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Como a NBA influencia o estilo da juventude negra no Brasil

Há pelo menos duas décadas os ícones do basquete são referências na moda por aqui.

por Gustavo Mesa
21 Dezembro 2018, 8:59pm

Todas as fotos por Eduardo Saraiva

Em um rolê pelo Centro de São Paulo, é praticamente impossível não cruzar com alguém vestindo uma camisa da NBA. As jerseys de LeBron James, Stephen Curry, Kevin Durant, James Harden e companhia estão por toda a parte, assim como as regatas de ídolos das antigas e os tênis Air Jordan.

Mas o lifestyle do basquete transcende as quadras e também influencia o visual da juventude para além dos uniformes, principalmente da parcela negra da população. Não é um rolê novo: segundo a antropóloga Carol Delgado, a NBA começou a fazer a cabeça da molecada brasileira a partir da década de 1990.

“Quando a gente pensa no primeiro boom da NBA com a juventude, é ali para a segunda metade dos anos 90. Tem muito de performance, da gente olhar aquilo ali e ver uma excelência que só estávamos acostumados no futebol. De repente, invade as noites de TV da Bandeirantes e vira uma surpresa que faz a gente se deparar com muitas coisas novas”, diz Carol.

Pensa que naquela época não tinha internet e a TV a cabo ainda engatinhava. Então, meio que do nada, o grande público foi apresentado às enterradas, crossovers e jumpers do melhor basquete do mundo. Além do mais, os anos 90 foram uma década de ouro na NBA e também marcaram o início da hegemonia de Michael Jordan. Ou seja, quando a NBA chega ao Brasil, desembarcam junto a icônica camisa 23 do Bulls e os tênis Air Jordan como símbolos da excelência e do sucesso que um negro de origem pobre pode alcançar.

“Estamos falando de ver pessoas negras em um lugar de domínio absoluto pelo poder da imagem e também pela história do tênis, da camisa, enfim, de todos os símbolos visuais que estavam ali”, diz Carol. “A gente tem essa estética potencializada pela dimensão política. Quando eu coloco um Jordan, eu me sinto fazendo parte de uma coisa muito especial. Quando se usa uma jersey de basquete, não é só isso. Você está falando que existem negros milionários de sucesso e que multiplicam esse sucesso, que voltam para a base para resgatar as pessoas parecidas com eles ao redor do mundo”, explica.

Vitor e um modelo de Air Jordan.

Quem corrobora a visão de Carol é Vitor Petroni, que trabalha em uma das seis lojas da franquia Kings Sneakers na Galeria do Rock, no Centro de São Paulo. O vendedor vê no dia a dia o encantamento que um Air Jordan causa na molecada.

“É um sonho de consumo. Não sei se isso tem a ver com o moleque que nasce na quebrada e não tem muito acesso às coisas. Acho que no Brasil conta um pouco essa parada de ter o acesso ao tênis como um troféu. No primeiro trampo da molecada, qual é o sonho? É um tênis. O moleque da quebrada, quando vê um preto lá no alto, falando de dinheiro, de fama, dizendo tudo o que pensa, fazendo tudo o que gosta, isso conta muito”, fala Vitor.

Não tem como falar de NBA e estilo sem citar um nome: Allen Iverson.

A história dele é bem foda. Filho de mãe solteira aos 15 anos, ele morava numa quebrada na cidade de Hampton, Virginia. Aos 13 anos, ele viu o padrasto ser preso traficando drogas. Aos 15, seu mentor, um amigo sete anos mais velho que tomava conta dele no bairro, foi assassinado. Como muitos jovens negros pobres, Iverson tinha no esporte a esperança de uma vida melhor. E o garoto era um fenômeno, jogava tanto basquete quanto futebol americano no time do colégio - ele foi campeão estadual e eleito o melhor jogador do país nos dois esportes.

Tudo indicava uma carreira de sucesso. Até que uma treta quase pôs tudo a perder. Iverson, então com 17 anos, estava no boliche com seus amigos quando o grupo começou a se desentender com moleques brancos de outro colégio, e uma briga generalizada estourou. Qual o resultado? Quatro pessoas presas, todas negras, entre elas Allen Iverson. Em um julgamento bizarro e bem parcial – tem até documentário sobre isso –, ele foi foi condenado a 15 anos de prisão. Saiu da cadeia quatro meses depois por ordem de Doug Wilder, o primeiro governador negro da Virgínia. Em 1995, a decisão foi revertida por falta de provas.

Três anos após ser preso, Iverson estava na NBA. E ele entrou na liga com o pé na porta. Era impressionante o que aquele baixinho de 1,83m fazia. Logo no primeiro ano, mandou uma finta desconcertante em Michael Jordan que é lembrada até hoje.

Iverson foi vice-campeão da NBA em 2001 e eleito duas vezes o melhor jogador da liga. Mas sua influência ia além das quadras. AI tinha o estilo do hip-hop: tatuagens, tranças nos cabelos, sneakers, roupas folgadonas, colares, brincos, correntes e tudo mais. E o jogador mais cool da liga inspirava não só o público, mas também os outros atletas. Em pouco tempo, a NBA estava repleta de gangstas nas beiras das quadras.

Só que a NBA enfrentava um problema à época: queda de popularidade. Com aposentadoria de Michael Jordan em 1998, a audiência caía ano após ano. E uma treta generalizada entre Indiana Pacers e Detroit Pistons na temporada 2004-05, com jogador dando soco em torcedor e tudo mais, foi a gota d’água para que o comissário David Stern tomasse medidas para tentar melhorar a imagem da liga com o público. Uma delas foi a implementação de um código de vestimenta.

Para a temporada seguinte, os atletas estavam proibidos de colar em qualquer atividade ligada à liga ou ao seu respectivo time usando “correntes, pingentes ou medalhões sobre suas roupas”. Também foram vetados acessórios para a cabeça como bonés e chapéus. Daí em diante, os atletas precisavam usar “traje casual de negócios”.

É claro que os jogadores não gostaram da mudança naquele momento. “Eles estão mirando a minha geração, a geração hip-hop”, disse Iverson em uma entrevista para a televisão. O ala Jason Richardson, à época no Golden State Warriors, falou à Associated Press que o código de vestimenta era “meio racista” e que tinha como alvo os jogadores negros.

O fato é que, gostando ou não, os atletas precisaram se adaptar ao dress code. Com o passar do tempo, eles parecem ter curtido a ideia de se vestir na estica.

“Foi tipo ‘OK, agora a gente não pode só botar um moletom’. Aí começou a se tornar uma competição entre os caras”, afirmou Dwyane Wade em uma entrevista em 2014. Atualmente, o ala do Miami Heat é um dos ícones fashion da NBA ao lado de nomes como LeBron James e Russell Westbrook, entre outros.

Para Carol Delgado, os últimos anos marcam o “segundo boom” da NBA no país, potencializado pelas mídias digitais.

“A potência disso é maior. Ele chega junto da discussão que pauta o estético dentro da questão racial. Então, o que nos anos 90 a gente fez muita questão de manter organicamente, a gente tem isso potencializado em mil quando chegamos agora. São pessoas com milhões de seguidores na rede, que estão conectadas com o rap, cultura pop de uma maneira que isso se multiplica infinitamente. Acho que tem para a juventude negra esse papel de representatividade e representação. A maioria dos jogadores tem histórias difíceis e muito parecidas com os guetos negros ao redor do mundo”, analisa.

Na parte estética, é possível também observar uma mudança similar de padrões ao longo dos anos. Quem diz isso é Luís Fabiano Santos, barbeiro que trabalha no salão 4P, na Galeria do Rock.

“Antigamente, você via a galera com short largão. Hoje, o moleque usa a bermudinha acima do joelho, camisetas mais coladas. É a tendência. Você tem que se reciclar. A galeria não é a mesma de quando eu cheguei aqui em 1994”, conta.

Mas nem todo mundo que está na estico do basquete curte o esporte. Carlos Leandro Nascimento, por exemplo, curte o estilo e diz que a inspiração na real vem da música, e não é do hip-hop. “Basquete eu não entendo nada, mas o estilo eu acho da hora. Essa inspiração vem das redes sociais, internet, televisão. A gente cresce acompanhando. No pagode também pega junto. A galera do pagode também me influenciou a usar. O Rodriguinho do Turma do Pagode usa todas essas marcas”, diz o músico de 33 anos.

Para Eduardo Expedito, cunhado de Carlos, a inspiração para usar o visual do basquete parte dos atletas, só que de outro esporte. “Eu curto basquete, não assisto muito, prefiro o futebol. Porém, sigo um monte de jogadores e é mais ou menos esse o estilo que eles usam. O Gil, que era zagueiro do Corinthians, usa bastante e me inspiro nele. É diferente, um estilo novo”, afirma o garoto de 18 anos.

Carlos e Eduardo são exemplos desse “segundo boom” que a Carol falou lá em cima. Através das novas tecnologias e redes sociais, os jogadores da NBA influenciaram ícones negros do Brasil, como o zagueiro Gil e o pagodeiro Rodriguinho, que por sua vez repassaram essa inspiração aos seus fãs por aqui.

Não tem muito o que fazer: o estilo da NBA já está por aqui e, pelo visto, não vai embora tão cedo.

E se liga em mais umas fotos de uma galera estilosa pelas ruas de São Paulo.

Carolina Marinati, 24 anos.
Nicolas Demetrio, 17 anos
Lucas do Carmo, 24 anos
Keith Tammy, 27 anos

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Lucas Lameu, 27 anos.
Luan Henrique Cassian, 24 anos

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