Noisey

Como a tecnologia moldou a música que ouvimos hoje?

André Paste, DJ Bruninho FZR, Lucas Santtana e Nave compartilham suas visões.

por Eduardo Ribeiro
19 Setembro 2017, 7:35pm

Imagem: Ableton Push/YouTube

Este conteúdo é um oferecimento Natura Musical.

Na coluna Estudando a Cena, discutimos a atual cena musical do Brasil e como as drásticas mudanças na indústria fonográfica dos últimos anos reverberaram na base da pirâmide sócio-cultural do país.

Não foi só nos campos da portabilidade e da transmissão que as inovações tecnológicas dos últimos tempos mudaram totalmente a nossa relação com a música. Nos bastidores criativos, o avanço tecnológico permitiu que músicos e produtores não dependessem mais do custoso aparato de um estúdio tradicional para concretizar as suas ideias. Com um laptop, placa de som, microfone e um software de produção, de repente se tornou possível gravar um álbum inteiro no seu próprio quarto. Criar beats, bases, texturas, experimentar de um jeito mais confortável.

Dez anos atrás, os grandes baratos dos primeiros bedroom producers eram os mashups e os remixes. Mas não demorou pra galera saturar disso e logo começaram a pintar vários beatmakers, músicos experimentais, multi-instrumentistas e bandas independentes produzindo seus sons autorais e fazendo melhor uso das ferramentas digitais. A partir disso, muita coisa se subverteu do ponto de vista estético. O funk periférico atual, por exemplo, não é mais aquele lance do mesmo tamborzão editado em dezenas de músicas. Evoluiu nos beats, nos cortes, assim como certas vertentes estão ficando cada vez mais derivativas.

Na busca de entender como a praticidade tecnológica vem influenciando na sonoridade da música contemporânea, convocamos artistas envolvidos com produção dentro de diferentes estilos. Com a palavra, André Paste, DJ Bruninho FZR (que trabalhou com MC Daleste e MC Dede), Lucas Santtana e Nave Beatz.

André Paste. Foto: Divulgação

André Paste

Produtor de música eletrônica. Começou fazendo mashup e debutou no autoral com Shuffle.

Que tipo de tecnologia você usava quando começou a produzir as primeiras faixas?
Já comecei produzindo música no computador. Pra falar a verdade, acho que nem sei fazer diferente disso. No começo não tinha nenhuma noção teórica de música, então criava sampleando, combinando sons a partir de músicas que já existiam, sem a tecnologia barata dos softwares acho que nunca na vida teria como fazer isso.

Acho que a principal diferença de quando comecei pra hoje foi que cresceu muito o número de tutoriais, a informação de como chegar num timbre que ouvi e gostei, por exemplo, já chega pra todo mundo. É mais fácil e rápido aprender sozinho a mexer nos softwares e plugins de áudio.

Foi a partir de facilidades tecnológicas de produção musical que surgiram novos gêneros?
Com certeza a facilidade da tecnologia trouxe muita coisa nova pra música. O fato de poder fuçar e experimentar mil possibilidades sem ter que pagar a hora do estúdio, tudo com uma ferramenta só, mais barata, acabou criando muita coisa.

Qual foi a última grande tecnologia musical inventada, em sua opinião?
A grande tecnologia pra mim não é essencialmente musical, mas acho que o principal pra gerar novos sons foi a facilidade de acesso e troca de informação. Hoje dá pra ouvir um gênero do interiorzão do Japão, conversar com o cara que tá produzindo aquilo, misturar com alguma coisa da minha vivencia e formar juntos, online, algo novo a partir daí.

Existe alguma vantagem perdida dos tempos dos antigos estúdios profissionais?
Tem muita coisa que com a tecnologia dá pra emular, mas nunca vai ser exatamente igual. O som de um "Tábua de Esmeralda" do Jorge Ben Jor por exemplo vai ser difícil de conseguir com plugins. Além disso a tecnologia trouxe uma facilidade de consertar os erros, de deixar tudo arrumadinho demais, o que gera um perfeccionismo que pra mim é quase chato.

DJ Bruninho FZR

DJ oficial do MC Dede e produtor de funk. Em seu estúdio, o FZR, já produziu, além do Dede, os MCs Lebra, Bob Boladão e Daleste.

Como a produção musical entrou na sua vida?
No começo, como a gente é da periferia, do extremo leste de São Paulo, não se tem muitas condições pra poder começar de um jeito legal ou como gostaríamos. Sempre começa pelo que se tem acesso. Comecei com aquele computador antigo de tubo, sem memória, todo lento. Fui a alguns estúdios na periferia mesmo e vi os programas Acid e Battery sendo usados, então comecei com esses. Fiz os meus primeiros trampos com eles e, com os frutos do trabalho, fui comprando novos equipamentos. Comprei um notebook e já saí pra fazer bailes. Juntei o dinheiro ganho nos shows e fui melhorando os equipamentos. Comprei uma controladora e fiz uma música com o MC Dede que estourou. Com o dinheiro do sucesso com o MC Dede comecei a montar o estúdio, melhorei o computador, investi numa referência, que eu não tinha, usava na verdade uma caixa de som de um micro-system antigo lá de casa. Com a grana dos shows consegui comprar as caixas.

Hoje em dia eu produzo no estúdio e faço shows. Com o estouro da música o pessoal começou a me procurar para produzir comigo. Graças a Deus até hoje trabalho com o MC Dede, já participei de um trabalho que teve um retorno legal, do Daleste, "O Gigante Acordou", entre vários outros MCs conhecidos e iniciantes.

Onde você encontrava informação pra mexer nos programas?
O aprendizado foi assim: todos os programas de edição musical são multi-pistas, a única coisa que muda são os comandos. Depois de comprar o Mac, ao invés do Acid passei a usar Pro Tools. Foi uma nova fase de aprendizado, de bastante pesquisa, visitas a estúdios que fazem uso dele, onde alguns DJs me passaram algumas coisas e facilitaram com várias manhas sobre como usar os comandos. Sentei do lado de muito produtor, não só de funk, mas de samba, rap. O lance da captação também. No mundo da música ninguém é nada sozinho. Galera dos estúdios passa o conhecimento.

A sonoridade do funk mudou como com a evolução do beatmaking?
As bases do funk da periferia eram todas retas. Hoje em dia é mais elaborado, usamos célula por célula pra construir um beat, a melodia é um músico que vem e faz, algumas melodias e montagens eu mesmo faço. Antigamente já pegávamos a base pronta, e o difícil era achar essas bases. Então eu pegava os beats dos DJs conhecidos que já tinham essas bases e só modificava, incrementava alguma coisinha, porque faltava conhecimento. E a primeira música minha que estourou foi a "Olha o Kit 3", do MC Dede. Foi quando senti mesmo que minha vida mudou. E sem depender de nada, nem KondZilla, nem grande produtora... Fiz a montagem lá, o MC foi e colocou a voz... Eu não tinha como captar, ele gravou em outro estúdio, mandou a voz, e num computadorzinho montei o beat. Tudo que precisei foi subir um slide no YouTube, e estourou, na época oito anos atrás, 2,5 milhões de views era explodido, tocava em todos os carros. Na época a divulgação era no Orkut. Publicava no YouTube, pegava o link e espalhava no Orkut. Essa era a divulgação. Hoje em dia a distribuição digital é mais ampla. Tudo que precisamos está mais próximo. Uma grande produtora ajuda, pois um time de artistas já conhecidos gera um monte de coisas, mas se o público gostar você tem com estourar sem nada disso.

Lucas Santtana

Músico baiano que está sempre experimentando no campo da sonoridade eletroacústica. Seu álbum mais recente, Modo Avião , é o primeiro da história da música brasileira a usar 100% de microfonação binaural, que proporciona uma audição em 360°.

Com que equipamento você trabalhava quando começou a produzir?
Lembro que no meu primeiro disco lançado em 2000, mas produzido em 1998/1999, a gente gravava em ADAT e no meio do disco transcreveu tudo para o Pro Tools. Já usava MPC 3000, um dos primeiros modelos de MPC. De lá pra cá não só essas mesmas máquinas evoluíram bastante (acabou de sair a MPC live, que resolveu inúmeros problemas das versões anteriores, e o Pro Tools já está na sua versão 13) como muitas outras apareceram. A série de sintetizadores da critter & guitari é fantástica, usei muito nos dois últimos álbuns e também na última trilha sonora para cinema. Tenho usado também app de celular, como o DM1 (drum machine 1). No disco que produzi da Anne Jezini ( Cinética), programei as baterias eletrônicas no celular entre um voo e outro. É muito equipamento lançado e cada um deles tem suas especificidades. Depende do que você quer para alcançar, que tipo de sonoridade.

Qual seria um bom exemplo de gênero musical fruto das tecnologias recentes?
Não só o trap, antes dele o dance hall, o drum'n'bass, o house, o techno, o kuduro, o dubstep e por aí vai. Todos os estilos da música eletrônica nascem de máquinas específicas que acabam dando a cara do estilo, pelo menos num primeiro momento. Mas é legal ressaltar que tecnologia não é só computadores e sintetizadores, né? Uma guitarra é tecnologia também, um surdo de escola de samba, um cadarço de sapato, um papel higiênico. Tudo isso é tecnologia. Então as guitarras determinaram vários gêneros também, os instrumentos de percussão idem. A própria bateria foi uma maneira tecnológica de juntar várias percussões num combo.

Qual foi a última grande tecnologia musical inventada, em sua visão?
Difícil essa pergunta. Não sei se tenho tanto conhecimento assim para dizer. Mas sem dúvida a mudança da fitas de rolo para os sistemas de gravação digital (Pro Tools/Logic/Cubase, etc.) foram bastante revolucionários. Principalmente porque eles têm evoluído numa tal velocidade que já é muito próximo do analógico. Eles não só causaram uma enorme mudança como não pararam de evoluir e facilitar/baratear a produção musical. Sem eles ninguém estaria produzindo seus discos em casa na última década.

Perdeu-se alguma qualidade na transição da era analógica para a digital?
Então, sempre há ganhos e perdas em tudo na vida, não só em relação ao áudio. Recentemente fui no estúdio do Bruno Buarque e ele me mostrou uma mesma coisa gravada numa fita de rolo e no Logic. Tem uma sujeira no analógico que é muito especial, é como se as coisas gravadas ali já se mixassem quase que automaticamente. Tem um processo químico ali, como na fotografia, que é único. Por mais que o digital evolua, nunca será a mesma coisa, porque nunca será um rolo de fita, né? O digital é mais limpo por natureza, e aí inventam mil coisas para você sujar ele, comprimir ele, bombar ele. Eu curto misturar analógico e digital e tentar conseguir o melhor dos dois mundos.

Nave Beatz

Produtor curitibano, já trabalhou com nomes como Flora Matos, Ogi, Emicida, Criolo, Kamau, Rael, mais um monte de gente boa no âmbito do rap e congêneres. Fora isso, ele ganhou um Grammy Latino pela produção de "Desabafo", do Marcelo D2.

Você pegou aquela época de transição da MPC pro computador pessoal, né?
Sim, eu sou de uma geração de transição, que queria muito ter uma MPC, mas era um equipamento muito caro. Quem resolvia correr atrás desse som tinha que ficar muito tempo economizando dinheiro. Ao mesmo tempo, nessa época, final dos anos 1990, começo dos 2000, o computador acabou aparecendo como uma alternativa mais barata e mais à mão: estava ali do lado. A chegada dos softwares, Soundforge, Fruit Loops, Acid, todos esses do começo dos anos 00, fez com que a gente abrisse mão de querer ter uma MPC ou qualquer tipo de máquina, teclado, analógico. Hoje em dia tem a MPC Renaissance, que trabalha pelo computador, mas, se tem algo que abro mão de usar é MPC. Tenho uma, mas acabo nem usando porque o computador supre todas as minhas necessidades.

A gente acaba sempre caindo naquela ideia de que se democratizou a música, a produção musical em geral...
Isso é o que aconteceu, de mais notável. Qualquer um pode produzir, gravar, está tudo à mão. A internet é um meio que ajuda muito nessa democracia. Consequentemente novos gêneros vão nascer. O trap está aí. Aqui no Brasil mesmo você vê o funk, o tecnobrega, o rap, se beneficiaram dessas facilidades tecnológicas. Antigamente, se o cara não tivesse dinheiro pra gravar a própria música ele tinha que dar um jeito na rua, em baile, e acabava tendo que contar com a ajuda de alguém, ou ser visto cantando, descoberto, pra conseguir gravar uma música. Hoje, basta você ter um computador, uma placa de som, um microfone e um fone, que consegue fazer um disco. Para muitas coisas as ideias já existiam, e agora existe um meio de concretizá-las. Isso dá margem pra muita coisa boa aparecer, e ruim também. Quem tem talento vai aparecer de qualquer forma.

Qual o último aparato inventado que você considera super relevante?
Na minha modesta opinião, baseado em experiências próprias, o iPhone, os smartphones em geral, são uma grande mão na roda, eles ajudam muito no lance da criação. A gente tem uma forma de passar arquivo muito rápido e um gravador pra não esquecer ideias que aparecem do nada, ou simplesmente pra registrar uma ideia que vai se completar num outro país ou cidade. Posso começar uma música aqui, no violão, cantar uma música e mandar pra outra pessoa na China fechar ela. Até mesmo no estúdio, você está criando e vem uma linha de guitarra e você cantarola ela no gravador. Acho que muitas músicas deixaram de se perder por conta do invento do smartphone.

Existe alguma desvantagem de fazer música no computador?
Particularmente não vejo grandes desvantagens para nós que fazemos música no computador. É óbvio que quando você quer gravar um naipe de metais, cordas ou até mesmo bateria, faz uma diferença brutal você gravar num estúdio profissional, que tenha a acústica adequada praquilo. Mas desvantagem não vejo. Só vejo vantagens: a possibilidade de fazer música em qualquer lugar, num quarto de hotel, ou mesmo sair na rua gravando qualquer coisa.

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.