Quantcast
A ascensão e a queda dos food trucks em SP

Depois do auge da modinha, estima-se que o número de carros nas ruas da cidade tenha caído pela metade. A prefeitura agora estuda nova legislação para o funcionamento dos trucks.

Na dobradinha 2014-2015, era difícil ler algo sobre comida em São Paulo sem esbarrar em menções a food trucks. O nome bonitão em inglês dava um banho de grife na boa e velha comida de rua e a reboque vinha tanto a salvação da gastronomia quanto surgia uma nova meca para a rapaziada empreendedora em busca de um mercado promissor. Passados dois anos e a pior recessão brasileira da história, o romance acabou: o número de carros caiu pela metade, muitos deles estão à venda e quase não há demanda para adaptar novos modelos.

"São Paulo já teve quatrocentos food trucks. Hoje, esse número caiu para duzentos", conta Osvane Mendes, criador do Guia Food Truck, primeiro site e aplicativo brasileiro com informações sobre o setor, lançado em 2014. "Desses, acho que uns oitenta funcionam com uma infraestrutura boa, industrial, por trás", diz. Também envolvido com produção de eventos dedicados aos trucks, Osvane estima que encontros do tipo caíram 60% na capital paulista. "Eu cheguei a fazer cinco eventos por mês. Nesse ano, até agora [em meados de março], fiz apenas três."

O food park da Augusta ainda resiste. Foto: Felipe Larozza/VICE

Não dá, ainda, para dizer que acabou o espaço para os food trucks, mas sim que o mercado se tornou mais realista. Passada a moda, ficou para trás a ideia do trabalho no pique good vibes retratado no filme Chef, em que um cozinheiro larga a vida num restaurante estrela Michelin para curtir a vida (e o filho) viajando os Estados Unidos servindo sanduíche num food truck. "Muita gente entrou [no negócio] com a perspectiva errada, pelo hype", diz Jorge Gonzales, sócio do Buzina, truck pioneiro de hambúrgueres aberto no final de 2013. "A realidade é o pré-preparo feito na base e o pós, lavando caminhão".

"São Paulo já teve quatrocentos Food Trucks. Hoje, esse número caiu para duzentos", conta Osvane Mendes, criador do Guia Food Truck

Essa não é a única explicação para a esfriada na chapa, claro. Além da piora da economia, a promessa de comida boa por preço acessível nem sempre era verdadeira na prática — pelos dois motivos. Também pesou o fato de que muita gente que entrou na jogada tinha zero background na cozinha. Em resumo, é consenso entre quem se mantém no mercado dos trucks que o boom da comida de rua gourmetizada resultou em um excesso de nomes ruins rodando por aí — o que durante um período tornou difícil separar o joio do trigo.

Se salvou dessa quem manteve um trampo bom e conseguiu estabelecer um nome cedo, como o Buzina, ou encontrou outros caminhos para se destacar. Jair Abril Jovas, dono do truck de comida colombiana Macondo, por exemplo, diz que uma de suas vantagens é oferecer um cardápio com 170 possibilidades de rango — o maior número de opções dentro desse mercado — e ainda assim entregar os pedidos em no máximo sete minutos. Instalado em um ponto fixo na rua Augusta durante a maior parte da semana, a variedade ajuda o Macondo manter uma clientela fiel.

"Só quem continua são aqueles que de certa maneira trazem um produto verdadeiramente artesanal", conta Jair. "Mas a realidade é que todo dia eu ouço falar em um novo truck sendo vendido."

Os preços dos trucks postos à venda variam muito de acordo com o modelo dos veículos. Há desde trailers por entre R$ 15 mil e R$ 25 mil, até carros por menos de R$ 100 mil e caminhões que chegam a R$ 200 mil. Da mesma forma, os motivos de quem vende são diversos. Gabriel Freitas, do Los Chicanos de Guadalupe, decidiu sair fora do mercado porque recebeu uma proposta para trabalhar em um restaurante no exterior. No entanto, ele afirma que a experiência com o food truck foi boa. "Cumpriu minhas expectativas, até pensava em abrir outro. Agora, é necessário uma dedicação de 100%, é um trabalho árduo e cansativo", diz.

Já Pedro Faria decidiu vender o seu caminhão após fazer um estudo do mercado e avaliar que o retorno financeiro não atingiria o objetivo esperado neste ano, mesmo que o negócio operasse no azul. Dono do Da Praia ao lado de outros três sócios, Pedro entrou no jogo no começo do boom, em 2014, e viu seu truck ganhar destaque em diversas listas de melhores do ramo.

Jair Abril Jovas, do truck de comida colombiana Macondo, oferece um cardápio com 170 possibilidades de rango. Foto: Felipe Larozza/VICE

"Ficamos quase três anos na rua e fechamos por um pouco de tudo, inclusive esse objetivo financeiro que não alcançaríamos", diz Gabriel, sem esconder um pouco de chateação com o fim do Da Praia. Um dos outros pontos que influenciaram nessa decisão é um desencontro entre expectativas dos donos do truck e do público. "Há uma questão cultural, no Estados Unidos as pessoas pegam a comida e vão comer no parque, em casa, no escritório. Aqui, é um programa de almoço. Tínhamos mesas ocupadas durante uma hora com um pessoal no intervalo do trabalho. Isso afastava outros clientes."

Outro fator que explica o grande número de trucks usados à venda é que muitos negócios estão estacionando de vez. Como uma espécie de passo seguinte no negócio, tem-se deixado os carros de lado para investir num ponto fixo. Nilton Diniz, dono do D'Macarons, abriu uma loja em Perdizes no fim do ano passado. Agora, colocou à venda um dos dois carros da marca para investir mais no endereço.

"Sempre fez parte da nossa estratégia. Primeiro queríamos democratizar os Macarons, que tinham um glamour muito grande. Depois, com o nosso nome feito, abrir um ponto fixo. O que não significa que vamos sair da rua", afirma ele, para quem outro dos problemas do setor é a legislação. Aprovada durante o mandato de Fernando Haddad, a Lei municipal 15.947 é controversa. Entre os pontos problemáticos, há a determinação de que as subprefeituras fiquem responsáveis por emissão dos Termos de Permissão de Uso (TPU), a autorização que permite aos carros estacionar em determinado lugar.

Ocorre que cada sub fez isso no seu tempo e eficiência. A sub prefeitura de Pinheiros, que supervisiona tanto a atividade nos bairros de Pinheiros e Vila Madalena quanto o endinheirado Itaim Bibi, saiu na frente e fez tudo bonitinho. Outras não.

Jorge, que atua na região da subprefeitura de Pinheiros com o Buzina, diz que não há dúvidas de que a lei foi um avanço. No entanto, é preciso evoluir em vários aspectos. "Faltam termos em relação às vagas demarcadas para não ter que ficar negociando com o pessoal na rua, pontos de energia disponíveis, regularizar a venda do álcool [hoje proibida quando os carros estão estacionados na rua]. As pessoas que vem para cá não vem dirigindo e nem vão encher a cara, não tem porque ser proibido vender cerveja", explica.

Nos últimos tempos, os trucks vêm estacionando. Foto: Felipe Larozza/VICE

Com planos de abrir um endereço fixo do Buzina até o meio do ano, Jorge diz que não vai vender o caminhão nem abandonar as ruas. "É nossa raiz e é um mercado que tem que ser incentivado, gera empregos, melhora a distribuição de oferta de comida boa com preço acessível na cidade. O fato de ter caído o movimento não significa que deve ser esquecido ou deixado de lado", diz.

Desde que João Dória (PSDB) assumiu a prefeitura, no entanto, as notícias são um tanto desanimadoras. Um dos pontos tradicionais de trucks estacionados, a Praça Oswaldo Cruz foi desocupada no começo do ano. Ali, onde a avenida Paulista deságua no Paraíso, a licença para comércio de alimentos venceu no dia 31 de janeiro. Segundo nota da Secretaria Municipal das Prefeituras Regionais, uma comissão da subprefeitura da Sé, responsável pela área, deve ouvir moradores da região e representantes dos food trucks para estabelecer um critério para um novo chamamento público que definirá quem pode parar ali.

O Moema Food Park, primeiro evento de rua de trucks de São Paulo, criado por Osvane Mendes em 2014, também está suspenso.

A Secretaria disse ainda que "que criou grupo de trabalho que estuda nova legislação para o funcionamento de food trucks na cidade de São Paulo." Enquanto isso o Moema Food Park, primeiro evento de rua de trucks de São Paulo, criado por Osvane Mendes em 2014, está suspenso. Toda a documentação está em dia, mas segundo Osvane, é preciso apresentar o projeto novamente para a prefeitura — mesmo que ele exista há três anos. "Nesse momento, eu não tenho resposta porque não está autorizado", conta.

Agora, se você torce o nariz para essa história toda, acha que food truck é uma grande frescura e gosta mesmo do dogão, trago boas notícias. O dono da empresa de adaptação de veículos Bumerangue Reboques, conta que o tempo de espera para o projeto de um novo caminhão que era de seis meses a um ano, caiu para 30 dias hoje. "Agora eu fabrico trailers e carrinho para ambulante que vende comida na rua há 30 anos. Esse mercado aí não mudou em nada, a demanda continua igual."

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.