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Apesar de tudo, o disco de Teyana Taylor é uma vitória

Com pegada soul, 'K.T.S.E' é o segundo disco de Taylor, mas acabou que as doideiras de Kanye West acabaram tirando o foco do lançamento. Agora é hora de Taylor brilhar e ela tem talento o bastante para controlar sua própria narrativa.

por Kristin Corry; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
10 Julho 2018, 10:00am

Foto: Gary Gershoff/Getty Images para o VH1.

Não é segredo pra ninguém que Kanye West adora falar. A MTV sabe disso também, lhe dando mais um espacinho no palco do VMA um ano depois do cara ter anunciado sua possível candidatura à presidência dos EUA. Em 2016, ele lançou um clipe para “Fade”, faixa com inspiração oitentista de The Life of Pablo. Ele também falou um monte ao longo de seis minutos, apresentando uma espécie de preâmbulo para sua retórica de pensamento livre, enchendo o saco do público ao chamar todo mundo de “bro”. Quando clipe saiu, todo mundo esqueceu do que diabos Kanye falava, focando na protagonista, e foi ali, durante três minutos, que o mundo parou. “Fade” contava com a presença de Teyana Taylor, à época com 25 anos, numa coreografia tão sexy que fazia Flashdance parecer algo comportadinho. Ela saracoteava por um salão de academia e usava seus equipamentos como adereços em movimentos fluidos e destacados. Ela dançava como se sua vida dependesse daquilo, e de certa forma, dependia mesmo.

Na última década ela teve péssimas relações num contrato com Star Trak e seu disco de estreia VII, que vendeu 16.000 cópias em sua semana de lançamento. Recentemente ela lançou K.T.S.E., último na série de lançamentos de verão da G.O.O.D Music. Após ano no limbo, este é o seu momento, mas K.T.S.E parece mais uma demonstração da produção de Kanye do que uma expansão da sonoridade noventista de Taylor. Além do que, nada do seu segundo disco parece realmente estar sob seu controle, o que faz com o álbum fique à sobra das manias, produção pesada e restrições de tempo de Kanye.

O clipe de “Fade” a colocou no papel de sex symbol, lhe dando exposição o suficiente para que pudesse revitalizar sua carreira, eclipsando assim seus esforços como cantora de R&B. Seu papel como protagonista em “Fade” levou à publicação de uma série de artigos questionando “Quem é Teyana Taylor?”, evitando quaisquer menções à sua carreira de cantora. Seria uma pergunta até válida se a própria Taylor não tivesse nos contado quem ela era dez anos antes, ainda uma adolescente ambiciosa, e mais uma vez com o lançamento de seu disco de estreia VII em 2014. Ela não era novata no rolê. Era uma ressurreição da segunda fase de sua carreira, já amadurecida, mas o momento criou uma necessidade insaciável para Taylor, levando a um desfile de destaque na New York Fashion Week, um tributo lendário à Lil Kim, e um reality show para toda a família. Com todo o bafafá em torno de seu segundo disco, K.T.S.E acabou sendo encarado como a volta de Kanye ao R&B e não o retorno de Taylor à música, um grande desserviço para a cantora. Fato é que Teyana Taylor merece mais do que ser uma nota de rodapé nesse papo todo. Ela merece uma carreira que lhe permita gravar mais discos e se defender menos. Ela merece ser ouvida e não apenas vista. Mas, mais importante que isso tudo, ela merece que sua visão seja entregue da forma como imaginou, não como seus chefes acreditam ser o correto. K.T.S.E não faz muito para estabelecer uma identidade além disso.

Boa parte das pessoas conheceram Teyana Taylor quando ela era uma adolescente de 15 anos em My Super Sweet 16 da MTV, onde fazia umas exigências muito doidas: ela queria chegar numa caixa de Barbie usando tênis Nike de 700 dólares. Um ano depois de sua participação no programa, recém-contratada do selo Star Trak de Pharrell, ela lançou “Google Me” em 2008, uma canção a qual admite ter sido uma decisão “puramente política”. “Chorava sempre que participava de estreias do clipe”, disse em entrevista com Sway Calloway de 2012. “Chorei no TRL, chorei no 106 & Park... aquilo não tinha nada a ver comigo”. Dois anos depois, Taylor lançou seu disco de estreia pela G.O.O.D Music . VII é uma homenagem ao R&B raiz, com um controle vocal da parte de Teyana que a faz soar com a aspereza de Toni Braxton e os sussurros de Janet Jackson, onde podemos perceber a cantora totalmente confortável ao longo de 14 faixas, dando seu toque a clássicos dos anos 90 como “Dreams”de Biggie e “None of Your Friend’s Business” de Ginuwine. VII é um disco de estreia que ajudou a estabelecer a sonoridade de Teyana, distanciando-se de “Google Me”. Já em 2018, ela ganhou um público ainda maior e assumiu novos papeis na vida como mãe e esposa, usando seu recém-descoberto sex appeal em seu benefício. K.T.S.E estaria ali ao lado de alguns dos discos mais libertadores do R&B, como janet e Beyonce. Era o momento de Teyana Taylor brilhar, mas por algum motivo as coisas não saíram bem assim.

Mas K.T.S.E. está longe de ser ruim: o disco começa com uma produção bombante, que remete aos primeiros trabalhos de Kanye, se assemelhando ao que foi feito em The College Dropout. A produção de “Gonna Love Me” recebe toque sde soul, bem como “Issues/Hold On” onde a participação dos Delfonics e Billy Stewart dão suporte aos vocais amorosos de Taylor. Ela aparece vulnerável em “Issues” disposta a superar suas inseguranças em prol do amor que ela acredita valer à pena. “You tell me you love me, but tell me again / I need the reassurance every now and then”, canta. O disco não deixa dúvidas quanto à influência soul, mas mesmo assim não soa como uma extensão do que foi feito em VII. K.T.S.E é o único lançamento da G.O.O.D Music que passa das sete faixas, contando ainda com um pedido de Mykki Blanco em “WTP”: “Que Miss Taylor possa cantar os blues”. O que VII mostrou é que a voz de Taylor brilha quando é apresentada de forma despojada, sem competir com os samples como o que rola aqui. A produção de Kanye West realmente não lhe permite mostrar toda sua amplitude vocal, optando pela utilização de sonoridades dos anos 60 e 70 que precedem o nicho da cantora.

Um dueto com Ty Dolla $ign, “3Way”, é a única faixa que parece se encaixar em seu ritmo natural. Aqui, sua voz soa como a de Brandy, com o detalhe de que está cantando sobre um tema o qual nunca ouviríamos Brandy falando sobre: ménages. Uma abordagem anos-luz à frente de VII onde Taylor até brincava com imagens sexuais, mas aqui ela não tem medo de tocar no assunto de forma mais direta.

“Rose in Harlem” joga pra escanteio qualquer papo sobre relacionamentos. É Taylor em sua versão mais durona, com um flow agitado, mas sem nunca perder o tom. “Ten years in the game / Niggas like, ‘You ain’t hot? You ain’t pop yet?’ / ‘What’s up with you and Ye?”, canta. Uma verdadeira paulada nos céticos que estão de olho nela desde a época da Star Trak, com o detalhe de que esta não é a versão original da música. No começo deste mês, Taylor soltou uma prévia da faixa no Instagram, que encerrava com um sample de “Lost Ones” de Lauryn Hill, que provavelmente complementaria o interlúdio que dizem Hill ter dado à Taylor. Nenhum destes elementos que certamente só agregariam mais ao charme noventista de Teyana em seu esperado segundo disco chegaram na versão final. Quando uma fã tuitou que queria ouvir a versão original de “Rose in Harlem”, Taylor respondeu “eu também”. 22 minutos não compensam o tanto que esperamos para poder ouví-la desse jeito. Do lançamento tardio às omissões, K.T.S.E. não coloca Taylor numa posição de controle de sua arte.

Teyana Taylor era a artista que mais poderia se beneficiar deste ciclo semanal de lançamentos da G.O.O.D Music. Ela é a única sem um público ardoroso e seria esta sua oportunidade de construir um. Numa situação em que PUSHA-T, Kanye e Nas poderiam lançar discos dormindo e conseguir o mesmo tanto de atenção, Taylor não pôde se dar a esse luxo. Por mais que VII e K.T.S.E estejam muito distantes um do outro, foi ingênuo de minha parte achar que ela daria continuidade ao que foi feito em 2014, ao longo de sua transição para o casamento e maternidade. Houveram bons momentos, como a sensibilidade de “Issues” e a natureza arriscada de “WTP”, mas tudo precisava da máquina por trás do nome Kanye West: marketing e promoção adequados. Não precisava dar showzinho como único disco da série de lançamentos que saiu atrasado. Ela receberia os mesmos louros por conta da associação à Kanye no disco do que quando participou daquele clipe – mantendo a mesma vibe. David Dennis Jr. comentou em texto no Undefeated as formas como mulheres negras foram exploradas nesta série (a foto do banheiro de Whitney Houston e as alegações de Kelis contra Nas).

Para negras no R&B, a indústria parece capaz de compartimentalizar como elas devem se comportar e é bem por isso que dois grandes discos do gênero feito por negras, Janet Jackson e SZA, falam tanto sobre controle. Teyana Taylor chegou na cena com uma personalidade brilhante, do tipo que rendeu à Cardi B uma quantia de sucesso exorbitante. No R&B você só pode falar alto se for especialista em dor, como vimos nas carreiras de Mary J Blige e da agora excomungada Keyshia Cole.

Em 2017, o LA Times revelou que as mulheres negras no R&B ainda recebem uma atenção desproporcional quando comparadas com mulheres de outras raças em outros gêneros. “É difícil para uma mulher fazer qualquer coisa, mas quando se é negra, tem que brigar por isso”, disse Mary J Blige em entrevista. Chegou a hora de Teyana e talento ela tem de sobra para controlar sua própria narrativa.

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