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Laura Jane Grace: "A polícia e o governo ficariam felizes comigo morta"

A líder do Against Me! falou à VICE Brasil sobre ser uma transgênero num mundo conservador, ser uma punk vendida e o seu novo livro "Tranny", finalmente lançado no Brasil.

por Eduardo Ribeiro
19 Outubro 2018, 7:01pm

Laura Jane Grace, do Against Me! toca no Brasil e lança livro. Foto: Casey Curry/Divulgação

Laura Jane Grace é hoje uma das personalidades trans mais ilustres dos Estados Unidos. Embaixadora das causas de gênero, em 2015 gravou duas músicas, com Miley Cyrus e Joan Jett, no intuito de levantar fundos para a Happy Hippie Foundation, que dá apoio a jovens LGBT+ sem teto. Isso foi apenas três anos após ela ter se assumido trans, nas páginas da revista norte-americana Rolling Stone. Àquela altura, aos 32 anos, Laura era conhecida como Thomas James Gabel e já gozava de fama como vocalista e guitarrista do grupo punk Against Me!. A sua desafiadora e corajosa jornada de aceitação pessoal foi narrada no álbum Transgender Dysphoria Blues (2014), e, mais recentemente, na autobiografia Tranny: Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock, que acaba de ganhar versão em português via Powerline Books.

Lançado originalmente em 2016, com texto do nosso queridão Dan Ozzi, jornalista do Noisey US, a obra figurou na lista dos 100 Melhores Livros de Música de Todos os Tempos da Billboard. Suas páginas revelam desde detalhes da infância de Laura até a relação conturbada com o pai militar e a formação do Against Me!. A história passa pela adolescência, o início no underground e os conflitos internos e externos de assinar com uma grande gravadora. Registra também o seu casamento e o nascimento da filha, tendo sempre como pano de fundo a inquietude da disforia de gênero. Assim, o leitor tem acesso a trechos dos diários de Laura, que ilustram com verdadeira intensidade os seus mais íntimos medos e desejos.

Laura Jane Grace desembarca neste fim de semana por aqui junto com o Against Me! para o lançamento do livro e a realização de três shows: dia 19, em Curitiba, 20, em São Paulo, e 21, em Natal. Durante a passagem pelo Brasil, vai rolar de quebra apresentação do projeto paralelo Laura Jane Grace & the Devouring Mothers, cujo primeiro álbum, Brought to Rot, chega em novembro. No Rio de Janeiro, o lançamento do livro com sessão de autógrafos acontece em 22 de outubro, na Blooks Botafogo. Em São Paulo, o evento será no CCSP, dia 25.

Direto de Chicago, Laura conversou com o Noisey na semana passada por telefone sobre todas essas fitas. Se liga no papo.

VICE: Gostei da ironia no título do livro, “a mais infame e vendida anarquista do punk”.
Laura Jane Grace: Essa é a ideia central. Nós começamos muito envolvidos na cena do punk DIY, primeiro gravando nossas próprias fitas, e depois, evoluímos para os EPs de sete polegadas e começamos a trabalhar com pequenos e médios selos. Em 2005 ou 2006 nós assinamos com uma grande gravadora e, por conta disso, por um longo tempo sempre rolava essa conversa pra cima da banda sobre se éramos dignos ou não de sermos chamados de punks. Mas para mim, ser uma pessoa “vendida” significava desistir de suas esperanças e sonhos, rendendo-se a um trabalho ou qualquer coisa que você odeia. Sua alma está sendo sugada e você odeia isso. E eu sempre quis fazer música. Esse sempre foi o meu lance. Então, o sentido do termo tem mais a ver com isso.

Mas você não se culpa de ter alcançado uma prospecção que transcende o underground, já que parece claro o recurso provocativo no uso do termo “sell out” aqui...
Bem, escolhemos lidar com isso. Minha fama não é nada comparado ao que se deu com o Ramones, é errado pensar por aí, mas ter conquistado tantos fãs nos faz se sentir honrados por viver essa história. Mas você também aprende muito rápido que todas as gravadoras são iguais, apenas diferindo-se em escalas. Algumas fazem certas coisas melhor do que outras. Sou feliz porque tudo tem a ver com as pessoas envolvidas no processo. Digo, eu não gosto de fazer as coisas sozinha, sempre gostei de criar em parceria com outras pessoas, com amizades que respeito e admiro.

O que você acha da tendência ultraconservadora que vem se infiltrando no rock em geral? O Roger Waters recentemente tocou no Brasil e projetou no telão alguns nomes do neofascismo, como Bolsonaro, no Brasil, e Trump, nos Estados Unidos, e terminou vaiado. Nunca imaginei que o público de uma banda como o Pink Floyd, egressa da contracultura dos anos 1960, fosse tão tapado...
Acho que o Roger Waters fez algo similar há pouco tempo aqui nos Estados Unidos. Me lembro de ter lido algo a respeito nas manchetes, dizendo que as pessoas reagiram negativamente às imagens de Trump mostradas no telão, reações extremadas. O Pink Floyd se tornou muito, muito mainstream, embora tenham vindo da contracultura dos anos 60, mas é aquela coisa: Será que essas pessoas nunca assistiram The Wall?!

Você teme que o mundo possa estar caminhando para uma realidade totalitária anti-democrática?
Estou aterrorizada. Totalmente aterrorizada. É complicado comparar com o que já aconteceu no passado, porque na verdade me parece que estamos caminhando para algo ainda mais aterrorizante e assustador. Espero estar errada e que aconteça o melhor.

O que fazer para garantir que as liberdades individuais e os direitos conquistados pelos movimento sociais ao longo dos tempos sejam preservados?
Acho que nesse momento não se pode recuar, acredito na importância de continuar lutando, com positividade e organização. Você olha para o mundo e vê essa esmagadora tendência dos governos penderem à direita, ao mesmo tempo em que as notícias sobre mudanças climáticas e os cientistas dizendo que temos pouco tempo para reverter o problema antes que tudo se torne muito, muito ruim. E a solução não virá da parte dos governos, porque eles não dão a mínima. Daí você percebe que as coisas só vão piorando e ficando mais malucas, principalmente para alguém transgênero. Eu não confio no governo. Eu não confio na polícia. Não passa nem por um segundo pela minha cabeça que eles se importam com a minha vida ou de pessoas como eu, eles ficariam é felizes comigo morta. Então precisamos integrar a sociedade e passar a existir na gestão pública. Eu tenho total consciência disso na minha vida. Quem sabe assim surjam alguns vislumbres de esperança e as coisas comecem a melhorar. Por enquanto, parece que a situação só está ficando cada vez mais sombria.

Na adolescência, você teve problemas com vício em drogas e depressão. Você diria que, mesmo com as agruras decorrentes, ter passado por isso tudo foi substancial para o seu aprendizado?
Acho que tudo o que aconteceu foi necessário. Gostaria de não ter passado por muitas das coisas que vivi. Mas hoje consigo olhar para as coisas e perceber que foi para o bem e que aprendi bastante. É importante ser capaz de tirar um aprendizado. Mas acho que poderia ter sido por outros caminhos, não tão espinhosos. Um bom exemplo disso é que eu cresci na Itália, do outro lado do oceano, onde o limite de idade para poder beber é bem mais baixo, então era mais aceitável os jovens beberem vinho em público na adolescência. Já nos EUA o limite é de 21 anos e um jovem ficar bêbado em público é muito mais reprovável. Não faz parte da cultura. Esse tipo de ambiente nos induzia a sair pra beber escondido muito cedo. E você acaba bebendo direto e em excesso. Acho que se não tivesse crescido na Itália minha relação cultural com o álcool poderia ter sido muito diferente. Acho que viver em lugares onde essas coisas estão fáceis para serem experimentadas na adolescência são péssimas caso você demonstre tendência ao vício. Alguns lugares são mais capazes do que outros para dar amparo às pessoas com problemas, onde existe uma verdadeira comunidade em torno de você. Mas no sul da Flórida, ninguém estava nem aí. Eles não davam a mínima para o que os jovens tinham a dizer.

Como assim? Não existia nenhum programa social capaz de dar uma orientação para a juventude?
Os jovens estavam sempre passando por problemas, e muitos eram jogados num centro de detenção de menores. Muitos de meus amigos foram por esse caminho, acabaram sendo presos e nunca mais conseguiram melhorar. Eram caras na faixa dos 16 anos que fizeram escolhas estúpidas, acabaram sendo fichados e ficaram marcados pelo resto da vida. Eu mesma carrego passagem pela polícia dessa época. Poderia ser diferente, se vivêssemos numa comunidade que se importa com as pessoas. O resultado teria sido outro.

Como foi a reação dos fãs das antigas do Against Me! quando você se revelou trans naquela matéria da Rolling Stone, em 2012?
Recebi um imenso apoio. As pessoas foram muito tolerantes e realmente se esforçaram para me demonstrar que se importavam e estavam dispostas em me ajudar. Mas logo que a matéria saiu eu ficava me escondendo atrás de portas fechadas. É que me sentia muito insegura diante de toda a pressão e os holofotes. No começo, minha atitude foi de isolamento total, com a cabeça debaixo das cobertas.

O Against Me! foi formado na cidade de Gainesville, né?
Tecnicamente a banda começou em Naples, Flórida, e depois nos mudamos para Gainesville. Mais ou menos um ano depois, já estávamos a tocar fora da cidade...

A cena punk de Gainesville não parece ser muito unida, se julgarmos por aquela letra do As Friends Rust, “Half Friend Town”.
Me mudei para Gainesville em 1988-89, e, na época, o As Friends Rust e o Hot Water Music eram as duas maiores bandas da cidade. E aí rolou uma treta entre essas bandas e se estabeleceu uma verdadeira divisão. Eu era muito jovem e tinha acabado de chegar. Então não fazia parte de nenhuma das duas bancas. O Against Me! foi acontecer depois que essas bandas já estavam fazendo turnês pelo mundo e tudo o que queríamos era alcançar o mesmo nível do Hot Water Music. Víamos os caras tocando, achávamos incrível e o nosso desejo era um dia conseguir fazer o mesmo. Foi mesmo uma inspiração, mas não fazíamos parte da mesma cena porque éramos da geração seguinte.

As diferentes gerações da cidade não interagem entre si?
Gainesville é uma cidade universitária. As coisas mudam constantemente, de acordo com os novos jovens que chegam e formam seus grupos. Sempre houve uma forte cena lá por conta de quem ficou e resolveu documentar os acontecimentos, como os caras da No Idea Records e alguns estúdios, como o Cording Studio, do Rob McGregor, que sempre foi incrível e tornou acessível às bandas terem uma gravação de qualidade.

Você conhece alguma coisa do punk brasileiro?
Poxa, infelizmente não conheço muita coisa da cena punk do Brasil. Eu conheço o Cazuza. É tudo o que conheço [risos]. Mas estou a caminho com a mente totalmente aberta e a fim de descobrir tudo quanto possível. Quero tocar e dançar com os amigos. É o que eu amo. Tenho certeza que será muito divertido, estou ansiosa pelas descobertas.

O que você mais aprecia nas artes, além da música?
Eu leio constantemente, bastante. Andava inquieta uns tempos atrás por nunca ter lido American Gods, do Neil Gaiman, mas acabei de lê-lo recentemente. Outro que li há pouco foi Madonna Land, que examina a cidade de Michigan, onde a Madonna nasceu. É uma leitura muito interessante. Agora, estou no meio de um livro chamado Palaces, do Simon Jacobs. Não estou gostando muito desse livro. Até o momento achei uma leitura ok. Além de amar a leitura, também gosto de assistir filmes. Como mãe, acabo assistindo muitos filmes juvenis. Alguns desses filmes para crianças são muito legais. Gostei muito de Os Incríveis. Também gosto muito de conhecer novas músicas, tenho um grande apetite por novos sons e estou sempre pesquisando. Como viajo muito, ler e ouvir música são ótimos passatempos. Todas essas coisas acabam tendo alguma relação com a escrita também. Realmente acredito que quanto mais você lê, melhor escreve. Cada vez mais isso contribui para a sua criatividade.

O Against Me! nasceu como um projeto acústico e, agora, de certo modo você está de volta às origens, com o projeto Jane Grace & The Devouring Mothers. Fale um pouco a respeito.
Vamos lançar o primeiro álbum do Laura Jane Grace & The Devouring Mothers, Brought to Rot, no começo de novembro. Na real, só saíram duas músicas até o momento. O projeto somos eu, Marc [Jacob Hudson, produtor musical] e Atom [Willard, baterista do Against Me!].

Essa ideia já vinha rolando há uns dois, três anos, durante as primeiras sessões de promoção do livro, correto?
Tudo começou com umas apresentações de spoken word. Eu lia e interpretava algumas passagens do livro e daí tocava alguns sons numa pegada mais acústica e intimista. Com o tempo, Marc e Atom se juntaram a mim em algumas dessas sessões e viramos um trio. Foi então que pensei: “Ok, já que é assim, precisamos de um nome pra oficializar.” E pintou a ideia do Devouring Mothers. As coisas foram progredindo de forma natural e só deixamos rolar até que, este ano, o projeto ganhou solidez. As músicas do álbum foram trabalhadas entre os meses de janeiro e maio. Conseguimos gravar 14 músicas, que ficaram muito boas. Assim que sair o álbum, vamos emendar uma turnê de lançamento.

O que lhe motiva a continuar tocando em banda após 21 anos?
Eu acho que é a sensação de que você ainda pode fazer melhor, de que você ainda não fez o seu melhor. Sentir que você ainda não escreveu sua melhor música ou gravou seu melhor disco ou apresentou seu melhor show. Eu ainda tenho muito a dizer e sinto um genuíno amor pelo que faço. Eu amo música. Eu amo tocar música para meus amigos. Eu amo viajar pelo mundo com meus amigos. Eu amo compor músicas e isso sempre foi o meu maior desejo desde criança. A música me traz alegria e me dá motivação para seguir em frente.

Serviço

19/10 - Curitiba @ Jorker
Abertura: Dínamo
Horário: 21h
Endereço: R. São Francisco, 164
Censura: 18 Anos
Ingressos: A partir de R$ 70.
Pontos de Venda: Túnel do Rock, Agacê Store, Belvedere Beer Club ou no site pixelticket.com.br

20/10 - São Paulo @ Carioca Club
Abertura: Water Rats, Weedra e Mau Sangue
Horário: 16h
Endereço: Rua Cardeal Arcoverde, 2899 - Pinheiros
Ingressos: 1º lote R$ 110 (promocional/meia entrada)* - 100 ingressos
2º lote R$ 130 (promocional/meia entrada)* - 1350 ingressos
Camarote 1º lote (promocional/meia entrada)* 50 ingressos
Camarote 2º lote (promocional/meia entrada)* 100 ingressos
Censura: 16 anos
Online: clubedoingresso.com

21/10 - Natal
Preço: R$ 30 (1º lote)
Horário: 16h
Local: Rua Chile, Ribeira
Online: sympla.com.br

Sessões de autógrafos do livro Tranny: Confissões da Anarquista Mais Infame e Vendida do Punk Rock

22/10 - Rio de Janeiro @ Blooks Botafogo
19h-22h
Praia de Botafogo, 316, Botafogo
Telefone: (21) 2237–7974
blooks.com.br

25/10 - São Paulo @ CCSP
19h-21h
Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso
centrocultural.sp.gov.br
Seguido de show do novo projeto Laura Jane Grace & The Devouring Mothers (CCSP - Teatro Adoniran Barbosa 21h - R$ 40)

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