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Entretenimento

Trocamos uma ideia psicodélica com os criadores de 'Rick and Morty'

Justin Roiland e Dan Harmon falam sobre ácido, conspirações, alienígenas e a natureza da consciência.

por Mike Pearl; Traduzido por Marina Schnoor
21 Julho 2017, 7:18pm

Imagem via Cartoon Network.

Rick and Morty da Cartoon Network, com seu público enorme e elogios da crítica, é provavelmente o dono do mais alto padrão da animação para a TV no momento. Mas como o cocriador Dan Harmon me disse numa entrevista coletiva em Los Angeles, só 21 episódios foram ao ar até agora, e isso não é tanto material assim para avaliar.

A comunidade de fãs cresceu consideravelmente durante os quase dois anos de hiato da série, e, segundo Harmon "não foi porque estávamos lançando episódios. Isso aconteceu mesmo com nosso atraso para fazer a terceira temporada. A coisa cresceu sozinha".

E muita coisa louca aconteceu no mundo real durante essa pausa. Deixando as surpresas políticas dos últimos dois anos de lado, de algum jeito Alex Jones se tornou um comentarista político proeminente, e teorias de conspiração e o apocalipse viraram tópicos de conversa do dia a dia. O que deve ser bom para uma série sobre um cientista louco com uma queda por conspirações que acaba com o mundo o tempo inteiro. Na verdade, no episódio mais recente, Rick se referiu aos ataques de 11 de Setembro como uma "desculpa para tirar nossas liberdades" — um fato que eu nem teria percebido se não fosse pela intensidade febril com que os fãs dissecaram a frase na internet.

Outro cocriador de Rick and Morty, Justin Roiland, me alertou para não ler muito sobre essas coisas. Ele me disse que se mantém longe da política o quanto pode, e isso inclui as políticas do universo de Rick and Morty. "Nós meio que seguimos em frente. Acontece, e depois acaba acontecendo de novo." Ele acrescentou que evita teorias online sobre a série, porque "essas coisas vão acabar se infiltrando no meu cérebro".

Harmon e Roiland toparam conversar um pouco mais comigo sobre tudo isso. No nosso papo, teorias da conspiração se tornaram a base para falarmos da natureza da consciência, experiências psicodélicas e as lesmas alienígenas que assistem secretamente enquanto habitamos a simulação que é nossa suposta vida real.

VICE: Rick and Morty não é uma série política, mas essa é a primeira temporada desde que os EUA se tornou completamente consumido por política, e Rick é um tipo muito antigoverno e meio libertário. Vocês conversam na sala dos roteiristas sobre andar nessa corda bamba?

Dan Harmon: Já tínhamos saído da sala do roteiro quando a noção de que política seria importante — e não só numa esfera estranha e diferente — surgiu. Acho que podemos falar sobre as políticas de Rick no sentido de que ele é muito distante disso, vendo tudo tão de longe que seria virtualmente impossível traduzi-las para o espectro dos terráqueos.

Por quê?
Harmon: Porque, simplesmente, Rick — apesar de você poder se sentir assim sobre certas filosofias políticas — é realmente autocentrado. Ele vê uma imagem tão maior e tem um peixe tão grande para fritar que qualquer coisa terrestre que, bom... Qual seria a coisa mais próxima que você poderia chamá-lo (se fosse um humano tentando explicar Rick para outra forma de vida) num espectro político? Eu usaria a palavra "anarquista". Ele não gosta de receber ordens de ninguém. E sim, é isso que os libertários dizem, mas também reconhecem a existência de outros libertários, e dizem que se você deixar os outros fazerem o que quiser, vai ser tudo ótimo. Não acho que o Rick acredita nisso.

O que ele pensa?
Harmon: Acho que ele pensa que se você deixar todo mundo fazer o que quiser, Rick vai conseguir se safar, e ele sabe que sempre que você tenta ter um governo, é nonsense. Ele seria tão apaixonado por desmantelar o governo como por votar, ou seja, nada. As duas coisas são insignificantes para ele.

E como isso se relaciona com o que acontece no começo da temporada três?
Harmon: No [episódio] 301, o que você vê é que para ele desmantelar a federação galática inteira é a mesma coisa que aparar a grama, e ele faz isso para poder voltar para sua vida confortável. E ele se ressente com Jerry por obrigá-lo a fazer isso e, portanto, elimina Jerry de sua vida. É muito fácil dizer isso na sala dos roteiristas — e não prevejo nenhum problema. Todo mundo sabe que Rick não votaria em ninguém. Ele não daria a mínima.
Justin Roiland: Ele diria, tipo: [voz do Rick] "Quem se importa? Game of Thrones!"
Harmon: Ele é muito como o Justin. O Justin não se envolve com essas coisas, ele tem seus próprios planos para coleções de Lego e coisas assim. Se o Justin tivesse um QI de 3.000 e pudesse flutuar pelo espaço e o tempo, o Rick seria assim. Acho que o Justin não marcharia por nada, ele provavelmente estaria colecionando coisas estranhas e construindo seu arsenal.
Roiland: Não de um ponto de vista apático, mais tipo: "Né, o que posso fazer? Como vou ajudar alguém?"
Harmon: Esse é exatamente um ponto de vista apático.
Roiland: Verdade.
Harmon: Mas isso é bom! É melhor do que alguém com esse grau de poder decidindo que seu trabalho é salvar as pessoas de si mesmas de qualquer maneira. Isso é muito perigoso. Se Rick fizesse outra coisa além de buscar seja lá o que ele está buscando, ele causaria ainda mais danos do que já causa.
Roiland: Ele poderia [voz dramática] escravizar mundos se quisesse!

Mas no episódio 301, Rick olha mesmo para a TV durante o 11 de Setembro e diz que isso foi uma desculpa para "tirar nossas liberdades"?
Roiland: Acho que sim! Acho que podemos dizer que foi tudo conversa fiada — mas não sei. Foi uma piada que fez a gente rir muito.
Harmon: Se você analisar o cânone desse episódio, acho que isso tem que ser tecnicamente uma construção, porque o inseto nunca sai de Shoneys, e tem que acreditar que saiu. Então é muito possível, acho — provavelmente necessário — pensar que as coisas fora da janela são construções. Agora, qual o jeito mais fácil de construir alguma coisa? Copiar e colar. Por que você construiria algo do zero quando pode simplesmente fazer um exemplo de algo que já existe, e mudar o que você quer mudar, então acho que depende. Onde o Rick estava em 2001?
Roiland: Exato! Onde ele estava, porra? Provavelmente em alguma realidade baseada na Terra que é muito similar àquela que eles estão agora. Gosto de como ele logo disse "Ah, eu sei o que é isso!"

Para vocês, de onde veio a ideia de Rick ser meio que um truther do 11 de Setembro?
Harmon: Isso é baseado na minha realidade. Foi exatamente assim que reagi ao 11 de Setembro. Não estou brincando. Eu estava no telefone com meu amigo Rob Schrab, e foi exatamente isso que eu disse para ele — o que agora me deixa totalmente envergonhado! Mas olhei para trás e pensei "Ah, isso é um personagem". Um cara que acorda de manhã, assiste pessoas morrerem enquanto está de cueca na sala de casa vendo uma tragédia nacional se desenrolar e a primeira coisa na minha cabeça era "vamos nos safar escrevendo menos. Eles vão mudar o nome do país. Vão mudar nossas liberdades, e isso vai afetar minha busca pessoal pelo conforto". É uma coisa bem fodida.

Você mencionou antes que tenta ficar longe de teorias de fãs. Minha questão não é sobre as teorias em si, mas como elas se formam. Você vê uma ligação entre conspirações e esses tipos de teorias?
Harmon: Sim, 100%. Acho que quando JFK foi assassinado, a parte do nosso cérebro que estava pronta para ligar todos os pontos necessários para provar que tinha alguma ordem nisso, e que era uma ordem sinistra, são os mesmos químicos no nosso cérebro que você precisa para escrever histórias — e isso inclui fanfic.

Você disse que isso inclui fanfic, mas o que mais você acha que está envolvido com essa parte de criação de histórias no cérebro?
Harmon: Quando coisas ruins acontecem com pessoas boas, quando nossos amigos ficam doentes, quando nós ficamos doentes, quando o governo muda de mãos, quando você olha para um mapa e consegue imaginar quantos cães e gatos de rua estão sendo negligenciados ali, você pode começar a olhar para aquela caixa do "O Que a Realidade Realmente É", e é a parte criativa do seu cérebro que te puxa para fora da sua caixa e diz: "Sim, mas é o seguinte: Tem mocinhos, bandidos, tiroteios, e tem histórias, amor e paixão. E há transformação, há mudança". Quando você sente esse surto mental acontecendo, isso quer dizer que você está ficando mais esperto. Você está crescendo. Você está herdando o universo. Você está cada vez mais perto de uma coisa chamada "Deus", e "você vai superar isso. Você vai passar por isso". É como quando você tem um bad trip de cogumelos ou ácido, e seu amigo diz "Tudo bem. Isso é normal. Mesmo que as paredes estejam falando com você. Você só precisa comer uns gomos de laranja. Você precisa passar por isso, e é importante que esteja acontecendo. Isso te dá perspectiva". Se não fosse por isso, você pensaria "Isso é loucura, estou louco, então nada importa, acho que vou fazer alguma coisa horrível em público".
Roiland: Então use ácido mesmo, e JFK foi um trabalho interno.

Ah, você não precisa dizer isso pra mim. Mas uma teoria de fã que eu queria abordar é essa ideia de que o Rick sabe que ele é um desenho, e que vemos isso quando ele quebra a quarta parede. É bobagem?
Harmon: Isso sempre começa do lugar, tipo, se estou vivendo minha vida ideal, onde passo pelas galáxias e pelas linhas do tempo — onde estou vivo vai saber há quanto tempo, e vi tantas batalhas fatais e vivi para contar a história — por que eu não iria, quando estou contra a parede numa luta de espadas com Drácula, por que eu não olharia para uma câmera inexistente e diria "Voltamos já".
Roiland: [Rindo muito.]
Harmon: Por que fazemos coisas assim quando estamos em bares e lugares do tipo. Alguém diz alguma coisa e falamos "A conta, por favor!" Então comecei daí, e digo "isso é explicável através dessas lentes, ou o Rick só é meio louco?"
Roiland: Acho que é só uma coisa besta. É só engraçado para mim.
Harmon: Mas essa é uma teoria de fã que gosto.
Roiland: É, [voz dramática] ele sabe.
Dan Harmon: A ideia de que em algum nível, Rick não só é consciente de múltiplas realidades, mas múltiplas camadas de realidade...
Roiland: A sexta dimensão...
Harmon: Ou, em teoria de simulação...
Roiland: Alguém está assistindo! Sim, é verdade. Teoria da simulação. Tem uma parede de monitores em algum lugar agora, e lesmas gigantes alienígenas estão nos assistindo.
Harmon: Fui para Tulum com a minha namorada e o lugar era tão bonito, eu estava tão apaixonado por ela, e como sou um tipo niilista e orientado por ficção científica, o jeito como lidei com esse amor foi imaginar que enquanto eu estava olhando nos olhos dela, eu estava ganhando um jogo, que todos os meus amigos estavam me vendo jogar esse jogo de piñata — o jogo do Roy de Rick and Morty — e que eles estavam torcendo enquanto eu olhava nos olhos dela. Porque são nesses momentos que percebo que o sentido da vida é perceber como tenho sorte. E enquanto falava com ela, eu estava realmente em outro lugar usando um moletom, numa sala cheia de criaturas-polvo, me assistindo e dizendo "Ele conseguiu! Ele conseguiu!".

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá.

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