnologias estão no meio do caminho. Esse é o grande crime.

Vou fazer o advogado do diabo aqui, com o argumento de que boa parte dessa tecnologia está democratizando o acesso à música. Não quero dizer que os músicos não deveriam receber, ou que a qualidade não deveria fazer jus ao que era. Mas e o acesso à tecnologia de produção musical? Onde isso se encaixa?
Bom, se as pessoas têm acesso a isso, deveriam ter acesso a qualidade. Pelo mesmo preço. Não tem por que cobrar mais por isso. Seria o melhor para a própria música. Eu me refiro à música em particular. É tudo muito obscuro, isso que estamos discutindo. Mas não acredito que seja algo impossível de superar, pelo contrário. As pessoas só precisam ouvir. Precisam ouvir e perceber que existe muito mais do que elas têm agora. Foi por isso que os anos 60 aconteceram — porque as pessoas sentiam. Não era porque frequentavam os shows — estavam escutando os álbuns. Os álbuns têm tudo.

Um álbum é um universo de som. Está tudo ali. É um reflexo do original, é como olhar no espelho, como ver o Monte Shasta refletido no Lago Shasta sem ondas. Um reflexo perfeito. É isso que é um álbum. O digital — seja em alta ou baixa resolução, especialmente em baixa — apenas reconstitui o que aconteceu lá atrás. Não representa exatamente o que aconteceu. São coisas que se assemelham ao que aconteceu, construídas para serem controladas. Há muita beleza nessa tecnologia, mas se você não usá-la na melhor qualidade, não vai enxergar essa beleza. Está bem mais barato do que no século passado. No século 20, a gente precisava mesmo nivelar por baixo, porque as pessoas tinham que pagar por memória. Não existe mais o desafio da memória. Temos o streaming. Não há memória envolvida.

Estou comprometido com isso porque é minha formação. Minha vida se baseia em arte. Em música. E com todas as coisas que acontecem hoje com as plataformas, é uma batalha que precisa ser resolvida, combatida. Vivemos em um momento épico todo incoerente.

Você vê os arquivos como algo mais artesanal? Você acha que vamos ver mais coisas do tipo, já que a tecnologia torna isso cada vez mais possível? Ou isso tende a deixar tudo descartável, porque tudo fica disponível online?
É isso que acontece quando as pessoas não ouvem de verdade — essa sensação. Tudo é descartável porque está disponível online. Neste momento, as obras não estão disponíveis online. Neste momento, o que chega até as pessoas não passa a sensação de que não é descartável. É como um papel de parede. Dá para mudar a parede, colocar uma nova — tanto faz. Pintar de um jeito diferente. Amanhã, outra música, um novo sentimento. É tudo a mesma merda, não importa. E é meio deprimente, porque não agrega nada. Você toca aquela música que todo mundo adorava em 1975, que vendeu milhões de discos, o hit que caiu nas graças do povo, e pensa: “Nossa, é igual a todo o resto”. Isso acontece porque você não ouve o bastante para reconhecer o que é. Não ouve o bastante para sentir. Sentir é muito, muito importante. Esse é o meu mote, e é disso que se trata a tecnologia. Arquivar significa apenas ordenar, e a plataforma dos arquivos e tudo mais serve para organizar a produção dos artistas, sejam escritores, sejam cineastas, seja alguém que está estudando os presidentes dos Estados Unidos.

Porque foi tudo compilado em playlists para ouvir enquanto você limpa a casa.
Isso. Precisamos de novos algoritmos que respeitem a arte. É disso que precisamos.

Tem uma citação do Jarvis Cocker. Ele disse que a música virou uma espécie de vela perfumada.
É uma vela perfumada elétrica. Tem um interruptor, e dá pra ligar e desligar. Não tem poluição — é bem límpido. É meio desconcertante, se formos parar para pensar. O que você está fazendo na Noisey, continue fazendo. É maravilhoso. Não estou dizendo que a sua experiência não vale, que você não sabe de nada. As pessoas curtem o que estão fazendo. Quero dizer que tem uma janela aqui. Dá uma olhada pela janela — tenta ver se reconhece ou se enxerga algo inédito, se sente alguma coisa. Escuta meia hora dessa música. Fuma unzinho e escuta isso aqui. Faz o que você tem que fazer. Toma uma cerveja, fuma unzinho, dá uma caminhada, respira, escuta, vê se faz você se sentir diferente. Faz bem pra alma. Não tem nada saindo da plataforma que faz tão bem pra sua alma quanto uma boa qualidade.

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