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WC no Beat é o trap, é o funk

O Metro Boomin de Vitória fala sobre '18K', disco que reuniu nomes gigantes do funk e rap, paulistano e carioca.

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15 Março 2018, 12:00pm

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O funk e o rap andam cada vez mais juntos. Seja pela mãos de gringos empolgados, como Sango, ou de beatmakers como Bad$ista, Viní e Sants — pra citar só uma parcela bem limitada — os ritmos vêm sendo misturados pelo menos desde o começo da década. Mas de uns anos pra cá essa mistura começou a ficar mais aparente e até mais presente para os próprios MCs e produtores de funk (pontos que eu discuti aqui nessa matéria). Para solidificar essa tendência estética e juntar num só projeto toda a galera influenciada pelos rolês de trap e funk, o produtor WC no Beat lançou nessa sexta (9) o disco 18K.

WC é parte da Medellin Records e cresceu em Vitória, no Espírito Santo. 18K, porém, é a ponte Rio-São Paulo que o funk talvez nunca tenha esperado que se erguesse, em que tanto MC Lan e Don Juan quanto TH e Maneirinho tem lugar. E mais, que combinações de artistas dos dois ritmos, como Rincon Sapiência e MC Pocahontas, se revelam acertadíssimas.

Pra WC, nada disso é novidade. O produtor veio da cena do funk, mas conserva amizades no rap e descobriu há muito que os dois gêneros tinham tudo para ser trabalhados juntos. "É tipo uma química, você tem que saber dosar bem as duas vertentes", me contou por e-mail. Abaixo, você pode sacar o resto do papo com WC e ouvir o legítimo trap-funk de 18K.

Noisey: Qual contato você teve com som durante sua infância/adolescência? Quão próximos são os rolês de rap e de funk em Vitória?
WC no Beat: Minha primeira experiência com som foi quando meu pai me deu meu primeiro computador, eu tinha 7 anos de idade. Meu primo me apresentou os primeiros programas da época (Acid Pro 4, Sony Vegas, Battery 2 e o famoso Virtual DJ). Foi aí que eu me interessei, mas como era uma época na minha vida em que eu vivia estudando acabei levando esse lado da música como hobby. Na época não existia muito rolê de funk e de rap na cidade, era uma parada feita pelas poucas pessoas que tinham condição de ter seus próprios recursos de gravação, que eram uma grana. Mas, enquanto eu estudava, no tempo que tinha livre gostava de fazer som.

Quando te ocorreu começar a misturar trap e funk?
Eu vim da cena do funk e já tinha uma experiencia com a produção de fazer as batidas. Depois de um tempo, comecei a estudar o rap e fui aprimorando os dois lados até o momento certo. Sabia que poderia juntar um e o outro e fazer uma coisa maneira.

Me fale sobre a Medellin Records. Como você começou a trampar com a gravadora?
Foi um momento conturbado da minha vida. Estava saindo de São Paulo com o joelho quebrado porque tinha sofrido um acidente de trabalho – caí da escada de uma balada em que eu estava tocando. Já conhecia o Felp (dono da Medellin) de alguns anos porque ja tínhamos produzido alguns sons juntos, que foram o que na época fizeram o WC no Beat aparecer na cena do rap nacional. Ele tinha saído de uma produtora para montar a sua própria e foi aí que ele soube da história que eu tinha sofrido um acidente e estava de molho em Vitória e decidiu me convidar. Para falar a verdade, eu não estava mais muito animado em fazer música depois daquele tempo, mas conversar com ele me fez acreditar novamente em viver do sonho. Vi aquela oportunidade como última chance e decidi sair da cidade de Vitória para morar no Rio de Janeiro.

Aqui no Brasil, acredito, não é tão comum que produtores lancem álbuns. Como você decidiu que lançaria 18K e quando começou a trabalhar nele?
A ideia do 18K já estava sendo pensada desde 2017 junto com os amigos da Medellin. Juntamos todos os nomes de amigos do funk e do rap e pensamos, como vamos colocar todas essas pessoas juntas de uma forma que não fique ruim? Foi aí que eu comecei a fazer algumas batidas misturando os dois ritmos, e com o tempo fui melhorando, até o momento que ouvimos e tiramos a conclusão que aquele formato tinha futuro. A parte difícil foi criar uma estrutura pra encaixar as vozes de uma forma que não ficasse chato. Testamos o primeiro som, que foi o single "Meu Mundo", e a aceitação do público foi grande. Foi aí que decidi trabalhar no 18K com mais certeza.

18K tem muitas participações e misturas inesperadas, como Pocahontas e Rincon Sapiência na mesma faixa, uma das minhas preferidas. Como você decidiu quem participaria do disco, e como rolou a combinação dos artistas durante as gravações? Eles pararam pra compôr as letras juntos?
Fui apenas fazendo som e apresentando para os amigos; eles se identificavam com a música, escreviam a letra e gravavam em sequência. A música da Pocahontas eu e ela bolamos o refrão, e depois de gravado meu grande amigo Rincon tinha colado no Rio a trabalho. Apresentei o som e ele curtiu e decidiu colar no meu estúdio pra mandar a sua rima. Assim como em todas as outras faixas do disco, foi uma parada que aconteceu naturalmente.

Das misturas de artistas nas faixas, qual é sua preferida?
A melhor faixa pra mim é "Favelado Chique". Gosto muito dessa faixa porque o dia da criação foi muito maneiro, todos no estúdio estavam com uma vibe muito boa. Na minha opinião, essa está em entre as melhores do disco.

Em que outros produtores (de rap ou funk, brasileiros ou gringos) você se inspira?
Minhas inspirações do funk vem muito dos meus próprios amigos que já fazem a cena, como Yago Gomes, DJ Caveirinha, DJ Pelé, DJ Lindão, Rogerinho do Quero, entre outros. No rap, eu curto mais a parada gringa, Murdaz, Metro Boomin, 808 Mafia e toda essa cena do trap de Atlanta.

Quais, pra você, são as semelhanças entre trap e funk? E como é traduzir isso para o seu público?
O funk e o trap são estilos muito únicos. Os dois conseguem se encaixar com qualquer estilo de música – pode ver que o funk hoje se mistura com sertanejo, com o samba e com outros estilos musicais; assim como o trap também tem boa aceitação em todos os estilos. É tipo uma química em que você tem que saber dosar bem as duas vertentes. Hoje o Brasil está consumindo os dois estilos muito rapidamente, mas ainda não tinha uma junção sólida de trap e funk. Foi aí que eu decidi misturar tudo, uma ideia muito louca que deu certo.

Você acredita que o funk tem potencial pra se tornar de destaque mundial, como é o trap hoje em dia?
Já está aí. O funk hoje bate milhões e, se prestar atenção, está tocando em várias partes do mundo, graças à internet e as distribuidoras de som em stream. Pra virar uma potência, só basta o tempo e o trabalho de cada um que faz a cena acontecer.

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