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Ninguém sabe por que centenas de pessoas morreram no "Lago Esqueleto" do Himalaia

Centenas de pessoas morreram misteriosamente ao longo de um milênio no Lago Roopkund segundo um novo estudo, o que torna o local já sombrio ainda mais misterioso.

por Becky Ferreira; Traduzido por Marina Schnoor
23 Agosto 2019, 10:00am

Lago Roopkund (esquerda) e ossos no local (direita). Imagem: Schwiki/Himadri Sinha Roy.

Um pequeno lago glacial no meio das montanhas mais altas do mundo é o local de centenas de mortes inexplicadas em mais de mil anos, segundo um novo estudo.

O Lago Roopkund, também conhecido como “Lago Esqueleto” por seu conjunto de ossos humanos, tem deixado visitantes perplexos há décadas. Localizado a quase 5 mil metros acima do nível do mar na parte indiana dos Himalaias, ele foi redescoberto durante os anos 1940 por um guarda-florestal. Mas o lago raso claramente era conhecido por viajantes da antiguidade, e muitos deles nunca conseguiram sair dali com vida.

Ninguém sabe o que matou todas essas pessoas num lugar tão distante. Até agora, a principal teoria era que uma tempestade de granizo brutal castigou todos esses viajantes até a morte ao mesmo tempo por volta de 800 DC num único evento catastrófico, o que explicaria as fraturas encontradas em alguns dos ossos. Enquanto a tempestade de granizo pode ser a responsável por algumas das mortes, novas evidências sugerem que essas pessoas podem ter morrido em diferentes eventos no lago ao longo de séculos.

Num estudo publicado na Nature Communications, uma equipe liderada por Éadaoin Harney, estudante de PhD em biologia evolutiva em Harvard, analisou DNA extraído de 38 esqueletos. A análise revelou que populações diferentes sofreram incidentes mortais no lago, incluindo um ocorrido no final do século 19.

“Descobrimos que os esqueletos de Roopkund pertencem a três grupos geneticamente distintos que foram depositados ali em vários eventos, separados por aproximadamente mil anos”, diz a equipe de Harney no estudo. “Essas descobertas refutam sugestões anteriores de que os esqueletos do Lago Roopkund foram depositados num único evento catastrófico.”

O grupo mais antigo de viajantes mortos identificados pelos pesquisadores, chamado Roopkund_A, continha 23 homens e mulheres de várias ancestralidades do Sul da Ásia. Já se sabia que essa população tinha perecido há 1.200 anos atrás, mas a datação por radiação mostrou que suas mortes provavelmente não foram causadas por uma única tempestade violenta, como era proposto anteriormente.

Alguns indivíduos do Roopkund_A foram datados de intervalos de cerca 675-769 DC, enquanto outros datavam de entre 894-985 DC. Essa lacuna de tempo sugere “que mesmo esses indivíduos podem não ter morrido simultaneamente”, disse a equipe.

Mais chocante é a descoberta de uma segunda população, chamada Roopkund_B, que por volta de 1800. Esse grupo contém 14 homens e mulheres de ascendência mediterrânea oriental, que são geneticamente mais similares às pessoas do presente de Creta, a maior ilha grega. A terceira população é formada por um indivíduo, chamado de Roopkund_C, um homem de ascendência asiática oriental que morreu ao mesmo tempo que o grupo Roopkund_B.

“Nosso estudo aprofunda o mistério de Roopkund de várias maneiras”, disse o coautor do estudo Niraj Rai, chefe do Laboratório de DNA Antigo do Instituto de Paleociências Birbal Sahni na Índia, por e-mail. Ao mesmo tempo, a equipe conseguiu descartar “especulações comuns sobre a ancestralidade dos indivíduos de Roopkund”, disse Rai.

Por exemplo, desde os anos 1950, havia uma teoria local de que os esqueletos foram deixados pelo exército em fuga do general Zorawar Singh Kahluria, morto numa tentativa de invasão ao Tibete em 1841. Essa explicação é desafiada pela nova descoberta de várias mulheres no local, que dificilmente seriam inclusas numa expedição militar.

A teoria da tempestade de granizo ainda é plausível para algumas das vítimas, e a equipe planeja examinar os crânios fraturados em seu próximo estudo, disse Rai.

Ainda assim, não sabemos como esses grupos acabaram num local tão inacessível em primeiro lugar. O Lago Roopkund fica na rota do Nanda Dev Raj Jat, uma peregrinação hindu que já era observada 1.200 anos atrás. Por enquanto, essa é a explicação mais plausível para a presença de alguns dos indivíduos do Roopkund_A, disse a equipe.

Os restos das outras populações são muito mais difíceis de explicar. O estudo conclui que os indivíduos mediterrâneos, que não parecem ter laços familiares próximos entre si, provavelmente nasceram sob o Império Otomano.

“Como sugerido pelo consumo de uma dieta predominantemente terrestre, em vez de uma dieta marinha, eles podem ter vivido num local do interior da ilha, eventualmente viajando e morrendo no Himalaia”, disse a equipe. “Se eles estavam participando de uma peregrinação, ou foram atraídos pelo Lago Roopkund por outras razões, é um mistério.”

“Mistério” parece ser uma das principais palavras para qualquer coisa relacionada com o Lago Roopkund. Enquanto o local se tornou um destino para pesquisadores e turistas – que viveram para contar a história da visita – os segredos daqueles que nunca o deixaram continuam desconhecidos.

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