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Este cara é (provavelmente) o maior especialista em bolachas do Brasil

Um papo com o jovem que criou métodos quase científicos para eleger o melhor doce dos supermercados.

por Diogo Antonio Rodriguez
16 Março 2018, 3:16pm

O bolacheiro André Comodo

O pós-graduando em computação André Comodo, de 26 anos, está em busca da bolacha perfeita. Sim, aquele tipo de bolacha: o doce que vemos estocados nos supermercados em embalagens metálicas e coloridas.

Até aí, tudo bem, outros jovens e futuros diabéticos fazem o mesmo. O que diferencia Comodo é que ele desenvolveu um método quase científico para avaliar os quitutes de chocolate, morango, doce de leite e o que mais couber.

Fã das recheadas desde a infância, ele passou a, em 2014, fazer reviews de bolachas com critérios de fazer inveja aos sommeliers profissionais. Botou fórmulas, anotou nuances e descreveu todo o processo de apreciação das redondas. Os amigos curtiram e ele então deu um passo pouco mais sério: criou a página BolachaStone, hoje com mais de 10 mil curtidas, onde tenta explicar para o mundo um pouco mais de sua hiperglicêmica obsessão.

Os critérios de avaliação são: sabor, crocância, recheio, proporção entre recheio e bolachas, e qualidade do design da embalagem. A lista foi criada com base na sua larga experiência de apreciador. O nível de exigência, diz, é alto. "Avalio também abertura do pacote (ninguém merece comprar uma bolacha e levar uma eternidade pra conseguir comer a primeira), quantidade de bolachas com biscoito invertido (nem sempre aplicável, é algo que parece bobo, mas há um prazer maior em comer uma bolacha certinha), e o quanto a bolacha fica melhor na proporção 1:2:1", conta, ao Motherboard.

A proporção é assunto sério para o avaliador. Ele chegou até a fazer um vídeo para mostrar como funciona: abre-se duas bolachas para juntar as partes com recheios. "Há bolachas que, ao dobrar o recheio, ficam muito mais saborosas", resume.

A cereja do bolo (ou o recheio do biscoito?) é o chamado Índice grama-Passatempo (IgP), criado por Comodo. O indicador, explica, "mostra o quão melhor (ou pior) em termos de custo-benefício uma bolacha é quando comparada com a Passatempo".

E por que essa bolacha em especial? "Considero a Passatempo uma bolacha de referência, pois é uma que está presente há muitos anos e o preço tem variado pouco", diz. O cálculo não é simples. "Neste índice, considero o preço das bolachas e o peso dos pacotes; é importante notar que a qualidade da bolacha em termos de sabor não entram nesta conta. Se o IgP for maior que 1, a bolacha é mais cara e/ou vem menos do que a Passatempo e vice-versa. Portanto, quanto menor o IgP, melhor!"

Pergunto a ele se sua busca um dia parará. Será que existe o Santo Graal das bolachas? A perfeição recheada é possível? Ele não demora a responder. "A minha favorita de todos os tempos aqui do Brasil é a Chocolícia, foi o meu primeiro review", diz. "Sempre amei essa bolacha porque ela tem uma crocância perfeita, recheio saboroso e bem servido", elogia. Como todo bom crítico, porém, Comodo faz uma ressalva: "O problema é que é uma bolacha bem cara, variando aí de 4 a 5 reais".

Chocolícia é uma rara exceção no cenário nacional, todavia. Para ele, a qualidade dos doces nacionais deixa muito a desejar. "A maioria das bolachas brasileiras, apesar de razoáveis, nem se comparam a bolachas de outros países, principalmente porque as empresas tentam reduzir ao máximo os custos de produção, muitas vezes criando bolachas em que o recheio é praticamente açúcar, corante e um pouco de chocolate", critica.

Exemplo de review gringo: Knoppers, uma de suas favoritas. Crédito: Facebook/ Reprodução

É claro que existe uma favorita gringa. Na verdade, são duas. Uma é a Knoppers, marca alemã. A segunda se chama Hanuta, "um wafer com um recheio bem servido com creme de avelã. Essas duas, junto com a Chocolícia, são as minhas favoritas".

A intenção dele é, no futuro, avaliar mais bolachas gringas. O difícil, afirma, é arranjar tempo para o exaustivo trabalho de medição dos doces. "Por enquanto a página ainda segue como um hobby" afirma . "Nunca tive intenções de monetizar a página, inclusive nunca paguei ao Facebook para impulsionar. No momento eu pretendo continuar do jeito que está". Em seus planos está fazer vídeos de avaliação dos doces. Talvez Comodo possa até criar uma nova categoria: a de "desempacotamento".

Já que Comodo talvez seja a principal autoridade em bolachas do país, questiono sua posição a respeito de uma das mais célebres polêmicas nacionais: o certo é falar bolacha ou biscoito?

"Essa pergunta é sempre motivo de brigas nos comentários do reviews, inclusive já recebi vários inboxes de pessoas indignadas que a página chama-se BolachaStone e não BiscoitoStone", revela. Tudo bem, mas qual é o certo? "Sou um defensor da paz, portanto por mim ela deve ser chamada como as pessoas se sentirem melhor."

Embora sua resposta seja pacífica, Comodo faz uma avaliação técnica: "Se formos olhar no lado mais formal, uma bolacha é a mesma coisa que biscoito recheado: dois biscoitos e um recheio". "Muitas pessoas me enviam fotos do pacote dizendo 'olha, está escrito biscoito!', mas essas pessoas falham em ver que, na verdade, está escrito 'biscoito recheado', inclusive existe uma análise de etimologia na página justamente discutindo sobre esse assunto. Só pra finalizar, em escala federal, a ANVISA define que tanto bolacha quanto biscoito são termos equivalentes." O importante, então, é ser feliz com boas bolachas.

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