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Falamos com a senhora de 86 anos que pichou 'Dinheiro para Armas mata!' no Banco Nacional Suíço

“Deu tudo certo. Depois dei um passeio pela cidade na viatura da polícia.”

por Philippe Stalder
24 Abril 2017, 11:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Alpes .

A Suíça tem orgulho de sua neutralidade. Mas isso não impede o país de exportar anualmente material bélico no valor de bilhões de dólares — para países como Arábia Saudita, Catar, Jordânia ou Irã, que desrespeitam abertamente os direitos humanos e estão envolvidos direta e indiretamente em guerras. Em 2015, empresas suíças exportaram material bélico no valor de 446,6 milhões de francos suíços para 71 países.

O Banco Nacional Suíço e várias outras fundações e fundos de pensão também estão envolvidos no negócio das armas na forma de ações e empréstimos. Para denunciar isso, a pacifista de 86 anos Louise Schneider se levantou na manhã do último dia 6 de abril e pichou "Dinheiro para Armas Mata!" em vermelho no tapume do Banco Nacional Suíço — na esteira do lançamento da iniciativa de negócios de guerra, uma ação do Grupo pela Suíça sem um Exército (Gruppe für eine Schweiz ohne Armee – GsoA). A iniciativa quer proibir investidores suíços de se envolver com a indústria de armas. Visitamos Louise Schneider em sua casa em Köniz, perto de Berna, para saber mais sobre a razão do seu pixo:

VICE: Você pixou "Dinheiro para Armas Mata!" na parede do Banco Nacional Suíço. Qual foi a motivação por trás dessa ação?
Louise Schneider: Minha motivação é construir a paz. Estou convencida de que cada arma neste planeta é demais. Todo franco que é canalizado para o negócio de armas contribui para o mal no mundo. Não aceito que o Banco Nacional Suíço invista na indústria de armas e lucre com isso. Armas suíças estão em circulação no mundo todo. Se você conseguir me explicar o que isso tem a ver com neutralidade, você é um artista. Mas tenho que perguntar de novo, para qual jornal você veio aqui?

Para a VICE.
Qual?!

V.I.C.E — é um veículo para jovens.
Ah, então você tem que mostrar a imagem maior e juntar os pontos, para os jovens entenderem o conceito. O problema da mídia é que vocês muitas vezes só relatam em categorias esparsas, sem ligar as coisas. Não há nada que não esteja conectado. Fome está ligada ao dinheiro, armas estão ligadas ao dinheiro. O dinheiro concede poder. Você tem que ser muito consistente aqui. Você não pode falar simplesmente de um fuzil. Tem que haver um debate sobre princípios. Essa é a minha visão.

Você ficou feliz com sua ação?
Muito feliz, deu tudo certo. Depois dei um passeio pela cidade numa viatura, enquanto os outros ativistas coletavam assinaturas. Foi ótimo.

Você foi formalmente acusada de alguma coisa?
Não, eles só me tiraram da cena. Mas entrei naquele carro com o coração leve. Afinal de contas, era minha intenção que eles me afastassem. No começo parecia que eles não iam me levar, só quando o chefe chegou ele disse aos mais jovens para me colocar na viatura. Mas os policiais foram muito simpáticos. Eles me trataram como uma avó.

Os jovens muitas vezes são acusados de serem despolitizados ou de não se envolver com suas comunidades. Você só pixou o Banco Nacional porque ninguém mais pixaria?
Não, pelo contrário. Só pixei o Banco porque naquele mesmo muro eles apagaram uma pixação que dizia "Nenhum Humano é Ilegal". Provavelmente era o trabalho de uma geração mais jovem, apesar de que poderia até ser meu [ risos]. A parede nova era completamente branca. Estava vazia demais. Eu não conseguia aceitar que os banqueiros tinham apagado as preocupações das outras pessoas.

Desde quando você é uma ativista pela paz?
Quando tinha oito anos de idade, testemunhei a guerra no auge — eu tinha muito medo. Muita política entrava na nossa mesa. Quando era criança, ouvi os discursos de Hitler no rádio e vi o medo com que os adultos reagiam aos gritos dele. Aí meu pai foi recrutado contra sua vontade. Naquela época, se você tentava fugir do serviço militar eles atiravam em você. Me vi pega nisso quando era criança. Minha professora dizia que eu me preocupava demais com as coisas. Mas considerando a minha experiência, estava claro para mim desde cedo que o mundo precisava de paz. Meu pai me ensinou "Cada ação gera uma reação", em qualquer forma que seja. Essa filosofia me acompanha por toda a vida.

Como o papel da Suíça no negócio internacional de armas mudou com o tempo?
Depois da guerra, fomos mais inteligentes por um curto período. Reconhecemos o mal trazido pela guerra. No pós-guerra, o pacifismo tomou a forma de um movimento organizado. Os socialistas religiosos, que ainda estão por aí hoje, vêm daquela era. Karl Barth, você conhece?

Não, deveria?
Aí está, a pergunta eterna. Esse cara nem sabe quem Karl Barth é! Ou Kurt Marti. Eles eram homens altamente intelectuais que trabalharam para construir a paz e contra o negócio de armas. E era um trabalho duro, não só ficar sentado em casa esperando algo engraçado acontecer. Você sabe quanto trabalho deu para revelar que o fundo de pensão suíço investia nosso dinheiro na fabricação de armas?

Você falou sobre socialistas religiosos. Qual o papel da religião na sua vida? Você vê a luta pela paz como uma obrigação cristã?
Não, não uma obrigação. Tem um livro chamado o Evangelho. É um dos livros mais revolucionários do mundo. Nele está o Sermão da Montanha, que diz que os fracos serão os primeiros, e o primeiro será o mais fraco. Isso está de acordo com a minha opinião. Mas não sou uma cristã pregadora. Não acho que Jesus sangrou até a morte para nos salvar. Mas há uma ordem que segue seu curso e que um dia estará completa. E nessa ordem, tenho meu propósito que devo cumprir. Estou nessa com toda minha fé, todas as minhas forças, meu tempo, meu sangue, suor e lágrimas.

E por isso você foi ao Banco Nacional naquele dia?
Exatamente. Meu protesto era ir para esse endereço e mostrar a eles que o dinheiro suíço não pertence à produção de armas.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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