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Esses neurocientistas inventaram uma forma de melhorar a mira de jogadores de FPS

Eis como usar a ciência e os dados para revolucionar o mundo dos eSports.

por Matthew Gault; Traduzido por Ananda Pieratti
06 Fevereiro 2018, 5:28pm

Crédito: Aim Lab

Quando o assunto é jogos de tiro, sou um jogador medíocre. Não sou especialmente ruim, mas ninguém me escolheria para participar de um time profissional de Counter-Strike: Global Offensive.

O Aim Lab — um novo software de treinamento desenvolvido pela empresa Statespace e que será lançado em 7 de fevereiro no Steam — promete me ajudar a ser um jogador melhor. Desenvolvido por quatro neurocientistas, o Aim Lab oferece diferentes pistas de tiro, registra seu desempenho e dá dicas para melhorar sua performance.

Depois de apenas 90 minutos testando a versão beta do software, descobri que atiro melhor com pistolas e que tendo a mirar muito para a esquerda quando movo meu mouse da esquerda para a direita. Segundo as estatísticas do Aim Lab, aumentei minha precisão com a pistola de 67% para 77% e minha precisão com um rifle de 28% (sim, eu sou bem ruim) para 60%. Uma melhora e tanto para um jogador casual que usou uma versão beta do software por menos de duas horas.

Atualmente, existem vários softwares usados por jogadores para treinar suas habilidades de tiro ( O Aim Hero é bem popular na Steam), mas eles costumam ser mais focados em entretenimento do que em melhorar a performance do jogador. Quando eles querem treinar a sério, os jogadores profissionais preferem simplesmente jogar mais Counter-Strike. Wayne Mackey, o co-fundador da Statespace, diz que a proposta do Aim Lab é oferecer um software baseado na análise de dados e em estudos científicos.

"Estamos tentando ir além do treino de pontaria", disse Mackey. "Nosso objetivo é usar a análise de dados para revolucionar a performance dos jogadores profissionais, da mesma forma que a análise de dados revolucionou os esportes tradicionais."

No momento, o Aim Lab oferece uma série de exercícios de pontaria que são completados em três locais diferentes: uma pista de tiro genérica, uma floresta inspirada no cenário de PlayerUnknown's Battlegrounds e um templo inspirado em Overwatch. Cada exercício tem um objetivo e uma forma de avaliação. O pentakill, por exemplo, dá aos jogadores cinco balas e cinco alvos em movimento, enquanto o strafetrack faz com que o jogador atire em apenas um alvo em movimento.

No momento, o funcionamento das armas do software é baseado no FPS mais popular do mundo, o PlayerUnknown's Battlegrounds, mas o Aim Lab permitirá em breve que seus jogadores personalizem suas armas, as compartilhem com outros jogadores e simulem os mecanismos de outros jogos. Os jogadores poderão costumizar quase todos os aspectos do funcionamento das armas — o recuo, o nível de ricochete, o dano e a forma como ela aparece na tela — para que assim eles possam aperfeiçoar suas performances em Counter-Strike ou em qualquer outro jogo.

O exercício que mais fiz foi o spidershot. Ao começo de cada rodada, esferas surgiam em cantos aleatórios da tela e eu tentava atingí-las. O Aim Lab respondeu ao meu nível de habilidade e, a cada tiro meu, esferas de vários tamanhos surgiam e desapareciam em diferentes velocidades. Quando eu demorava para atirar em uma das esferas, a próxima flutuava na tela por mais tempo. Quando eu acertava um alvo, o seguinte era ligeiramente menor. Quando eu errava, surgia uma esfera pouco maior.

Após algumas rodadas, notei um padrão estranho. Cada sessão de spidershot começava com uma esfera grande bem na minha frente. Quando eu atirava nela, uma outra esfera aparecia no canto da tela, e quando eu a explodia, surgia outra esfera bem no meio da tela. Isso começou a me intrigar. Como um treino tão obviamente padronizado melhoraria meu desempenho?

No entanto, segundo Mackey, essa mecânica repetitiva tem uma explicação. "Ela foi inspirada nas minhas pesquisas", disse ele. Mackey, que já publicou artigos científicos em revistas acadêmicas, hoje divide seu tempo entre sua pesquisa em neurociência e a Statespace.

"Na minha pesquisa, uso os movimentos oculares para estudar algumas funções dos processos visuais e cognitivos. Quando movemos nossos olhos, a imagem captada pela nossa retina muda, o que desencadeia um processo de remapeamento no cérebro cujo objetivo é manter a estabilidade da nossa visão."

O Aim Lab quer mostrar aos seus jogadores quais são seus pontos fortes e fracos. "Você atira melhor quando os alvos estão no lado esquerdo ou direito da tela? E no canto superior direito? Ou quem sabe um pouquinho à esquerda do centro da tela?", diz Mackey. "É difícil notar esses detalhes durante um jogo, e é por isso que nossos alvos sempre aparecem no centro da tela no spidershot. Esse alvo no centro "limpa" o padrão de transformação espacial, de forma que o próximo alvo surgirá sempre em relação a uma posição fixa, o que nos dá informações cruciais sobre a performance espacial dos jogadores".

Quando o jogador termina uma rodada no spidershot, o Aim Lab dá para ele sua pontuação e uma série de estatísticas. Entre elas estão não apenas dados comuns em jogos de tiro, como o número de tiros dados e de acertos por segundo, mas também gráficos que mostram a precisão geral e a precisão em certos campos da visão do jogador.

Crédito: Aim Lab

Foi assim que descobri que tenho dificuldade em acertar alvos localizados do lado direito do meu campo de visão. Conforme eu observava meus resultados, notei que eu tendo a errar o tiro quando movo meu mouse da esquerda para a direita. Comecei a prestar atenção nisso e melhorei minha pontaria. Foi muito interessante receber uma avaliação instantânea da minha pontaria — admitidamente — medíocre.

Macley conheceu o co-fundador da empresa, Jay Fuller, no programa de pós-graduação da Universidade de Nova York. A dupla dedicou cinco anos à pesquisa científica antes de abrir sua própria empresa. "Minha pesquisa é focada em criar modelos computacionais do cérebro humano e de comportamentos relacionados à visão e à atenção, e o trabalho do Jay é mais focado em habilidades motoras", disse Mackey. "Foi um encontro perfeito, porque juntamos todas as habilidades fundamentais para se jogar videogame".

Os dois sabiam que, embora a prática leve à perfeição, aperfeiçoar sua habilidade no Counter-Strike não significa apenas jogar Counter-Strike por dias a fio. Mackey acredita que o jogador que treina suas habilidades fundamentais tem uma vantagem. "O treinamento dos jogadores da NFL não se limita a jogar futebol americano, e existe um motivo para isso", disse ele. "Eles correm, eles malham, eles praticam movimentos específicos."

No momento da publicação dessa matéria, o Aim Lab estava em sua versão beta, mas sua fama já se espalhou pela comunidade do eSports. "Acho que é uma ideia maravilhosa. Parece algo que eu usaria", me disse Tommy "Potti" Ingemarsson, um jogador profissional de Counter-Strike aposentado que já ganhou dez campeonatos mundiais.

Embora ele ainda jogue por diversão, Potti passa a maior parte do seu tempo treinando e ensinando outros jogadores. Ele também me disse que treinos de pontaria são o segredo do sucesso de uma equipe e que, quando ele jogava Counter-Strike profissionalmente, ele passava horas em servidores onde podia se regenerar rapidamente e treinar sua mira.

"Com um programa como esse, um jogador pode economizar centenas de horas de treino", disse ele.

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