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O DJ Will é o irmão mais novo do hip hop brasileiro

Filho de KL Jay, William Nascimento Simões tem praticamente a idade do rap no Brasil, cresceu lado a lado com os beats e lança EP com cara de anos 1990 (mas sem se esquecer das novidades).

por Marcos Lauro
15 Junho 2018, 10:00am

Foto: Larissa Zaidan/VICE

A Vila Mazzei é um dos muitos bairros populosos da zona norte de São Paulo. Caminhando pela avenida que dá nome ao bairro, cruzo com diversos ônibus indo para a estação mais próxima do metrô, Tucuruvi, onde termina a linha 1 - azul. Mas quanto mais perto vou chegando do estúdio do DJ Will, mais longe o barulho do busão vai ficando. Chego numa vilinha tranquila, de um silêncio notável – uma pomba pousou do meu lado e eu ouvi o barulho das asas batendo, juro. Mas a casa de número 71 vai se aproximando e o clima muda de novo: a pomba e o silencia dão lugar ao beat do clássico “Cada Um Por Si”, do Sistema Negro, de 1994. É com um scratch dele que o dono do estúdio está produzindo uma faixa do MC Fahim, que também está na casa da tranquila vilinha.

William Nascimento Simões é um ano mais velho do que o hip hop no Brasil — tem 31 anos contra 30, se contarmos o início no LP Cultura de Rua, lançado em 1988. Além disso, nasceu na casa de um dos quatro pretos mais perigosos do Brasil: é filho do KL Jay, DJ dos Racionais MC's. “O hip hop é meu irmão mais velho. O hip hop salva até quem não gosta dele, a verdade é essa. É a arma mais forte do mundo! É mais forte do que a religião, como a Erykah Badu fala. O hip hop é foda, bem que o Rael falou”, explica DJ Will. Com um professor como KL Jay em casa, a lição só poderia ter sido bem aprendida.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

DJ Will acaba de lançar o EP Pru G-Funk, uma homenagem ao som californiano noventista do qual é fã. “Ouço tudo que vem de lá. De Dr. Dre até Anderson .Paak, Schoolboy Q, Kendrick Lamar, Jay Rock... eu sou um devoto da Califórnia. E nessa onda eu tava escutando muito o disco do Bruno Mars, o 24K Magic. Não é um disco totalmente de funk, mas a “24K Magic” é uma faixa funk, com os sintetizadores, talkbox... no clipe tem todo o visual e tal. Ele pegou influência do new jack swing [gênero popular entre os anos 1980 e 1990], que foi criado pelo Teddy Riley do Blackstreet...". Além de Bruno Mars, o cara que fez o álbum 7 Days of Funk com Snoop Dogg foi a grande inspiração: Dâm-Funk. “Eles e Dr. Dre foram quem popularizaram o g-funk dentro do rap com influência de Ohio Players, Kool & The Gang, Parliament, Bootsy Collins... a pegada já estava ali. Sintetizador, arranjo psicodélico... no Brasil você não vê isso, é difícil”, completa o DJ e produtor.

Algumas ideias surgiram do projeto de um álbum que Will já toca há cerca de oito anos e outras são totalmente novas. Uma delas, pela praticidade da coisa, foi a de não usar nenhum sampler. Tudo foi tocado e produzido do zero por DJ Will e parceiros, como Deryck Cabrera.

São sete faixas com esse molho dos anos 1990. Sem querer desvalorizar os filhotes, Will destaca duas por conta do contexto. A primeira é “Niggaz In The House”: “Chamei os parceiros, MC Fahim é um deles. Tava brincando em casa, mexendo, e saiu um beat. E, cara, hoje eu não tenho duas horas que seja no dia pra fazer um trampo, tá ligado? Tenho filho, minha esposa e eu que cuidamos mais dele... ele acorda, faz cocô, quer mamar, quer ficar comigo, que meter a mão no teclado, essas coisas de nenê hahaha. Aí fiz o arranjo e fui tomar banho. Já tinha separado um sintetizador que soa como baixo e tal. Então tava ali brincando, mas de olho no meu filho. ele tava dormindo e fui tomar banho. Voltei e comecei a tocar esse baixo no sintetizador, aí saiu tudo em 20 minutos, cara. Gostei, depois só dei uma complementada. Renan Saman, que é meu parceiro de 5 pra 1, ouviu e escreveu o refrão em cinco minutos. Aí lembrei do Muzzike, que curte esse tipo som, chamei... ficou bem louco. Não é a que eu mais gosto, mas é a que eu olho assim e tenho um carinho”.

A outra é “Espírito Albatroz” por causa do seu conteúdo político-humanístico: “Eu fiz um EP descontraído, pras pessoas tirarem onda mesmo. Nesses últimos cinco anos eu dei minha cota de política, e aí tem também, se prestar atenção. A última música, 'Espírito Albatroz', tem também, mas é um lance de ser humano pra ser humano. Fala sobre ser livre, sobre o albatroz, uma ave que voa muito alto. Tem a ver comigo, e todo ser humano quer voar alto dentro daquilo que faz."

Foto: Larissa Zaidan/VICE

DJ Will quer distância de rótulos ou qualquer coisa que o aprisione — inclusive sobre o fato do rap ser uma música política, de protesto. Com o já citado 5 pra 1, ele tocou em assuntos mais delicados e ficou com a sensação de que esses assuntos são esquecidos muito rápido pelos fãs. "A gente fez 'Kush & Garotas', que foi o nosso jeito de falar sobre mulher, baile e erva. Foi super bem recebido e ali a gente criou um conceito onde outras pessoas surgiram. Depois veio o bonde da 1kilo, 30 pra 1, todos os tipos hahaha. Isso eu posso falar, foi a gente que bolou isso. Aí logo depois a gente fez outro disco, o Goodfellaz, que pegou mais pesado sobre sistema, vida, amizade, racismo, violência. Foi bem recebido também, mas esqueceram rápido! As pessoas pediram pra voltar pra vibe 'Kush & Garotas'. Eu tive que explicar que o 5 pra 1 tem tudo isso pra falar, não só um assunto, porque chegou uma hora também que vieram falar 'pô, os caras só vão falar de maconha e mulher?'. A gente não mudou de assunto por causa dessas críticas, mas porque a gente precisava falar de outras coisas. E tudo tá na postura, né? Cê pode protestar festejando. Eu vivo o meu protesto dessa forma. Nem sempre eu tô na passeata, mas eu faço minha parte. Eu tento informar quem não tem informação e tento me informar onde eu não tô informado, tá ligado?”.

Essa liberdade parece ser resultado do fato de ter KL Jay como escola pessoal — um cara que não se importa em tocar Marina ou Kid Abelha num set se aquilo fizer sentido e ainda curte o som enquanto toca tanto quanto um NWA. Foi em 1997, com 10 anos, que Will, de fato, descobriu o que representava seu pai. "Eu via meu pai voltando dos shows, mas eu não ia. Eu chapava muito mais no meu pai me mostrando música na sala de casa do que no show", conta Will, que separa dois momentos em que se ligou quem era KL Jay: “Em 2000, os afilhados do Wu-Tang Clan vieram com um dos membros deles, o Raekwon, no Anhembi. Cantou Racionais, Xis, RZO, mó banca antes dos caras. E eu entrei no palco junto com os Racionais, fiquei do lado do meu pai vendo o show. Falei: ‘Caralho! Que força!’. Mas a primeira mesmo foi no show de lançamento do Sobrevivendo no Inferno (Ginásio do Corinthians, 1997). Aí via meu pai chegando em casa com prêmio da MTV, falava 'Caralho! Os caras são os rei mesmo'. E o tempo passava e os caras só sendo mais fortes. 'Meu pai é um dos melhores mesmo, ó onde eu nasci!' hahaha.”

Jovem, DJ Will já tem números de gente experiente. São 15 anos de carreira como DJ, cinco anos de grupo 5 pra 1 e nove anos de festa Sintonia (com seu pai, seu tio DJ Ajamu e DJ Marco), entre outras atividades e produções. "Eu acredito sempre no novo. Hoje eu sou metade nova escola e metade velha guarda. O rap, em nível mundial, é primeiro Estados Unidos e segundo Brasil. É uma grande indústria, mas as pessoas certas ainda não estão no poder dessa indústria, não tem a estrutura pra virar um sertanejo. Eu converso com norte-americanos e eles falam que a gente vive a cena de uma forma muito intensa... a gente chegou no nível deles, a gente só não tem volume. Tem a galera da nova escola que é boneco da indústria, só fala merda, só pública merda o tempo inteiro e isso dá dinheiro! Sensacionalismo! Um moleque novo vê e quer ser o cara. Assim como eu um dia já falei que queria ser o Grandmaster Flash. Essa intimidade com o artista pela rede social... cê vê os cara pingando limão no olho, saca? Os caras estão influenciando milhões de pessoas. Já pensou essa molecada repetindo isso? Incentiva violência, não tem posição sobre nada, não protesta sobre nada e chega uma hora que não tem jeito, parça, cê tem que escolher se cai pra esquerda ou pra direita. Se ficar no muro, toma pedrada. Toda época tem seus prós e contras. E também tem vários caras da velha escola que ficaram presos, não se adaptaram a nada, e aí reclamam. E hoje tá tudo na mão, cê descobre coisa nova onde quiser. E isso tem que ser mais valorizado, tanto pelos mais antigos quanto pelos mais novos. A elite quer colocar o mau exemplo, o que dá dinheiro, número no YouTube e no Instagram... a indústria quer isso”. Recado dado. E, no fundo, Will quer mesmo é trabalhar e ter sossego: "Tô fazendo meu som, quero criar meu filho, encontrar meus parceiros, troca ideia com os fãs e respeitar o bagulho que eu vivo". Tá feito.

Foto: Larissa Zaidan/VICE

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