MC Gabi. Foto: Igor Marques

O bregafunk agora quer dominar o Brasil

O movimento musical que domina as periferias da capital de Pernambuco há uma década está finalmente começando a fazer barulho no resto do país.

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mai 15 2018, 10:00am

MC Gabi. Foto: Igor Marques

Esta é a terceira parte da série sobre a história do ritmo que é "a voz dos 'incaláveis'", o bregafunk. Leia também a primeira e a segunda parte.

Às vésperas do Carnaval deste ano, o telefone de MC Tocha não parava de tocar. Os três grandes jornais da cidade e mais alguns veículos de fora do estado queriam entrevistar o cara. Há poucos dias havia sido anunciado que ele estava escalado para encerrar a primeira noite do Rec-Beat, um dos maiores festivais de música alternativa do Brasil. O evento também é um dos principais polos do Carnaval do Recife — um palco aberto que recebe em média 25 mil pessoas por noite no centro da cidade. Tocha não sabia, mas aquela era uma ocasião histórica: ele seria o primeiro MC de bregafunk a tocar em um evento público no Carnaval da capital pernambucana.

“Para falar a verdade, eu não sabia que o evento era tão importante. Sempre escutava falar, mas não sabia como era. Quando chegou lá foi que vi a importância”, confessa Tocha. “No começo, fiquei ansioso porque quem tava tocando antes era Diomedes [Chinaski, em um show com Luiz Lins], e eu tava vendo a galera curtindo muito a parada dele, uma galera diferente. Então eu tava: ‘Mermão, será que eu vou cantar e a galera vai gostar?’ Daí quando anunciou o meu nome e a galera gritou, eu soube que eu estava em casa.”

E parecia em casa mesmo. O show de Tocha foi um dos mais comentados da edição do Rec-Beat, abrindo espaço para outros nomes do bregafunk em outros festivais da cidade. O hit do Carnaval, porém, tinha outra dona, que estava em São Paulo dando os primeiros passos profissionais de sua carreira: “Envolvimento”, da MC Loma e as Gêmeas Lacração bombou em toda festa e deu uma cara ao movimento em âmbito nacional.

“A turma achava que, por causa do nome ‘brega’, o bregafunk não ia sair daqui de Recife. E agora tá aí, uma menina que nunca cantou na vida com uma música tocando no mundo inteiro”, diz MC Leozinho, celebrando o sucesso repentino de Loma. Assim como a maioria dos artistas, produtores e empresários do bregafunk, o MC pioneiro acredita que Loma é o símbolo de uma abertura nacional até então inédita ao som da periferia pernambucana. Chegou o momento da expansão. “As portas estão abertas. É só fazer conteúdo de qualidade”, ele crava.

Desde 2011, músicas dos MCs pernambucanos emplacam no repertório de bandas de forró, mas é nos últimos três anos que eles vêm estabelecendo pontes importantes com o funk paulista. Um evento de destaque foi o Baile do Poderoso, realizado pela produtora GR6 em 2017, e reuniu os principais nomes do bregafunk e estrelas como MC Livinho, Neguinho do Caxeta, MC G15 e MC Davi numa só festa, no Clube Português. Também naquele ano, os MCs Troia e Tocha deram as caras em clipes da Kondzilla. No entanto, eles ainda apareceram em segundo plano porque as músicas, embora escrita por eles, foram gravadas por Márcia Fellipe e Willey Gomes, respectivamente. Foi Dadá Boladão que viu o potencial do bregafunk no eixo Rio-São Paulo e passou a buscar mais efetivamente esse público no Sudeste. Em maio daquele mesmo ano, Dadá tornou-se o primeiro (e até então o único) MC de Pernambuco a fechar contrato com uma grande gravadora, a Sony Music.

“A rapaziada da Sony chegou em mim através da Solange [Almeida, ex-vocalista do Aviões do Forró]. Ela regravou 'Revoltada' com Ivete Sangalo no DVD dela e falou: ‘Dá uma olhada no trabalho desse MC, ele é lá de Recife, canta umas músicas muito diferentes’”, conta Dadá.

Dadá Boladão. Foto: Igor Marques

Não é sempre que funkeiros se dão bem em grandes gravadoras. MC Delano, por exemplo, ficou um bom tempo na geladeira após assinar com a Warner. No caso de Dadá Boladão, a gravadora atua de outro modo e não interfere diretamente em seu trabalho. “É um trabalho mais de marketing. Eu tenho meu canal, que é da Vevo, que a Sony direciona. Eles não influem diretamente no que eu tenho ou não tenho que fazer, tá ligado? Eles só me direcionam no jeito certo de trabalhar. Mas se eu quiser fazer de outro jeito, eles vão me dar total apoio”, explica.

Com o suporte da Sony, Dadá soltou em 2017 o CD promocional Explodindo o Grave, que reuniu o fino do seu repertório (a versão original de “Revoltada”; “Vai no Chão”, com o paraibano Aldair Playboy; “Coisa de Novela”; “Joga Sujo”) mais algumas músicas novas. Entre as inéditas estava “De Ladin”, faixa produzida pelo DJ paulistano Lucas Moura que une toques de arrocha com o famoso pontinho agudo do funk paulista e as cornetas característica do brega. Foi a conexão sonora perfeita entre São Paulo e Recife e tornou-se o cartão de visitas do MC, que ainda deixou seu nome nos dois maiores canais de funk: “De Ladin” na Kondzillia e “Flexiona a Tcheca”, com o MC GW, na GR6. Pouco depois, o MC Sheldon seguiu a trilha e soltou o vídeo de “Desconta a Raiva” pela GR6.

Quando conversamos, Dadá tinha acabado de voltar de São Paulo, onde fez alguns shows e gravou duas músicas (ainda não lançadas) com Perera DJ, produtor de hits do MC Livinho, Kekel, Pedrinho e muitos outros. Voltou de lá com uma visão otimista, certo de que há espaço para seu som além das fronteiras do Nordeste. “Tenho certeza que o bregafunk vai chegar mais forte, mas ele já chegou lá porque tem muito nordestino em São Paulo. Lá tem mais de 100 casas que tocam as músicas nordestinas, toca forró e toca esse ritmo que a gente canta. E os MCs lá de São Paulo também tão gravando esse mesmo ritmo que a gente tá gravando, por isso digo que vai chegar muito forte lá, geral tá fazendo a parada. Aqui em Pernambuco a gente chama de bregafunk, mas em alguns lugares é arrochafunk, em outros lugares é Arrocha da Penha, em outros é batidão”, afirma Dadá Boladão.

Buscando visibilidade nacional com o clipe de “Machucando o Coleguinha” na Tom Produções, o MC Cego Abusado também destaca uma influência em mão dupla entre o Sudeste e Pernambuco. “Quem é de São Paulo ou do Rio já escuta o bregafunk da gente nas músicas novas dos próprios MCs de lá. O funk é tamborzão — ‘tum tá tá’ — e aí você escuta as músicas do Kevinho e percebe que já não tá saindo mais assim, tá vindo com um suingue da batida da gente. É só a galera começar a entender”, compara.

E não é só o beat rasteirinha do Kevinho que traz esse balanço nordestino. O sucesso de “Arrocha da Penha”, do MC Flavinho, e do canal da DJ e produtora Iasmin Turbininha no YouTube, desencadearam a moda do arrocha funk. Inicialmente no Rio, a onda espalhou-se por São Paulo e por todo o Brasil com músicas como “Aquecimento das Potrancas” (de MC WM e Jhowzinho e Kadinho), “Pode se Soltar” (Jerry Smith), “Troféu do Ano” (MC Nando DK & Jerry Smith) e “Fuleragem” (MC WM).

“O pessoal daqui de Recife faz muito o que o povo do Sudeste faz. Tipo o palavreado, que uma galera daqui pega de lá mesmo. Mas tem coisas que saem daqui também. Eu nunca vi o funk fazendo essa batida que tá fazendo atualmente. O funk hoje mudou pra caramba, usa algumas paradas que o nosso movimento costuma usar mais”, analisa o MC Tocha. Como exemplo, ele cita o trabalho do DJ LK, produtor paulista que fez sons no estilo funk R&B como “Tchau e Bença”, de Livinho e Pedrinho, mas também produziu MCs pernambucanos como Troia, Japão e Dadá Boladão. “LK tá buscando uma parada Nordeste também. Não é muito a pegada brega, ele faz tipo um arrochazinho. O que Dany Bala e a galera daqui faz é difícil de fazer, é complicado."

Ainda que próximos, o bregafunk mantém diferenças em relação ao funk no quesito musical. Até pela formação dos produtores, que no caso pernambucano costumam ser músicos com uma experiência de tocar em diversas bandas. Essa vivência reflete também nos arranjos, que utilizam mais do que sons eletrônicos programados. “O funk é mais aquela batida seca, com teclado e um pontinho. É mais simples. O bregafunk já é mais acelerado e com mais instrumentos. É uma mistura de um monte de ritmo: tem funk, axé, misturado com brega, forró e pagode”, explica Dadá Boladão.

Enquanto os MCs veteranos buscam uma carreira de dimensão nacional, novas caras e novas tendências vão surgindo e atualizando o movimento a todo instante. É o caso do MC Elvis, 22, que fazia malabarismo nos sinais de trânsito do Recife para juntar dinheiro e gravar suas músicas. Ele canta há mais de sete anos, mas só estourou de fato no ano passado, quando retomou as letras de putaria em “Idiota” (em parceria com MC Fleshinho) e “Bota Bota” (com Troia). Depois disso, Elvis enveredou por um outro caminho. Produzido pelo DJ Guilherme Start, comandante do estúdio Batidão Stronda, ele lançou o que chama de “batidão romântico”, vertente que o consolidou de vez com músicas como “Tá Rocheda” (outro hit do último Carnaval), “Eu Confesso” e “Novinha Pode Pá”.

“Eu gosto muito de cantar a putaria porque é uma coisa envolvente e o público gosta. Mas a gente tá mudando, eu tô voltado pro batidão romântico. A gente da nova geração trouxe de volta isso da putaria e abriu muitas portas, tanto pra mim como também pro Danilo Bolado [autor de ‘Um Toque de Putaria’]. Isso despertou o público, que tava sentindo saudade dessa pegada. Mas não é um tipo de música que pode ser trabalhada em TV ou rádio”, explica Elvis, que no final de abril foi anunciado como o novo artista da Start Music, produtora paulista que tem em seu cast os MCs WM, Jerry Smith e Loma. Inclusive, uma parceria entre Loma e Elvis já está nos planos e deve sair em breve para demarcar de vez a exportação dos MCs recifenses.

Na última quarta (9), o MC Bruninho lançou o clipe “Jogo do Amor”, sua primeira música. No mesmo dia, o pequeno cantor já viajou para São Paulo, onde assinou contrato com a GR6, que prepara uma versão da música com participação do MC Livinho. De quebra, a produtora também fechou com Batidão Stronda (produtor do single de Bruninho) e com o DJ DG, que estão passando uma temporada trabalhando na capital paulista.

MC Elvis. Foto: Igor Marques

Por sinal, DG é outro nome fundamental no atual momento do bregafunk. Desde 2009 ele produz música eletrônica (hard electro, psy, progressive house e mais um pouco) sob a alcunha de Henrique G, e só há nove meses passou a trabalhar com brega. Apesar da curta carreira, já emplacou uma série de hits com levadas diversas — das influências de cumbia e merengue em “Toque de Putaria”, com Danilo Bolado, ao arrocha de“Envolvimento”, com Loma. Mas sua assinatura musical ficou consolidada no brega rave de “Pode Balançar”, do MC Troia, e na mistura inusitada de EDM com pagodão baiano de “Enlouqueço”, do MC Tocha.

A proposta de ambas as músicas foi uma iniciativa do MCs, sempre em busca de novidades — no caso de Tocha, rolou inspiração especificamente da banda baiana ÀTTØØXXÁ, com quem ele até está gravando um feat. DG diz que essas ideias são indicativos do momento de profissionalização do movimento. “O bregafunk ficou mais rico em melodias e notas. Os MCs estão mais estudados e mais entendidos na área. Se você ouvir a voz de MCs de referência, como Sheldon, três anos atrás e ouvir ele cantando hoje você vê uma diferença enorme. As pessoas acham que é só ouvir e juntar tudo como se fossem frutas num liquidificador, mas não é assim também — tudo requer estudo, tentativas. E a tendência de todo mundo é sempre evoluir”, afirma o produtor.

Mas por mais experientes e profissionais que sejam os produtores, eles ainda trabalham em pequenos estúdios caseiros e cobram um valor bem baixo para não perder a clientela. DG cobra em média R$250 para criar uma música. Duca do Baixo, o mais barato deles, faz por por R$ 150. Em Dany Bala é preciso desembolsar R$ 300 — mas aí você pode até passar no cartão de crédito. É uma realidade bem diferente do cenário do Rio de Janeiro e São Paulo. Conhecido por “Deu Onda” (MC G15) e "Tumbalatum" (MC Kevinho), o DJ Jorgin, por exemplo, cobra até R$ 3 mil por uma só faixa. DG acredita essa discrepância tem pelo menos um lado bom, que é despertar o improviso e a inventividade. “Não adianta ter o melhor equipamento do mundo se a gente não tem a criatividade, não estudar, não se aprofundar. Pelo fato do brega ser uma coisa de periferia que não é consumida a nível Brasil ou internacional, a gente não tem estruturas como o pessoal de fora. Então o temos que fazer do pouco, muito”, sentencia.

Nos últimos dois anos, as mulheres MCs também vem conquistando um espaço importante no movimento. No livro Ninguém é Perfeito e a Vida é Assim: Música Brega em Pernambuco, o professor e pesquisador Thiago Soares mostra como a cena brega é ancorada em dois tipos de performatividade. De um lado temos as divas das bandas românticas, que cantam sobre romances e separações amargas (nomes como Musa e Kitara). Do outro, temos os MCs e sua postura gangsta-ostentação. É essa fronteira que MCs como Gabi, Lia, Maya, Cleopatra, Marcelly Ferrari, Luanny e Van Van vem embaralhando — embora as duas últimas, desde o fim de 2017, tenham formado banda e migrado para o brega romântico.

Maya MC é autora de sons como “Violenta” e “Princesinha da Favela”, e diz que suas músicas quebram as barreiras do movimento ao retratar a mulher com postura ativa. “As músicas do bregafunk particularmente não falam valorizando a mulher e o quanto ela é poderosa. Quando decidi entrar no movimento foi para fazer músicas mostrando nosso poder, nossa sensualidade. Mas não nos menosprezando, não permitindo que o homem faça o que quer”, afirma.

A MC Gabi despontou com “Tu Gosta”, “Naipe da Marquinha” e “Sem Parar” — as duas últimas em parceria com MC Dread. Antes cantava funk pop, na linha de Anitta e Ludmilla, mas decidiu passar para o bregafunk quando percebeu que havia poucas MCs. “Faz diferença a gente poder entrar e ter o nosso espaço na música. O que eu mais quero é mostrar que as mulheres também podem cantar nesse estilo, não só música romântica em banda. Fora daqui tem os MCs e as meninas MCs. Acho que aqui também pode ser assim. E a mulher pode sensualizar, sim, porque ela tem potência para isso. Se eu cantar uma música mais pesada não significa que eu tô dando cabimento pras pessoas virem fazer o que quiser, é uma liberdade pra mim mesma”, enfatiza.

MC Lia fez sucesso na internet há dois meses e rapidamente foi apontada como “a nova MC Loma”. Enquanto Gabi, Maya e outras citam Anitta e Ludmilla como referência, Lia tem uma outra base. Seu ídolo é o MC da baixada santista Felipe Boladão e ela até faz show nos bailes funk de galera, agora pacificados, como o Baile da Paz, realizado pela Equipe Funk Antigo PE.

MC Lia. Foto: Igor Marques

“Eu escrevo música desde os nove anos de idade, só que escrevia pra dar. Nunca pensei em cantar nem nada porque eu achava minha voz feia. Só que aí fui vendo o pessoal tendo sucesso e, querendo dar uma vida melhor pra minha mãe, lancei o vídeo de ‘Sonho Meu’”, conta Lia. Com o sucesso do viral, ela se lançou no bregafunk com “Dança das Amigas”. A música chamou atenção do MC Troia, que regravou a música junto com Lia e soltou a também outra música, “Matemática”, apadrinhando a nova cantora.

Conforme o bregafunk se consolida e se multiplica, o movimento vai sendo revisitado. Enquanto grupos como Faces do Subúrbio e outros do movimento hip hop dos anos 1990 mantiveram distância dos MCs de funk, a nova geração de rappers do estado aproxima-se mais do brega. Diomedes Chinaski é o maior porta-voz dessa ponte e até gravou clipe com os MCs Japa e Danilo Cometa. “Antes mesmo de pensar em dialogar com o rap, a gente já dialogava com o brega sem saber, porque todo rapper de Pernambuco, mesmo que ele não queira admitir, é influenciado pelo brega, porque o brega é a cultura máxima de Pernambuco. Então, o meu contato com o brega é muito anterior ao rap. E o rap, por mais que seja muito grandioso para mim, não vai ser grandioso como o brega é para mim”, disse o rapper em entrevista à revista Continente.

Em meio à expansão do bregafunk, em agosto do ano passado entrou em vigor a Lei nº 16.044/2017, que incluiu o brega no mesmo rol de “expressão cultural de Pernambuco”, ao lado do maracatu, ciranda, coco, cavalo marinho, frevo, forró, mangue beat e outros gêneros. Isto faz com que artistas do brega, bem como dos outros ritmos patrimonializados, tenham uma reserva de 60% das vagas em eventos organizados pelo poder público, como o Carnaval, São João e Natal. O problema é que a lei, de autoria do deputado Edilson Silva (PSOL), não define de qual brega se falava. São as bandas da primeira geração, como Labaredas, as bandas do chamado brega pop, como Kitara e Musa, ou os MCs do bregafunk?

Quando publicada, a recepção da lei foi mista. Cantoras do brega romântico, como Michelle Melo, celebravam. Os MCs e DJs/produtores, por sua vez, demonstravam desconfiança. “Isso não vai mudar nada. Sabe o que vai acontecer? Vai chegar época de festa e o máximo de brega que vou ver tocando no Marco Zero é Musa”, criticava o produtor Dany Bala, em depoimento ao Jornal do Commercio.

“O que é o bregafunk? Como você o define?”. Foi o MC Elloco que deu a resposta certeira: “O bregafunk é a voz dos ‘incaláveis’.”

O cenário foi pior do que o previsto por Bala. Musa nem nenhuma outra banda de brega chegou a tocar no Marco Zero, o principal palco do Carnaval do Recife. Os MCs passaram ainda mais longe — Tocha esteve no Rec-Beat, mas pela iniciativa do festival, que tem autonomia curatorial. “A lei diz que o brega é cultura, então lança nóis. Lança nóis do lado de Alceu Valença no Marco Zero lotado pra você ver pegar fogo de vez, do jeito que você nunca viu. Nóis é forte e nóis tem história pra contar!”, provoca o MC Pato Problema.

“O que faz o brega ser cultura não é a lei. Cultura é a essência do povo, seus costumes”, afirma o músico e produtor Duca do Baixo. “Então quero deixar um recado ao governo: nós não passamos a ser cultura a partir do momento que fizeram essa lei aí, que não quero nem saber quando foi. Não passamos a ser cultura a partir daquela data. Acho que se voltar pros barcos que vieram dos portugueses já tinha gente lá cantando brega. Não é lei, data nem festa que valida ou que cria. Nasce naturalmente com o povo."

Legitimado por lei ou não, estabelecendo público no Sudeste ou ficando por Pernambuco, o bregafunk vive em constante metamorfose e resiste como trilha sonora da periferia há pelo menos uma década. Passei mais de dois meses conversando com MCs, empresários, dançarinos e produtores para essas reportagens e perguntava a todo mundo: “O que é o bregafunk? Como você o define?”. Foi o MC Elloco que deu a resposta certeira: “O bregafunk é a voz dos ‘incaláveis’”.

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