Radiografia Urbana

Curitiba é a capital da cena beatmaker brasileira

INVDRS, Nave, Laudz, Swinga, batalha de beats Versus e muito mais fazem da cidade uma referência quando o assunto é a produção de beats.

por Eduardo Ribeiro
28 Novembro 2017, 5:02pm

Henrique Thoms/VICE

Este conteúdo é um oferecimento Natura Musical.

Não é o caso de buscar explicação, simplesmente calhou de ser assim. Logo que começou a se desenhar a cena beatmaker brasileira, resultante do acesso a computadores pessoais e versões gratuitas de softwares como o Fruity Loops (que hoje é oficialmente chamado de FL Studio) às mãos de aficionados musicais, uma nova geração de ávidos produtores curitibanos começou a pintar. Desde então, novos talentos surgem constantemente na cidade, e continuam a impressionar. O impulso inicial foi no começo dos anos 2000. Os aspirantes a beatmakers locais haviam sido impactados por feitos como o álbum Eu Tiro É Onda (1998), do D2, em que Nuts e Zegon inovaram bastante dentro dos padrões do rap nacional daqueles tempos.

E teve outro disco super importante do período, o Operação Diamante (1999), com o DJ Som 3 e o MC Frank Ejara. Só o pessoal que sacava do underground chegou a ouvir. Mas embora o DJ Som 3 tenha sido um beatmaker que os leigos até confundiriam com Pete Rock, os artistas sacavam quem era o cara. Ele e o Nuts foram criadores muito importantes na época.

Debaixo destas influências e explorando os programas de áudio, emergiu o primeiro grande destaque do que Curitiba se tornaria atualmente, referência na produção de beats no Brasil. Falo do produtor Nave, egresso do grupo de rap Savage. Na época, em 2001, ele já fazia beats no Fruity Loops, os quais serviam de base para as rimas do grupo. “Foi assim que desenvolvi melhor esse lance da produção”, conta ele.

“Em 2004 lançamos a primeira fita k7, e essa fita acabou caindo na mão do D2 e aí eu comecei a trabalhar com ele — foi tudo muito rápido. Assim que minha vida de beatmaker e aspirante a produtor começou.” Segundo o Nave, “era muito difícil ter o acesso a MPC, e o Fruit Loops quando apareceu te dava opções absurdas pra construir uma música e até samplear, como é até hoje, FL Studio, Ableton Live...”.

Nave e Laudz. Foto: Henrique Thoms/VICE

Antes da galera poder contar com tais ferramentas, nomes como Max de Castro usavam MPC, mas também alguns programas antecessores ao Pro Tools, nos anos 90. E havia aqueles que preferiam pegar um trecho de batida ou samples de outras músicas. “O beatmaking é uma coisa bem do começo dos anos 2000. Tem esse pessoal, o Kamau, o Parteum, Munhoz (ex-Contra Fluxo), Marechal, que já eram beatmakers nesse conceito que a gente conhece. Só que eles trabalhavam muito com máquinas”, relembra Nave.

“O primeiro beatmaker que teve um destaque foi o DJ Primo [1980-2008]. Esse cara foi o primeiro de destaque nacional. Ele foi o pai de todos nós. Várias músicas clássicas de rap nacional são de produção dele. Eu sou provavelmente o primeiro beatmaker de computador a ter uma relevância, por causa do lance do primeiro trampo que fiz com o D2, no disco Meu Samba É Assim. Fiz quatro faixas, e eu era um cara que nem existia”, comenta.

Tratada carinhosamente pelos envolvidos na cena como CWBeats, a capital paranaense segue muito bem representada daqueles tempos pra cá. Uma proeminente figura da geração atual é o Laudz, que ao lado do Zegon faz parte do Tropkillaz. “Foi sozinho, na loucura”, exclama ele sobre como tudo começou.

“Certo dia conheci um skatista de Curitiba, o Ralé, e a gente passou a trocar música pela internet. Nunca esqueço, ele falou que eu tinha que fazer beat e me mandou um link do Fruity Loops e umas videoaulas do Artur Moura. Então comecei a brincar no programa, a mexer. Até que uma vez soltei do nada na internet um álbum de instrumental, sem planejamento nenhum, em 2011, e foi. Só depois que surgiu o Tropkillaz que comecei a ter acesso, a entender como funcionava.”

Laudz. Foto: Henrique Thoms/VICE

Hoje, o talento de beatmakers como Hupalo, Migda, Tui, Chediak, Dario, Cabes, sunson, Bface, Zone, GIVV, Seithen, Swinga, DJ Zy, Lil Tec, Young GG, Ganesh, Bera Beats, Dem Beats e Dhigo Flow mantém a fama da cidade. Vale citar os finalistas da Versus, festa que promove a chamada Batalha de Beats, Jack 808, João Taborda, e o campeão da mais recente edição, Rafa Inki. “Na sinceridade, quando o beat pulsa pra valer a galera ferve e o bate-cabeça acontece”, disseram por email os organizadores da competição. “É uma questão que já está enraizada aqui. Sempre fomos conhecidos pelas batidas, os músicos daqui têm uma cobrança forte e temos um público muito exigente.”

sunson. Foto: Henrique Thoms/VICE

A Versus é trimestral e acontece no espaço 351, epicentro do underground local. Sua primeira edição rolou em março deste ano como subproduto das festas ALLVMI e PEZO, realizadas por jovens produtores beatmakers e DJs. São eles DJ Zy, GIVV, Mann e Hupalo. As regras são simples: cada adversário chega com uma cartela de beats na manga pra soltar, como num duelo.

Quando não estão competindo pelo título de melhor beatmaker ou criando faixas em seus estúdios, a rapeize costuma se apresentar em festas como, somando-se às citadas linhas acima, It's a Trap, Boom Box, CwMob, I Love CWBeats, INVDRS, Bites e Banguê. Alguns desses projetos se desmembram em selos. É o caso do Pezo Squad, INVDRS e Versus — atualmente elaborando uma beat tape com todos os participantes da Batalha de Beats. No paralelo, os selos Track Cheio e Mão Santa também ajudam a lançar os principais produtores da cidade.

À frente da marca INVDRS está o Swinga, expoente da geração que surgiu em 2013 com o auge da bass music, principalmente representado pelo trap. Seu início de carreira foi com o Sweet Grooves, duo ao lado da DJ Fefa. “Nós fazíamos apenas mixes para o SoundCloud, sem muitas pretensões, mas acabou que começaram a nos chamar para festas pelo Brasil todo”, conta ele. Swinga lamenta que poucas casas de Curitiba estejam abertas para esse tipo de som. “Infelizmente há uma certa resistência de diversos clubes. Ainda assim, existem casas como o James, onde rola a INVDRS, o 351, e mais recentemente, o Basement Cultural.”

Swinga. Henrique Thoms/VICE

Isso não impede que coletivos e festas de música eletrônica como Repulsa, Alter Disco, Discoteca Odara e GATOPARDØ contribuam para movimentar as coisas. Já no hip hop/bass, junto da icônica I Love CWBeats e as iniciativas da Pezo Squad, tem o povo do Lowcliqueboys, coletivo que anda disparando ótimos sons. Nave chama atenção para o fato de que a cena beatmaker é diferente de outras praias musicais, pois ela não depende tanto de um circuito de festas, rolando muito mais numa relação criativa entre produtores e a galera que encomenda uns beats ou os chamam para produzir/coproduzir seus sons.

“Poucos produtores de rap são DJs ou tocam à noite”, frisa. “Dos caras que produzem, um que toca na noite com frequência é o Lil Tec, muito bom no trap. Aí tem toda uma cena que o Swinga sustenta ali, essa molecada nova que só faz beat, sem vocal, no máximo um remix, e são todos ótimos. Tem coisa surgindo de molecada de 17 anos, é tudo trap. Já fazem clipe, tudo. É bem mumble rap. O Kamau sempre falou uma parada de Curitiba: que deve ter alguma coisa mágica na água da cidade pra sair tanto beatmaker embaçado. É um bagulho já lendário aqui.”

A DJ Gabriela Clemente, atração recente da INVDRS no James. Foto: Henrique Thoms/VICE
Vista da cabine para a pista durante edição da INVDRS. Foto: Henrique Thoms/VICE
INVDRS. Foto: Henrique Thoms/VICE
sunson mandando uns beats. Foto: Henrique Thoms/VICE

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