Entretenimento

O Raffa Moreira superou o meme

Entrevistamos o rapper, que agora atende por Lil Raff, sobre o que mudou em sua visão artística e impacto positivo sobre o público desde o lançamento de “Bro”.

por Amanda Cavalcanti
23 Julho 2018, 10:00am

Screenshot do clipe de "Devia ter Feito Isso Antes".

Há oito meses, em outubro de 2017, o trapstar guarulhense Raffa Moreira lançava “Bro”, hit solar que indiretamente se tornou a música do verão de um grupo muito maior do que o Raffa já tinha atingido antes. Hoje com mais de sete milhões de visualizações, “Bro” foi um ponto de virada pro rapper, que hoje atende por Lil Raff.

Ao longo dos últimos meses, Raffa vem mostrando uma evolução artística e causado um impacto mais positivo no seu público. Se o famigerado verso do rapper no "Poetas no Topo 2", que acabou sendo retirado do ar por conta de brigas e indiretas à Pineapple Supply, fez com que a frase “Raffa, pare irmão”, virasse o comentário padrão em seus novos singles, hoje a situação parece muito mais virada a seu favor.

Na última semana, Raffa lançou três singles (“Devia Ter Feito Isso Antes”, “10K”, “Rip X & Fredo Santana”) que, somados, já contam com mais de um milhão de visualizações no YouTube. Nunca antes um single do rapper teve tanto alcance em tão pouco tempo. Os comentários reúnem só elogios ao rapper: “O que aconteceu que eu tô viciado em Raffa Moreira?”, escreve alguém nos comentários de “Devia”; “Raffa, não para irmão!!!”, comenta outro em “10K”. “Acho que uma parte do público começou a entender”, diz o rapper, simplesmente, quando o pergunto por que acha que sua relação com os espectadores mudou.

Raffa conversou comigo de sua casa em Guarulhos, onde recentemente construiu um estúdio entre sua sala e cozinha, o que mudou seu modo de compôr radicalmente. “Eu tenho uns insights. Marco o clipe primeiro quando tô com roupa nova, com dinheiro, e faço a música na mesma noite. Papo reto. Mando mixar e no dia seguinte vou gravar o clipe. Umas dez músicas eu fiz assim”, fala. Depois de “Bro”, o rapper começou a pensar muito mais sobre o impacto do videoclipe no consumo de música e largou mão de ser o “mixtape mano” para lançar apenas singles e vídeos. “Tive que me reinventar, se não você cai numa mesmice. Logo mais eu vou ter que dropar um álbum, fazer outra coisa, mas eu acredito que tudo seja vídeo hoje em dia.”

Foi também esse medo da mesmice que transformou Raffa Moreira em Lil Raff — além da vontade de deixar um passado um tanto sombrio pra trás. Em músicas como “Print Na Briga”, de 2016, Raffa seguia tendências de rappers gringo de falar sobre seus próprios problemas psicológicos, vício em drogas e tentativas de suicídio. Sua mais recente faixa é uma homenagem aos rappers XXXTentacion, que foi assassinado no mês passado, e Fredo Santana, que faleceu em janeiro por conta de complicações causadas por uma convulsão devido ao uso excessivo de codeína.

Às vezes eu tô na rua, os manos pedem uma foto e você fica preocupado: será que é um mano que gosta da minha música, que sabe um verso meu, ou é só um mano que achou engraçado e depois vai postar ‘olha quem eu encontrei’?

“Eu encaro meio que como normal a parada que aconteceu com os caras, até pelo estilo de vida que eles levavam. Mas isso me influencia pra caramba, rola referência, nos aproxima deles. A morte é super triste, mas é isso que tem que ficar”, fala. A positividade também se reflete no novo pseudônimo de Raffa: “O Lil Raff é mais insano que o Raffa Moreira, tá ligado? Raffa Moreira tinha umas bad, uns problemas. Lil Raff tem dinheiro.”

O dinheiro, é claro, continua um tema forte no som do Raffa, mas talvez agora com mais fundamento do que antes. Ele fala em “10K”: “10 mil sozinho num mês / Continuo independente / Eu vim debaixo talvez / Não tinha tido minha vez”. Raffa atribui o sucesso ao alcance de “Bro”, uma faixa que ele fez usando um tipo de beat que ele compara ao estilo do produtor de Atlanta MexikoDro. “Esses beats que não são trap pesado no Brasil ficaram conhecidos como 'plug', mas na real não é bem isso. Dentro dessa sonoridade eu consegui uma faixa forte, que é a 'Bro', e isso é legal pra caralho. É a música que todo mundo canta nos shows.”

Mas não foi só o som que cativou os fãs a “Bro”. Desde antes, mas principalmente depois do lançamento do single de grande alcance, o Raffa virou sujeito principal de memes com ele e seu som, talvez mais do que qualquer outro rapper popular. “É um pouco estranho mas é bom esse bagulho dos memes. Eu acho que denota popularidade”, fala o rapper, que também já demonstrou animosidade quanto aos memes feitos com ele no Twitter. “Mas às vezes eu tô na rua, os manos pedem uma foto e você fica preocupado: será que é um mano que gosta da minha música, que sabe um verso meu, ou é só um mano que achou engraçado e depois vai postar ‘olha quem eu encontrei’? Essa é minha maior brisa, é mó ruim isso.”

Por mais que essa preocupação seja legítima, Raffa parece ter superado os memes em seus sons e clipes nos últimos meses — não como quem finge que eles não existem, mas como quem se aproveitou deles para trazer mais atenção ao seu trabalho. Se em “10K” ele faz uma referência a “Bro” (“Faz frio, faz sol / E eu de diamantes”), em “Sério”, lançada em março, ele deixou claro que, por mais tenha sido rodeado por uma cultura internética, sua carreira como rapper é autêntica.

“Sério, eu não tô preocupado com os outros / Sério, eu tô focado em ficar grande [...] Sério, eu nunca desfoquei do meu plano / Tive que discordar de alguns manos / E hoje todos eles me dão razão”, fala na música. “Deus me livre atrasar outros pretos / Ainda mais os que me deram acesso”, completa em outro momento do som. Com tretas com otakus, outros rappers e trolls em geral deixadas pra trás, Raffa agora foca em angariar cada vez mais gente pra curtir seu som.

“Eu respeito os caras”, diz, sobre colegas rappers. “Tem muito mano que me respeita também. A gente poderia se promover mais, mas não é todo mundo que quer te ajudar.” Recentemente, Raffa apareceu na mixtape nova do Diomédes Chinaski, gravou um som com Delatorvi, fez as pazes com os membros da Recayd Mob e teve uma participação anunciada numa faixa do Nocivo Shomon.

Contrariando a maioria das expectativas — talvez menos as dele mesmo — Raffa Moreira conquistou um público significativamente maior do que teve nos anos desde o início de sua carreira, em 2012, o respeito de seus colegas rappers e fez de seu império internético uma das razões para sua longa e contínua escalada ao sucesso. E o que ele tem a dizer sobre isso? “Cê é louco, eu amo rap, bro.”

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.