Uma Nikon que se tornou digital com Raspberry Pi. Crédito: Samuel Mello Medeiros/ I'm Back

Este cara ressuscita câmeras analógicas com engenhocas digitais de baixo custo

O brasileiro Samuel Mello Medeiros quer resgatar a fotografia em filme por meio de um aparelho baseado em código aberto.

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10 novembro 2017, 3:41pm

Uma Nikon que se tornou digital com Raspberry Pi. Crédito: Samuel Mello Medeiros/ I'm Back

"Hoje quase ninguém mais fala de fotografia como arte", lamenta o designer e ilustrador Samuel Mello Medeiros. "Não aguento mais ouvir falar de megapixel!", reclama. Morador da cidade de Como, na Itália, o brasileiro decidiu que havia passado da hora de o mundo valorizar as câmeras analógicas amadoras, uma de suas paixões.

Aos 12 anos, montou sua primeira câmera pinhole. Como sua família não tinha dinheiro para brinquedos, Medeiros tinha de se divertir usando outras ferramentas. Outra criação, conta, foi um boneco Falcon feito de pano por ele mesmo. A primeira câmera séria foi uma Canon de segunda mão. Ele e o irmão consertaram o aparelho pensando em vendê-lo. A máquina está até hoje em sua coleção.

Há quatro ou cinco anos, resolveu criar uma maneira de transportar as velhas máquinas para os anos 2000. Começou desmontando algumas câmeras digitais para entender como poderia unir os dois mundos: analógico e digital. A pergunta em sua cabeça era: "Como transformar a câmera em algo híbrido?".

Medeiros não queria estragar a capacidade de fotografar com filme, disso ele sabia. Mas usar materiais de câmeras já existentes esbarrava no problema de o software e o hardware serem propriedade intelectual de grandes corporações. Ou seja, seria impossível produzir qualquer coisa que pudesse ser vendida para o grande público.

O designer faz questão de frisar que sua invenção não é inédita. Já haviam sido desenvolvidas ferramentas para captar imagens digitais em aparelhos analógicos. O que Medeiros de fato conseguiu fazer foi criar uma "maneira econômica" de conseguir isso.


Samuel com uma das engenhocas aliada ao seu smartphone velho de guerra. Crédito: Samuel Mello Medeiros/ I'm Back

Então, Samuel teve um clique. "Vi que o Raspberry Pi estava bombando e resolvi testar", disse. Montou todo a estrutura da câmera com os componentes open source, inclusive o sensor que capta as imagens. Para financiar a empreitada, fez uma campanha no Kickstarter e pediu 2.500 euros. Uma semana depois, já tinha ultrapassado o pedido total em 325%: arrecadou 6.800 euros e começou a produzir o I'm Back, como foi batizado o aparelho, em casa.

Com o auxílio de uma impressora 3D, vendeu mais de 100 unidades para clientes em países como Japão, Áustria, Espanha, Estados Unidos e Israel. O segredo do sucesso? Segundo Medeiros, as avaliações negativas de dezenas de blogs de fotografia foram a alavanca para a popularidade do I'm Back. "Fui chamado de babaca, de hippie", relata. "Quando você tem uma ideia, é muito difícil que as pessoas acreditem. Você ouve: 'Não vai dar certo'. Mas o meu público não é o fotógrafo profissional". Medeiros, aliás, manda um recado para os fotógrafos profissionais: "Não comprem!". O I'm Back foi criado, explica, "pensando nas milhões de máquinas esquecidas em gavetas".

O produto é compatível com "99% das câmeras". Um sensor captura a imagem e a transfere para uma memória digital. O controle pode ser feito via telefone celular, por meio de uma conexão wireless. Além de transformar a câmera analógica em digital, o I'm Back também cria a possibilidade de torná-la uma filmadora. O vídeo de sua segunda campanha no Kickstarter foi todo filmado com uma Nikon F, de 1965.

Medeiros está aprimorando o novo modelo, deixando-o menor e instalando um pequeno visor para que o fotógrafo possa ver como ficou seu clique instantaneamente. O novo objetivo é bem mais ambicioso: a campanha precisa de 85 mil euros para colocar a nova versão do acessório na rua. Para comprar um, o investimento é de 200 euros (R$ 757).

Para o público maker, Medeiros também dá a opção de montar a câmera com peças Raspberry Pi a partir da estrutura de plástico criada por ele. As instruções, claro, estão incluídas. Quem escolher essa opção terá uma resolução menor, de 8 megapixels. A versão completa e montada terá 16 megapixels porque Medeiros vai usar peças de fabricantes de câmeras para criar o modelo.

Você pode apoiar o projeto I'm Back aqui.

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