Semana da Saúde Mental

Como a expectativa do sucesso afeta a saúde mental dos rappers

Fama, grana e depressão. Seguindo uma tendência gringa, artistas como Djonga, Derek e Luiz Lins falam sobre os transtornos que afetam os artistas no rap.

por Amanda Cavalcanti e Rap Falando
01 Novembro 2018, 9:28pm

Arte: Flora Próspero

Em julho de 2018, o rapper norte-americano Denzel Curry lançou “Clout Cobain”, primeiro single de seu álbum TA13OO, lançado alguns meses depois. “I just wanna feel myself / You want me to kill myself” eram os versos que abriam a faixa, que se tornou ainda mais marcante pela crítica forte que o rapper estava fazendo à espetacularização do uso de drogas e do estado de saúde mental de muitos rappers ao seu redor, e por ter sido lançada apenas alguns meses após a morte de colegas como Lil Peep, XXXTentacion e Fredo Santana.

Esses rappers, e muitos outros de seus contemporâneos, tinham algo em comum: falavam sobre depressão, ansiedade e outros problemas que afligem grande parte da juventude de hoje. Peep e XXXTentacion ambos falavam em suicídio, apesar das três mortes terem sido acidentais: Peep e Fredo morreram de overdose de codeína — uma crise também séria nos Estados Unidos — e XXX foi assassinado durante um assalto. Os três se conectavam com seus ouvintes por tornarem pública a decaída de sua saúde mental. O que Denzel critica em “Clout Cobain” é justamente a fetichização desse fenômeno.

Mas a discussão sobre saúde mental no hip hop norte-americano já se encontra alguns anos luz da nossa. Por mais que assuntos como depressão já tenham sido tratado antes no rap nacional, ainda há um gigantesco tabu quando se fala de suicídio. Recentemente, alguns artistas vêm tocando no assunto aos poucos, levantando a bola para que outros possam colocar pra fora o sofrimento com as crises.

Em agosto de 2017, Baco Exu do Blues lançou o primeiro single do que seria seu aguardado álbum de estreia, Esú. Depois que “Sulicídio” e o Poetas no Topo 2 estouraram, o rapper baiano lidou com um ano de expectativa dos fãs que esperavam sua estreia oficial. A resposta veio na forma da faixa “En Tu Mira”, em que ele relata a perda de sanidade pela pressão do público e termina com um suplício (“Isso é um pedido de socorro / Você está aplaudindo / Eu tô me matando, porra”) e um tiro.

Em “Junho de 94”, faixa autobiográfica do disco O Menino que Queria ser Deus (2018), do Djonga, ele relata como os problemas causados pelo sucesso de sua carreira como rapper depois do lançamento de seu primeiro disco (Heresia, de 2016) o fizeram considerar o suicídio. Flip falou também sobre o problema na faixa “Sabrina” em 2017, e Raffa Moreira relatou uma crise parecida em sua faixa de 2016 “Print na Briga”: “Se ele soubesse, eu tive depressão / Eu vi Deus na minha frente / Ele falou comigo / 'Não se mata, filho, vou te fazer grande'”, fala na música.

“Comecei [a falar de saúde mental] com uma expressão de arte, como pintar um quadro mesmo, uma coisa muito sincera. Eu quero ser fiel a mim mesmo”, fala o rapper ao Noisey. “Na época das crises, eu tive o apoio da minha família e me voltei pra mim mesmo, para esportes e mudei minha alimentação. Dei um tempo no trabalho e responsabilidades no geral, porque estava bem atarefado nessa época. Atualmente eu não estou controlando. Minha vida tá mudando pra caralho, e tá sendo foda.”

Entre esse trio de artistas, um consenso é certo: o trabalho e a vida envolvida com o rap afeta a saúde mental profundamente. “Você conhece muita gente, mas na real são pessoas vazias e chega um momento que isso te faz mal, senti muito isso no começo da carreira. Se você não tiver o corpo fechado, pode acabar se perdendo com tudo isso”, fala Derek, da Recayd Mob, que já se abriu publicamente sobre sofrer de depressão. O pernambucano Luiz Lins também encontra dificuldade em estar nesse meio: “É difícil pra mim estar exposto às pessoas, o palco é difícil, é difícil ser idealizado. O que quase sempre acaba acontecendo é que, pela minha dificuldade em processar esse tipo de relação, as pessoas acabam tendo uma visão errada de mim, como alguém antipático ou até mesmo mau.”

Luiz lançou há algumas semanas a música “Eu Tô Bem”, em que fala sobre seus sofrimentos como dificultadores de relacionamentos e saúde mental. Ele diz que nunca soube muito bem lidar com “sua cabeça”, mas que as drogas costumavam ser um alívio imediato para o desconforto das crises. A realidade é insuportável sóbrio, mas gente acaba se machucando muito no caminho e até entender leva tempo. Já tive vício em ansiolítico por conta dessa questão no fim da adolescência, tive problemas recentes com álcool, vício em crack e uma situação desgraçada com a cocaína que durou meses, ainda esse ano”, relata o cantor.

Além da fama e da pressão, há um espectro maior que acaba afetando a saúde mental não só de muitos rappers, como também de milhões de outras pessoas Brasil e mundo afora: o racismo. Numa entrevista à rede de televisão BET, o rapper norte-americano Vic Mensa comparou nascer negro nos Estados Unidos a “quebrar o braço todo ano, mas na verdade são cabos do seu cérebro que estão quebrando. Mas fomos condicionados, com os termos 'crazy black man' ou 'crazy black woman', a ter medo desses rótulos porque são sinais de fraqueza.”

Professor de geografia e pesquisador no campo de masculinidades, em especial sobre a solidão do homem negro, Caio César acredita que a sexualização e a violência atribuída ao corpo negro pode causar problemas complicados a longo prazo. “O homem negro é visto como uma máquina e quando nós nos encaixamos nesse papel, isso nos retira a humanidade. Essa situação contribui para uma saúde mental totalmente afetada, seja pela autocobrança ou por descontarmos essa frustração em álcool e drogas.” Dentre os efeitos dessa expectativa racista cabe, também, a tal masculinidade tóxica, que acaba afetando a relação dos homens com eles mesmos, com a sociedade e, em especial, com as mulheres.

Além do racismo, as mulheres negras também lidam com o peso de ter que arcar mentalmente com a misoginia. Rappers como Azealia Banks e Bivolt já trataram da falaram da questão publicamente antes; Tássia Reis diz, na música “Da Lama/Afrontamento”, que “pra nós a chance nunca sai do zero / Que se eu me destacar é pura sorte, jão / Se eu fugir da pobreza não escapo da depressão.” “É exatamente assim que eu me sinto”, fala a cantora Alt Niss, que também sofre com o transtorno.

“Tenho pele clara e cabelo não-crespo, então algumas coisas pra mim nunca vão bater como batem em outra irmã, mas as coisas me atingem pesadamente dentro do contexto social — mesmo que eu não sofra o racismo de forma direta na pele, eu estou inserida num contexto que é reflexo dele historicamente falando. Nunca consegui viver fora da periferia, não terminei a escola, não tenho uma formação que me dê uma outra possibilidade alem da música, que eu também não estudei”, relata. “E mesmo que isso seja a causa de várias crises, eu não diria que eu teria muita saúde emocional e mental se o problema não fosse dinheiro, porque a vida do pobre traz muitos traumas, desencadeia muitas coisas na vida de alguém.”

Mas Alt Niss encontrou no seu som uma maneira de não somente falar sobre o que estava sentindo, mas dar conforto a quem, talvez, possa precisar. “A música tem muitos poderes né, faz você tirar algo de dentro de você, faz alguém lá longe se identificar e se fortalecer. Eu quero isso pra mim e pra pessoas que se sentem como eu me sinto que me ouvem.”

Essa, no fim, é uma das razões pelas quais XXXTentacion e Lil Peep ganharam a atenção que receberam e tiveram suas mortes tão lamentadas, mesmo com tão pouco tempo de vida e fama. Durante o funeral público de XXX em junho de 2018, na Flórida, milhares de fãs comovidos apareceram para demonstrar o luto por seu assassinato. “Queríamos dizer nossas últimas palavras e mostrar nosso respeito, porque ele nos ajudou muito. Sua música era algo com que eu podia me identificar quando não havia mais nada”, disse um deles ao The New York Times.

Mas, por mais que a identificação seja um fator importante, há outras maneiras de combater os problemas de saúde mental de maneira mais saudável. “Não fuja, não desista. É você por você, procure ajuda e encontrei seu próprio ritmo”, fala Luiz. Derek completa: “Não alimente essas crises e entenda porque você está assim. A gente tem tendência a fugir das coisas, mas se você não se entender, a dor pode ser muito mais forte.”

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