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Por que os apps de encontro fazem as pessoas transar menos?

É muito mais fácil parecer que transa do que efetivamente transar na era do match virtual.

por Eduardo Ribeiro
07 Setembro 2018, 10:00am

Uma pesquisa recente, realizada pela consultoria Consumoteca Lab, mostra que os apps de encontro, ao contrário do que se possa pensar, andam fazendo as pessoas transarem menos. A principal razão para isso seria que sexo e intimidade perderam a associação. Essa dissociação surge da vontade de experimentar tudo em um mundo de muita oferta, daí a cobrança por selfies desejáveis e uma nova visão sobre o que seria intimidade. Foram coletadas respostas de 1000 brasileiros entre 18 e 50 anos, das classes ABC, sendo 53% mulheres e 57 homens, 78% heteros e 22% homo ou bissexuais.

No caminho entre o carinho e o sexo, o que vale para a chamada “geração beta” na conclusão do estudo, são pessoas interessantes, que façam seu tempo valer a pena. Dos respondentes, 46% só quer encontrar pessoas interessantes, e apenas 7% se importa com a quantidade de vezes que faz sexo. Para essa galera, o sucesso numa relação não está necessariamente na transa, mas nas pequenas atenções recebidas. “Minha prioridade? Encontrar uma pessoa maravilhosa”, joga com altas expectativas a veterinária Júlia, de 28 anos. O problema é que as altas expectativas criam um processo seletivo que não seria tão seletivo assim num encontro presencial com alguém que poderia lhe atrair numa situação do mundo tátil.

“Os aplicativos de relacionamento são ferramentas que facilitam o contato inicial com o pretendente amoroso ou sexual devido ao baixo risco de rejeição e frustração. Ao passo que o contato virtual aumenta, o contato físico diminui em virtude de requerer maior exposição e gerar insegurança e angústia”, comenta a psicóloga Marciane Sossmeier. “Já a intimidade ficou ameaçada perante a liquidez das relações transitórias da atualidade”, analisa. “Mesmo em uma relação cujo objetivo seja apenas sexo, as pessoas precisam interagir em algum grau social, se tornando mais íntimas conforme vão se relacionando sexualmente. Nem todos possuem condições psíquicas para se vincularem intimamente, por isso, as relações fugazes são mais cômodas e convenientes”.

Antigamente, pelo menos até a aparição dos primeiros chats – mIRC, ICQ, bate-papo UOL e Terra, MSN, Orkut etc. – era preciso, em algumas famílias, até autorização dos pais para ter um encontro. Já os apps de relacionamento derrubaram esse muro e criaram a ideia do fácil acesso a pessoas dispostas a um encontro. Na visão da psicanalista, pós-graduada em dinâmicas das relações conjugais e familiares, “um padrão e comportamento disfuncionais são desenvolvidos quando as frustrações inerentes às relações não são suportadas. Dessa forma, o fácil acesso aos pretendentes favorece a troca constante de parceiros, o que evita lidar com as frustrações, mas torna as relações superficiais. É através do contato sólido com o outro que nos desenvolvemos, aprimorando nossos potencias e modificando nossos aspectos disfuncionais”.

Outra coisa que surge nesse cenário são os relacionamentos Catfish, ou seja, que ficam só no papinho virtual e uma das partes evita o encontro, sendo muitas vezes um fake ou tendo a aparência diversa daquela mostrada nas fotos de perfil. Fotos que em alguns casos sequer revelam o rosto. Muitos relacionamentos de internet são invisíveis. As pessoas não se encontram, mas chegam a se relacionar por anos. “É preciso sempre lembrar que o indivíduo, por mais incauto que seja, consegue visualizar a barreira entre a vida online, na qual ele pode ser quem quiser e dizer o que quiser, e a vida offline, na qual ele não consegue representar por muito tempo, de modo que entre uma e outra existe a concretude”, observa Osvaldo Vasconcelos, mestre em comunicação pela UNAMA e autor do estudo Vitrine Virtual: Comunicação, Práticas Corporais e Sociabilidade no Grindr. “Os relacionamentos virtuais duradouros acabam representando o idílico, aquilo que o indivíduo gostaria que fosse realidade, mas que ele sabe que tal durabilidade só existe na virtualidade, pois o cotidiano, a intimidade, a convivência, normalmente secam a flor do amor virtual”, completa.

Larissa Alves, 21 anos, começou a usar esses aplicativos há um tempão, e no começo, conta que o objetivo era encontrar algumas pessoas pra sair. Ela preferiu deixar só pra mulheres porque tinha medo de encontrar um homem que não conhecesse. “Então tem esse agravante do medo de você encontrar um homem que você não conhece e dar ruim”, diz. Para Larissa, a diminuição das transas via encontros do Tinder e correlatos acontece por pura preguiça mesmo das partes envolvidas. “Quando a conversa andava, às vezes a gente marcava de se ver, só que dava preguiça. Às vezes, esquecia de abrir o aplicativo e perdia aquela conversa. Com casal hétero tem muito a questão do medo, e entre casais homossexuais, da preguiça e da falta de comprometimento por você não conhecer a pessoa”.

A jovem acrescenta que tem a questão do ego, de você se sentir desejado quando várias pessoas dão match com você, principalmente se for alguém atraente. “E uma coisa que percebi é que, quando eu mudo de cabelo, o perfil de pessoas que dão match comigo muda. Agora, de cabelo curto, eu tô dando muito menos match do que quando tô de cabelo longo, então tem sim essa questão de imagem.” Os matches são o que alimenta uma espécie de novo narcisismo, quanto mais, melhor. Isso mexe substancialmente com a autoestima. Daí que o estudo mostra que não existe aquela coisa dos opostos que se atraem. A busca pelos matches se dá por pessoas parecidas conosco. Com elas, nos reafirmamos e minimizamos as chances de fracasso, pois são mais capazes de valorizar o que temos pra oferecer.

“O medo da aproximação do outro, de se expor, se arriscar e investir, bem como o temor de perder a admiração de alguém, são alguns dos fantasmas que atrapalham a vida fora do mundo virtual”

Como é de praxe estalquear crush nas redes para avaliar sua personalidade, há usuários que se aproveitam disso e descobrem a melhor hora de postar algo no Facebook ou no Instagram, por exemplo, de olho no maior fluxo de gente logada. “Vicejam uma possibilidade maior de curtidas em dada fotografia postada”, afirma Vasconcelos. “As funcionalidades dos apps ajudam nisso também, pois, no Instagram, o feed não é mais por cronologia, e sim, por relevância, de modo que alguém posta um story avisando que adicionou uma foto nova. A vigilância que o indivíduo coloca em si mesmo mede o grau de aceitabilidade que ele deseja, pois o que busca uma pessoa que posta fotos todos os dias, seja no feed, seja no story?”.

Mais que parceiros sexuais nesse jogo de filtros e perfis idealizados, as pessoas estão em busca de experimentação. Os encontros presenciais só dão certo quando o date é alguém muito interessante. “Cada um constrói para si uma historinha, você ressalta suas melhores partes, o que você fez de interessante pro mundo”, diz a farmacêutica Anita, de 24 anos. O que as pessoas querem em apps de relacionamento são encontros, em primeiro lugar, sexo, em segundo, e relacionamento sério. Muita gente ainda entende o sexo como uma necessidade básica, no entanto, especialmente as classes mais altas. A Classe C ainda associa sexo com amor, enquanto 81% da Classe A aprova o sexo casual. A predominância moral e religiosa tem influência nessa questão.

Com uma coisa a maioria concorda. O primeiro encontro presencial foi citado como o momento mais difícil na hora de achar um date via aplicativos. “O encontro pressupõe interação real e espontânea e é muito difícil manter os atributos apresentados virtualmente se eles não forem condizentes com a verdade”, esclarece a psicóloga Marciane Sossmeier. “O medo da aproximação do outro, de se expor, se arriscar e investir, bem como o temor de perder a admiração de alguém, são alguns dos fantasmas que atrapalham a vida fora do mundo virtual”.

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