Publicidade
Games

Como um policial arruinado criou o videogame mais reacionário dos anos 90

Quando as revoltas de Los Angeles em 1992 destruíram sua reputação, Daryl Gates encontrou uma pós-vida num jogo point-and-click.a

por Duncan Fyfe; Traduzido por Marina Schnoor
26 Janeiro 2018, 1:00pm

Foto: Gary Leonard/Getty Images.

Matéria originalmente publicada no Waypoint.

Aviso: esta matéria discute incidentes de violência policial, homofobia, violência e assassinato.

Quando Ken Williams, o chefe-executivo da Sierra On-Line, levou o novo game designer contratado da empresa para o escritório, alguns funcionários optaram por ficar em casa. Melhor ouvir bronca do patrão que ser obrigado a conhecer um dos homens acusados de alimentar a cultura da brutalidade policial numa escala municipal nos anos 90.

“Apertei a mão dele, mas não conversamos nem um pouco”, lembra Josh Mandel, o então diretor de design de produtos da Sierra, o estúdio por trás de séries clássicas de aventura como King's Quest, Leisure Suit Larry e Gabriel Knight. “Eu não tinha nenhuma pergunta para ele. Eu não estava feliz com ele ali. Eu só queria que ele fosse embora o mais rápido possível.”

Do outro lado da sala, Gano Haine e uma pequena equipe trabalhavam num jogo temático ambiental chamado Lost Secret of the Rainforest. Williams não costumava visitar o estúdio. Com ele estava um homem mais velho que Haine não reconheceu. Ela achou que ele parecia elegante, mas sem importância.

“Gano!” Ela nem achava que Williams sabia o nome dela. “Mostre para o homem como fazemos tudo isso!”

Haine obedeceu, demonstrando as ferramentas de desenvolvimento da Sierra para o visitante silencioso. Na sala, ela diz, “dava para ouvir uma agulha cair”. Depois de alguns minutos, Williams retornou e pastoreou seu convidado para outro lugar.

“Um dos artistas da minha equipe disse: 'Gano! Aquele era Daryl Gates'.” Ela não se lembrava do nome.

“O artista olhou para mim e continuou 'Gano! Daryl Gates. LA. KA-BOOM!'”

Revolucionários

Em 1979, Daryl Gates era o novo Chefe do Departamento de Polícia de Los Angeles. Ken Williams e sua esposa Roberta sonhavam em sua jacuzzi em Simi Valley em ter sucesso no desenvolvimento de videogames para PC.

Os dois tinham vinte e poucos anos, Ken tinha sagacidade para programação e negócios, e Roberta era um talento latente de roteiro e design de jogos de aventura com história. Eles construíram sua empresa, a On-Line Systems (mais tarde rebatizada de Sierra On-Line) em Coarsegold, Califórnia — uma cidade tão pequena que 5% de suas páginas na Wikipédia são sobre a temporada de acasalamento das tarântulas. (“Os locais desviam de seu caminho para proteger e respeitar os aracnídeos nessa época”).

A Sierra se tornou um paraíso lucrativo para hackers e artistas impacientes e idiossincráticos com uma cultura corporativa relaxada e até intrusiva. Como documentado no livro Hackers de Steven Levy, fumar maconha era permitido e beber era encorajado; empregados eram convidados para a jacuzzi de Ken e viagens de final de semana para uma “Noite dos Homens” semanal; e Ken tinha um interesse ativo e bizarro em fazer seu jovem astro da programação transar, chegando até a contratar uma trabalhadora sexual para ele.

E a Sierra tinha a mesma abordagem rápida e relaxada para seus produtos. A Atari tentou sem sucesso processar a Sierra por vender uma versão parecida demais com Frogger; um caso que assustou Ken Williams, e o fez abraçar um etos de gerenciamento mais tradicional, desencadeando sua metamorfose de um hacker de jacuzzi para um chefe-executivo conservador.

Police Quest.

Nos anos 90, a Sierra presidia uma coleção de franquias de sucesso. O ganha-pão era King's Quest, uma saga feita para a família misturando realeza e contos de fadas criada por Roberta Williams.

Em 1985, Williams conheceu Jim Walls, um patrulheiro de estradas da Califórnia, e o contratou para criar uma versão realista com temática policial de King's Quest, o Police Quest. A Sierra era um estúdio diferente, maior e mais tradicional naquela época, mas ainda foi uma jornada profunda ir de uma empresa construída sobre caprichos criativos (e muitas vezes bêbados) de hackers desajustados para dizer: “Sabe quem deveria fazer um videogame? Um policial”.

Walls fez três jogos de Police Quest com a Sierra, e a série era um casamento curioso entre brincar de policial e uma observação pedante dos procedimentos.

Jogando como o herói clichê Sonny Bonds, um policial de trânsito da cidade fictícia de Lytton, você atira em um grande traficante com uma arma escondida numa bengala de cafetão, liberta um avião sequestrado por terroristas, vence sozinho uma seita satânica assassina e, constrangedoramente, “resgata” uma prostituta sempre em perigo para torná-la sua dona de casa.

Enquanto isso, se você não olha explicitamente para os dois lados antes de atravessar a rua, você morre. Se perder uma reunião da polícia, você morre. Se não sabe o código de violação de cinco dígitos do seu manual policial, você morre. Na cosmologia de Police Quest, o poder da polícia é tanto sem limites quanto precisamente regulado, e o manual da polícia é o único baluarte confiável contra o completo caos da sociedade e a morte.

Walls deixou a Sierra depois do terceiro Police Quest. Era 1992, e Ken Williams precisava de um novo policial. Ele pediu sugestões para continuar a franquia, e Wall ofereceu alguém da sua própria estirpe: Daryl Gates.

'Police Quest 3' começa com a descrição da felicidade de Sonny Bonds e sua nova esposa, Marie.

O chefe

“Não investi 42 anos da minha vida para descer pelo cano por um incidente com que não tive nada a ver”, declarou Daryl Gates, então entrando para o que seria seu último ano como Chefe do Departamento de Polícia de Los Angeles.

O incidente em questão — em março de 1991 — foi a transmissão mundial de um vídeo, mostrando vários policiais de LA espancando o motorista negro Rodney King.

“Ooops”, um dos oficiais informou de sua viatura para um colega.

“O quê?”

“Eu não batia tanto assim em alguém há muito tempo.”

Encarando o ultraje do público, Gates denunciou o ataque ao homem como um erro humano, um deslize no bom trabalho da polícia de Los Angeles. “Isso não é uma aberração”, um legislador da Califórnia respondeu: “O mais incrível é que tivemos sorte de conseguir gravar isso em vídeo”.

A violência contra King foi um excesso flagrante e inevitável do estilo político agressivo e paternalista de Gates. Aquele estilo, em termos mais amplos, era combinar o uso de excesso de força (criando equipes da SWAT; fazendo ofensivas contra violência de gangues) com ser escroto (dizendo publicamente para Jimmy Carter que seu esquadrão da SWAT poderia tirar os reféns do Irã; explicando que os oficiais latinos não eram promovidos dentro do departamento porque eram preguiçosos).

Não exatamente a abordagem de alguém que quer construir pontes. Em 1979, o primeiro ano de Gates como Chefe da Polícia, a Comissão Policial Civil censurou o departamento por ter atirado e matado a dona de casa negra de 39 anos Eula May Love. Gates respondeu que o relatório da Comissão prejudicava a moral da polícia, e que o policial que matou Love era “tão vítima quanto ela”.

Gates dando uma entrevista coletiva durante as revoltas. Atrás, o prefeito Tom Bradley. Foto: Tonya Evat/Getty Images.

A relação de Gates com a comunidade negra de LA, em particular, era abismal. Em 1982, Gates compartilhou sua “intuição” sobre por que negros tinham uma tendência desproporcional a morrer quando eram sujeitos a mata-leões da polícia: “Em alguns negros... as veias ou artérias não aparecem como em pessoas normais”. Mais tarde, se defendendo das críticas previsíveis, Gates disse que “muita gente da medicina” ligou para dizer que ele estava correto.

Numa reunião do conselho municipal depois do espancamento de Rodney King, um vereador sugeriu que as pessoas tinham razão em achar que a história do departamento com a comunidade negra sob Gates criou as condições para o incidente de King.

Com um suspiro indiferente, Gates se desviou da acusação. “Esse é um departamento de polícia que apoia vocês, cada um de vocês. Vou te dizer isso. Se você não falar a favor dos homens e mulheres do Departamento de Polícia de Los Angeles, que servem essa cidade tão bem, se você não fizer isso, neste momento crucial da nossa história, então... você não vai ter o departamento de polícia que vai ser o tipo que você quer, o tipo de departamento que as pessoas merecem.”

“Isso é uma ameaça?”

“Esse é o maior insulto que já ouvi desse conselho no tempo em que estou aqui”, respondeu Gates, agora de maneira direta, “e estou aqui há mais tempo do que você está vivo”.

Mesmo assim, depois do espancamento de King, Tom Bradley, então prefeito de LA, ordenou uma comissão independente para revisar a “estrutura e operação” da polícia: “Temos que encarar o fato de que parece haver uma tendência perigosa de incidentes racialmente motivados em, pelo menos, alguns seguimentos do nosso Departamento de Polícia”.

Gates disse: se a comissão realmente descobrisse que sua liderança teve algo a ver com o que aconteceu com Rodney King? Claro, ele renunciaria.

A comissão descobriu. E ele não renunciou.

“Não esperem que eu simplesmente fuja”, ele explicou.

Eventualmente, ele concordou em renunciar como chefe em abril de 1992 — se a burocracia complicada da cidade conseguisse apontar um sucessor antes que ele fizesse isso. E ainda assim, em abril, a polícia tinha dois chefes, porque Gates se recusava a largar o osso.

“Talvez em junho”, ele disse.

Gates ainda estava no comando em 29 de abril de 1992, quando um júri principalmente branco de Simi Valley inocentou quatro dos oficiais que atacaram King. As revoltas começaram naquela tarde. Nos seis dias seguintes, 63 pessoas morreram e milhares ficaram feridas. No primeiro dia, Gates estava num evento de uma campanha para levantar fundos contra uma proposta que limitaria o poder do chefe de polícia de LA. O que já era ruim, mas nem de perto tão sério quanto a suspeita e inexplicável falta de intervenção policial logo no começo.

“Claramente deveríamos ter estourado algumas cabeças.” – Daryl Gates

“[Gates] estava contando com a anarquia para que ele pudesse chegar como um cowboy e salvar todo mundo, ser um herói, e que isso o ajudaria a subir para um gabinete eleitoral mais alto”, teorizou o diretor John Singleton em 2017. “Foi um tiro no pé. Isso acabou com a carreira dele, porque ele foi muito presunçoso nisso. Ele não tinha know-how; ele foi totalmente presunçoso. E nenhum dos líderes da cidade ou da sua vida particular em Los Angeles o ajudou, ninguém veio em seu socorro.”

“Eu disse que me aposentaria no final de junho”, Gates anunciou em junho, “e agora meu sentimento é 'Foda-se, vou me aposentar quando eu quiser me aposentar'”.

“Quantas vezes nos prometeram que ele finalmente iria embora?”, perguntou o prefeito Bradley. “Acho que as pessoas estão cansadas de Daryl Gates as empurrando de um lado para outro.” Um restaurante de comida chinesa delivery em West LA colocou um outdoor com a imagem de Gates e o slogan “Quando Você Não Pode Sair. Ou Não Vai”.

O chefe sitiado ficou sem opções. “O que aconteceu com esta cidade”, ele fulminou em sua saída, “foi um esforço pensado para trazer grande desrespeito para as pessoas de que a população depende para que a lei seja cumprida. Você não pode minar o respeito das pessoas por essa organização e esperar outra coisa que não... uma anarquia descontrolada”.

Em outubro, um comitê independente criticou a polícia e Gates em particular pelo tratamento das revoltas. “Claramente”, disse Gates numa entrevista coletiva, “deveríamos ter explodido algumas cabeças”.

Reconhecimento de nome

Enquanto isso, na Sierra, Josh Mandel achava que contratar Gates para Police Quest — meses depois da aposentadoria do chefe — era uma péssima ideia. Ele sugeriu como alternativa Joseph Wambaugh, um detetive de LA que se tornou autor de livros de crime, mas suspeitava que Ken Williams já tinha se decidido. “Ele continuava mencionando Daryl Gates, sempre que tínhamos uma conversa sobre isso. Parecia que ele achava que era uma oportunidade de ouro que não podia deixar passar.”

Em Gates, Williams via polêmica. “Ele gostava muito disso. Ele achava que assim conseguiriam muita cobertura da imprensa e publicidade para o jogo”, Mandel lembra. “Acho que uma coisa é procurar polêmica, outra é tentar dividir as pessoas. Parecia óbvio para mim que alguns jogadores de Police Quest largariam a série em vez de comprar um jogo com o nome de Daryl Gates na caixa.”

Police Quest: Open Season.

Mandel implorou novamente para Williams considerar Wambaugh, argumentando que um autor de best-sellers do New York Times criando o jogo conseguiria muita atenção também. “Ken disse uma coisa que me chocou. Ele disse: 'Nossos jogadores não leem o New York Times.”

Se lessem, eles reconheceriam o novo rosto de Police Quest de matérias como “Violência e racismo são rotina na polícia de Los Angeles, diz estudo” (julho de 1991). Ou, se lessem o Los Angeles Times: “'Sim, foi isso que eu quis dizer!', disse Gates sobre a ideia de atirar em usuários de drogas” (setembro de 1990).

Mas publicidade negativa não preocupava Williams. Ele escreveu para Gates perguntando se o ex-chefe queria criar o próximo Police Quest, o que Gates — que não usava computadores — leu com desinteresse quase total. Mas vagamente consciente de que a molecada da vizinhança “gostava muito desse jogos de coordenação motora”, Gates fez sua secretária escrever de volta pedindo cópias grátis do jogo. Foi o pé na porta de Williams.

Williams e Gates se conheceram por telefone, e quanto mais Williams descobria, mais ele gostava. Ele gostou do fato que Gates surfava toda manhã. Os dois eram fãs do programa de rádio de Rush Limbaugh. Da parte de Gates, ele via a Sierra e Police Quest como uma oportunidade de “talvez dizer algo importante sobre fazer o trabalho policial... [e] tentar dar às pessoas uma apreciação melhor do que os oficiais encaram no trabalho e encorajar o apoio a eles”.

Quando Williams fez a viagem para conhecer Gates, lembra John Williams, irmão de Ken e diretor de marketing da Sierra, “a impressão com que Ken voltou era muito favorável. As ações de Gates eram de um perfeito cavalheiro, e ele era uma cara muito família”.

“No final”, John Williams disse em 1993, “acho que Ken quis acreditar que Gates foi o bode expiatório para toda a história das revoltas de LA”.

Apesar de Gates ter sido nominalmente contratado como o “autor” do quarto Police Quest, o jogo foi escrito e feito principalmente por Tammy Dargan, uma produtora da Sierra que antes tinha trabalhado no programa de TV America's Most Wanted. Gates fez anotações do roteiro dela. Com Police Quest: Open Season, como o jogo foi batizado, Gates e Dargan largaram a ficção preexistente da série e mergulharam na violenta Los Angeles que Gates conhecia.

Quando a imprensa descobriu o novo projeto de Gates, pareceu que Ken Williams teria a polêmica que tanto queria. “Ele encarnava tudo que há de ruim na força policial — os problemas da experiência policial machista, racista e brutal que estávamos tentando deixar para trás. Que alguém possa contratá-lo para um projeto assim prova que algumas empresas vão fazer qualquer coisa pelo poderoso dólar”, disse John Mack, presidente da Los Angeles Urban League, ao Morning News de Dallas.

“Não vejo esse jogo criando qualquer polêmica. Fui trazido pela minha experiência”, Gates respondeu, mas não conseguir deixar de acrescentar: “acho que cidadãos bons, comuns e responsáveis vão apoiar”.

Na Sierra, Josh Mandel achava que a alegação de Gates de que tinha sido contratado por sua experiência, não pela polêmica, não fazia sentido. Mas a polêmica não gerou a tempestade de publicidade que Williams esperava. A Computer Gaming World entrevistou Gates, mas avisou que “o caminho da polêmica passada” não seria abordado em suas páginas.

“Não acho que Ken conseguiu o nível de notoriedade que estava buscando”, diz Mandel. Pelo menos não fora da Sierra. “Muita gente na empresa estava insatisfeita com isso... que Ken e a gerência capitalizassem com alguém tão controverso e sombrio como Daryl Gates. E o Police Quest 4 ganhou um nome diferente dentro da empresa. Começamos a chamar o jogo de Rodney King's Quest.”

Cena de abertura de 'Police Quest: Open Season'.

Police Quest: Open Season foi lançado em novembro de 1993, com o nome de Gates em letras grandes na capa. O jogador assumia o papel de John Carey, detetive de homicídios de LA, na caça a um serial killer que também matava policiais. “O que você pode nos dizer sobre o que está sendo chamado de 'a mais sangrenta onda de assassinatos da cidade'?”, um repórter insistente pergunta para o sempre cansado Carey.

Open Season começa pesado, com Carey no centro escuro de LA encontrando um policial e uma criança negra mortos numa caçamba de lixo. Carey segue pistas em cantos sujos da cidade, até que o jogo mergulha num completo inferno histérico, concluindo com Carey incinerando o assassino — um cross-dresser que ganha tanta humanidade e profundidade na história quanto era de se esperar — como um lança-chamas improvisado. E ele recebe uma medalha por isso.

Gates foi contratado para trazer sua Los Angeles para a tela, e Open Season é, de fato, a LA de Gates: uma catedral desmoronada, onde os bons, morais e honestos esperam com medo a escória multicultural das ruas, se esgueirando até a realidade suburbana branca. Naturalmente, segundo Gates, o terror das gangues é criado por programas de assistência social: “Essa é uma gangue de garotas hispânicas”, Carey lê nos arquivos da polícia. “Para entrar na gangue a garota precisa assaltar à mão armada um comércio. Muitas dessas garotas são mães solteiras e recebem pensão do governo.”

Nessa LA, uma cidade de “bandidos, tarados e perdedores”, o graffiti é uma “praga urbana”. Mães imploram que a polícia “torne as ruas seguras para as crianças”, e os policiais não aguentam ver “crianças e suas famílias inocentes feridas por toda essa violência nas ruas”. Um policial é morto enquanto leva uma mulher até o carro dela. Uma garotinha abraça Carey quando ele soluciona o assassinato do pai. Gays e trabalhadores sexuais são lascivos. Personagens negros dizem coisas como “Yo, I be fly today!” e “This be my 'hood. I be Raymong Jones da third”. Quando a Vibe pediu que ele comentasse sobre isso, Gates jogou a culpa no estúdio: “Eu disse [à Sierra] que essas pessoas usam a mesma linguagem que eu e você”.

“Tudo que você pode tirar de Open Season é que o assassino é 'estranho', e ser estranho é ser desviado, e não há ameaça maior para o establishment que desviados.”

A imprensa e políticos são irresponsavelmente irritantes. Uma jornalista agressiva faz escândalo quando Carey a empurra de leve da sua frente. Se Carey fala com um repórter, seu tenente briga com ele por causar pânico na cidade. Falando no tenente, ele vai dizer a Carey que o prefeito não o deixa em paz. Como os civis são pouco razoáveis!

Na LA virtual de Gates, os personagens defendem as conquistas dele na vida real. Sobre a equipe de elite C.R.A.S.H dele (que significa Community Resources Against Street Hoodlums [algo como Recursos Comunitário Contra Vadiagem]), um policial diz entusiasmado: “Agora esses garotos são homens!” Faixas no jogo promovem o D.A.R.E., o programa educativo antidrogas de Gates. Se você tenta tocar uma delas, o jogo protesta: “Deixe a faixa no lugar. Ela é uma fonte de orgulho para o departamento”. Um sargento até recomenda a autobiografia de Gates: “Aprendi algumas coisas”.

A trama é um profundo nada. Não há razão ou motivo para os assassinatos, só massacre aleatório. O jogo conclui com a revelação de que o assassino é cross-dresser, como se isso explicasse por que ele mata. Uma coisa sobre Open Season é certa: o jogo pode ser um fracasso de caracterização e narrativa, mas encapsula perfeitamente a visão de mundo de Daryl Gates.

Como chefe da polícia, Gates estava mais interessado no crime em si do que na mente criminal; o crime era uma força elemental de aniquilação que precisava ser confrontada com força total. Tudo que você pode tirar de Open Season é que o assassino é 'estranho', e ser estranho é ser desviado, e não há ameaça maior para o establishment que desviados. O mundo de Gates é um labirinto de monstro onde não há luz e as paredes se movem, mas a polícia assegura o centro, vulnerável mas lá: a tênue linha azul. E se essa linha se quebrar?

No cerne do jogo de Gates há um aviso, nada sutil, entregue por personagem civil trêmulo, implorando pela proteção da polícia: “Acho que a cidade está indo para o inferno. Como comerciante, confronto vandalismo e roubo todo dia... O que vai acontecer com a cidade?” “Se a polícia não consegue proteger os seus, como vai nos proteger?”

Era essa coisa importante que Gates queria dizer sobre a força policial, e sei disso porque foi o que ele disse em toda sua carreira: se a polícia cair, todo mundo morre. Então fique fora do caminho.

Police Quest: Open Season.

A moral de Police Quest: Open Season se torna uma aula numa coleção de entrevistas em vídeo com Gates nos extras do CD-ROM. Nos vídeos, Gates — como uma criatura de David Lynch — defende o retorno da lei seca (sim, ele diz, há violência de gangues, mas “eles estão se matando — não matando os cidadãos comuns por aí”) e defende seu próprio legado. Aquele vídeo das revoltas de 92, onde você vê um homem sendo arrancado de seu carro num cruzamento e espancado quase até a morte? Pareceu ruim, sim, admite Gates: “Mas foi só um cruzamento!” Havia muitos cruzamentos, ele diz, onde você não tinha esse problema.

Então era isso que Sierra On-Line, uma empresa construída por hackers desobedientes e que ascendeu com o family-friendly King's Quest, tinha se tornado: um estúdio que publica um vídeo onde Daryl Gates diz que o espancamento de Rodney King foi “um incidente que não exigia o tipo de atenção que teve”. Antigamente, o CD-ROM de King's Quest tinha um game bônus onde você jogava damas com o rei.

O caixote para o discurso é um presente generoso da Sierra para Gates, mas não é o melhor: O ex-chefe de polícia está em Open Season. Não como personagem, mas como ele mesmo. No jogo, Gates é restaurado como chefe da polícia, encorajando John Carey em sua busca e, na cena final, presenteia seu cavaleiro com uma medalha de honra.

Na vida real, Gates estava no ponto mais baixo de sua carreira, temendo que sua visão violenta, racista e paramilitar de policiamento nos EUA estivesse sob uma ameaça existencial. O jogo é resultado de uma tentativa patética de realizar os desejos de um homem desgraçado: um grito fraco de “blue lives matter”, e que a polícia não deveria ouvir nenhuma crítica do povo.

No mundo de Police Quest, ninguém faz escândalo sobre Rodney King, Eula Love ou mata-leões. Os cidadãos de LA são bons e honestos, os latinos aguentam ouvir uma piada racista, os políticos ficam fora dos negócios do departamento, não há comissões independentes, a tênue linha azul resiste firme contra a maré de caos, e Daryl F. Gates ainda é o grande chefão.

Em 2018, equipes da SWAT operam por todo os EUA, o exército doa lançadores de granada de veículos blindados para departamentos de polícia locais, oficias são rotineiramente inocentados de assassinatos filmados, e tudo em Police Quest: Open Season parece datado, exceto o etos. Gates pode ter perdido seu trabalho, mas comissões independentes e reformas fracassaram em reverter sua visão de policiamento. Na verdade, essa visão nunca morreu. Daryl Gates nunca deixou de ser o chefe.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.