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Para Lena Willikens, a música é uma experiência mística

A DJ alemã, que se apresenta nesse sábado (3) no Dekmantel Brasil 2018, diz que seus sets são uma troca de energia menos intelectualizada e mais espiritual.

por Amanda Cavalcanti
27 Fevereiro 2018, 11:33am

Foto via Facebook

Em uma entrevista para a FACT Magazine no ano passado, a alemã Lena Willikens comenta que cada set seu é criado com um certo público e energia em mente — sendo assim, são experiências únicas e nunca poderiam ser replicados. Residente do Salon Des Amateurs, em Düsseldorf, importante capital da Alemanha e berço do krautrock, a DJ e produtora tem se tornado conhecida por sua relação espiritual com a música desde que saiu de Colônia, sua terra natal, e começou a tocar em grandes clubes da região no começo da década.

Lena não demorou a chamar a atenção dos grandes da música eletrônica na Europa e ao redor do mundo: além de passar a se apresentar regularmente no Salon, a DJ também se afiliou ao selo Cómeme (casa também de artistas como Philipp Gorbachev e Matias Aguayo), por onde lançou seu primeiro e único projeto de estúdio, Phantom Delia (2015), uma demonstração muito mais introspectiva e fria do techno-pop energético que ela apresenta em seus sets ao vivo.

Energia essa que ela traz para São Paulo nesse fim de semana, em duas apresentações no Dekmantel 2018 durante o sábado (3): uma durante o dia com o companheiro de Salon Des Amateurs, Vladimir Ivkovik, e uma sozinha na programação noturna do festival. Em nossa conversa, ela falou sobre as mudanças na cena de Düsseldorf desde que começou a tocar e a energia que se esforça para trocar com o público durante suas apresentações. Leia abaixo:

THUMP: Seus sets são resultado de uma pesquisa extensa de som e mistura todos os tipos de gêneros. Como você garante que essa experiência estética tão diversificada se conecte com o público?
Lena Willikens: Eu nunca me fiz essa pergunta, na verdade. Eu suponho que meu público pense em música do mesmo jeito que eu. É difícil para mim imaginar que há pessoas que escutam apenas um estilo – ainda mais hoje em dia, em que qualquer tipo de música está disponível. Você tem que ser um consumidor/ouvinte muito teimoso pra ignorar o resto e se dedicar a apenas um estilo ou estética.

Em uma cena tão grande e diversificada como a de Colônia, foi difícil para você inicialmente se encaixar e fazer música que ainda não estava sendo feita exaustivamente?
Não – mas eu nunca quis me encaixar. Mesmo tendo vivido Colônia, me sinto definitivamente mais próxima da cena de Düsseldorf em torno de Salon Des Amateurs; Düsseldorf é super perto de Colônia (uns 30 minutos de trem). E Düsseldorf é onde tudo começou. Quando me mudei para Colônia, não consegui me livrar da imagem de "Lena do Salon des Amateurs", que tem prós e contras...

Como a cena de Düsseldorf mudou desde que você começou a pesquisar som e se tornou residente no Salon des Amateurs?
A cena de Düsseldorf mudou muito nos últimos dez anos. Eu acho que o Salon Des Amateurs foi um lugar importante para muitos jovens produtores e DJs se reunirem e ouvirem músicas em um contexto de festa, música que você não ouviria em nenhuma outra balada de Düsseldorf. E isso também passou a ter um efeito na cena em Colônia. Quando eu comecei a convidar Jondo, Jules e DJ Brom (todos jovens DJs de Colônia) para tocar regularmente no Salon, sentiu que eles começavam a levar uma certa vibração e atitude “Salon” para Colônia também.

Qual, para você, é a diferença entre a força criativa que você coloca para montar seus DJ sets e pesquisar música da que você usa para compor seus próprios sons?
É algo totalmente diferente para mim. Quando estou pesquisando música para um determinado trampo, tento considerar o público e o clima em que eles podem estar, o line-up e o tempo pra tocar, etc. É como uma preparação para uma troca de energia. Para mim, fazer música é uma coisa mais introspectiva. Ao produzir, não me importo com um determinado contexto, nem com o que os ouvintes possam pensar.

Você fala muito sobre o lado espiritual da música, sobre curtir sons como uma experiência menos intelectual e mais mística. Seu relacionamento com som sempre foi assim?
Sim, sempre foi assim. Eu acho que qualquer pessoa que gosta de música já experimentou a sensação de encontrar paz, liberdade e alívio de qualquer tipo de dor enquanto ouvia um som. Não me interprete mal, não estou falando como se isso fosse um escapismo ou substituto da religião. Em contraste com a religião, a música inclui pessoas e qualquer tipo de sentimentos e não é intelectual em primeiro lugar. Acho que, com uma abordagem analítica da música, você pode perder a capacidade dessa experiência mística.

E como isso funciona quando você se propõe a pesquisar som? Você acha que a música que você mais gosta é a que ressoa com você em um nível espiritual?
Sim, tipo isso. Mas eu prefiro falar sobre energia, não de uma maneira esotérica, mas com um significado profano, mesmo. Tocar na frente de uma multidão significa para mim sempre uma troca de energia. Eu preciso receber energia para dar algo em troca. Quando procuro música para tocar e compartilhar com pessoas que querem dançar, procuro música que consegue expressar uma variedade de humores e energias. Eu meio que pesquiso por um vocabulário com o qual eu posso contar uma história abstrata.

Em 2015, eu entrevistei a DJ chilena Valesuchi pedi pra ela citar algumas DJs que ela viu tocando recentemente que mais a inspiraram, e ela disseo o seu nome. Agora, queria repetir a mesma pergunta para você.
Em geral, prefiro falar sobre DJs que me inspiraram sem excluir DJs homens. Eu prefiro não separar porque sonho com um mundo onde isso não é mais um problema. Mas isso pode demorar um pouco. Então, OK: Towlie, Mozghan e Jasss.

Em uma entrevista pra FACT, você diz que cada set funciona em seu próprio momento particular e não pode ser reproduzido com outro público. Então, quais coisas especiais ou novas você está preparando para o set no Dekmantel Brasil?
Ah, eu não sei direito ainda. Vou começar a me preparar depois de chegar no Brasil – preciso sentir o calor e tomar um café com Vladmir antes!

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