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Noisey

Cleiton Rasta, o DJ que faz a galera debochar legal

Como um moleque humilde de cabelo de cuia transformou os melôs alagoanos na salvação da internet.

por João Paulo Vicente
27 Setembro 2016, 2:00pm

O Moreninho de Cajueiro, a Celebridade do Povão, o Cabeça de Gelo, chama chama chama como quiser porque não tem mais volta não: o DJ Cleiton Rasta já chegou. Com show marcado no festival Coquetel Molotov, em Recife, DJ set em São Paulo em outubro, e a promessa de transformar a Perde a Linha na viagem dos sonhos dos reggaeiro brasiliense em dezembro, Cleiton é o exemplo 1+1 da capacidade infinita da internet de engolir algo que é estranho para si, tirar uma onda, tacar ironia em cima para curtir e então deixar de lado pela excentricidade nova da vez. Mas com uma mistura de simpatia inocente e charme natural, o cara debochou legal dessa última parte e se mantém firme e forte mandando um salve geral para a galera do Face.

Toda essa viagem começou em 2014, com a "1ª Gravação do DVD Dose Dupla de Cajueiro Edivaldo Pedra e Cleiton Rasta no Povoado de Santo Antônio em Atalaia". Como o nome explica em detalhes, foi o primeiro registro em vídeo de Cleiton tocando, feito no distrito de Santo Antônio, em Atalaia, uma cidadezinha de pouco mais de 40 mil habitantes, gigante ao lado da vizinha Cajueiro, onde o DJ nasceu, que não chega a metade disso. O diretor do DVD, Sergynho Rasta, subiu a parada no YouTube e a história estava feita. De cara, os efeitos toscos de edição e visual simples da galera fizeram uma meia dúzia de blogs de humor™ postarem os vídeos para seus leitores sedentos pela chance de falar mal de alguém diferente.

No começo, o sucesso infame pegou mal. "Eu ficava com muita raiva", diz Cleiton. "Os cara comentava que era o fim do mundo, que o povo era feio, que todo mundo se vestia igual, que quem ia para essa festa era roubado, tá entendendo? Eu dizia, grande coisa que aqui é Alagoas e interior, dizia grande BOSTA que você mora no Rio de Janeiro ou em São Paulo, você vai morrer do mesmo jeito um dia, tá entendendo?", conta, sempre reforçando cada afirmação com "tá entendendo?". "Aí um dia um colega meu que eu conversava bastante disse 'Cleiton, ligue não. Você é um artista, tem gente que gosta e tem gente que não gosta'. Eu pensei 'É mermo né velho', e comecei a ligar mais para quem tava gostando."

Mesmo antes disso, o DJ já tinha o hábito de mandar um salve para os fãs no Facebook. Começou como algo natural — ele ia tocar em algum lugar e alguém pedia para Cleiton mandar um alô na sua página. Depois, os pedidos vinham por mensagem. Então, uma galera que já nem era mais de Alagoas começou a querer ser salva. "A página foi feita só para por foto e dizer onde eu vou tocar, mas tem bastante gente que gosta de conversar e fica pedindo salve e eu gosto de responder todo mundo", diz ele. É quase sempre o mesmo texto, com pequenas variações: um salve para fulaninho ou cicraninha, se der sorte tem um "debochando legal" no meio, e acaba com 'é tudo nosso abração". Um lance simples, repetido ad infinitum e despretensioso, mas que virou garantia de alegria e motivo de orgulho para a galera que recebe. "Tem dia que tem 600 pessoas pedindo, minha cabeça chega dói de ficar mandando tanto salve", conta ele.

Na real, Cleiton não chama Cleiton, mas José Aletácio da Silva. Nasceu em 1988 e demorou para se envolver com a música. "Eu comecei tarde. Até uns 18 anos eu gostava de futebol só. Aí eu comecei a sair, ir nos reggae, ver uns DJs de Maceió como Thupa, Boca e Cebola Rasta que vinham tocar em Cajueiro", fala. Foi desse último que ele pegou o rasta. O Cleiton veio de um amigo, o Jaminho. "Toda vez que a gente ia conhecer alguém, nunca falava o nome verdadeiro. Aí um dia nós tava lá para baixo e o Jaminho quis falar com umas meninas. Ele disse 'Meu nome é Caíque e esse é meu amigo Cleiton. Aí ficou: Cleiton Rasta."

Além do nome, Cleiton também ficou com vontade de trocar de lugar com os caras que comandavam a festa. A história é parecida, não importa se você esteja em Chicago, Ibiza ou Cajueiro: tem gente que olha para a pista, tem gente que olha para a cabine do DJ — mesmo que ela seja só um laptop velho apoiado em cima de uma mesa de plástico. Para transformar a ideia em realidade, perguntou para um chegado que era DJ como se tornar um. Ouviu em resposta que o primeiro de tudo era gravar um CD. Pagou R$ 140: R$ 90 para o cara editar no Soundforge seleção de músicas que havia feito e R$ 40 para um locutor rechear o disco com assinaturas suas. Voltou para casa com um único CD-R que fez as vezes de master do "DJ Cleiton Rasta Vol. 1". Isso foi em 2010. Hoje a série está no Vol. 45.

A grande base do som dessa cena de DJs de reggae alagoanos é o reggae melódico e arrastado, característica do Maranhão, o famoso melô. No entanto, enquanto no estado mais ao norte o estilo se desenvolveu com certo profissionalismo, com soundsystens que funcionam como verdadeiras indústrias adaptando e regravando canções jamaicanas e caribenhas, em Alagoas o que comanda é o desapego ao conceito de autoria. Os CDs são como mixtapes, só que ao invés da ênfase na capacidade do autor de picotar trechos de sons e enfiar músicas suas para criar algo novo, a lei é encadear várias faixas já conhecidas sem citar os cantores e bandas e rechear o disco com vinhetas para garantir que o público associe tudo ao DJ. Não há má fé nisso, só é assim que é.

"Às vezes tem uma vinheta de 15 em 15 segundos, só para garantir que outro DJ não recorte a seleção de músicas e use no seu CD", explica Ari de Oliveira, o Ari Consciência. Militante negro e decano do reggae em Alagoas, Ari estranhou as perguntas sobre Cleiton. "Cara, ele é um menino de Cajueiro que não faz sucesso nos bailes aqui de Maceió", disse, enquanto citava duas dezenas de DJs maceioenses que considera mais relevantes. Faz sentido, enquanto Cleiton surge como novidade para o resto do Brasil, o tipo de festa em que fez escola é comum nas periferias alagoanas desde os anos 90, com os DJs mais preocupados em agir como MCs do que com a seleção das músicas propriamente dita.

Para Ari, além do perigo jurídico que essa cena corre ao ignorar amplamente qualquer questão de direitos autorais, o grande problema é dissociar a música de qualquer consciência política. "O movimento não se assume como negro. Eles se apropriam das músicas, e isso não é só o Cleiton, mas não estudam a história por trás daquilo, de onde vem e o que significa", afirma ele. "O Cleiton mesmo ficou conhecido com essa música "Cabeça de Gelo". Mas essa música não é dele, é de um garoto de Fortaleza chamado Shalom Israel que estourou na periferia em 2012."

Além do "tá entendendo?", Cleiton também usa "praticamente" no meio de quase todas as frases que fala. É assim que ele explica como monta seus discos: "É praticamente tudo misturado. Baixo músicas do YouTube ou ouça o disco inteiro de alguma banda ou cantor, escolha as músicas que gosto mais, o que dá para lançar e o reggaeiro dançar", diz. "Olhos Verdes", outra que estourou com o DVD gravado em Atalaia, é da banda alagoana Vibrações. Já quando a música não é em português, ganha um título novo à altura. A cúmbaa "Quiero um Pikito" do New One, por exemplo, vira o "Ragga do Prikito". Pikito é tipo selinho em espanhol. Prikito acho que vocês manjam o que é.

(O último disco do Cleiton também tem uma música chamada Ary Consciência, assim mesmo, com y. O Shazam me ajudou a identificá-la, chama "Spyrow", do Yessouffè. No ano passado ele já havia lançado outro som batizado de Ary Consciência — daquela vez tratava-se de "Treat You Right", do Sierra Leone's Refugee All Stars.)

De Alagoas para o mundo

Depois que voltou com o primeiro disco para casa, Cleiton montou um esquema caseiro de prensagem. Danou-se rodar pelo interior de Alagoas e distribuir CDs em todas as cidadezinhas que tocava. Quando o seu nome já não era mais desconhecido, começou a entregá-los para banquinhas venderem. "Naquela época o CD custava R$ 5 e o DVD, R$ 10. Hoje sai tudo por R$ 2, então o objetivo praticamente é só divulgar mesmo", conta. Quase todas as músicas do cara, ou pelo menos com suas vinhetas, estão em suas duas páginas no palcoMP3: djcleitonrastaaovivo e dj_cleitonrasta.

Após estourar na internet, ele já deu seus primeiros pulos para fora do estado natal, com shows no interior de Pernambuco, Recife e Natal. Prestes a descer até o eixo pela primeira vez, Cleiton explica de qualé a do Cabeça de Gelo: "Reggae é muito discriminado. Muita festa nem termina por causa de briga. Então a gente diz que o cara tem que ser cabeça de gelo, saber fumar e ficar numa boa. Curtir a festa na paz, sem arengar, tá entendendo?", diz o cara que tem a manha de mandar um salve para a Mancha Azul e logo depois um para a Comando Vermelho, torcidas organizadas respectivamente do CSA e CRB, dois maiores times de Alagoas e donas de uma rivalidade violenta.

E para a galera que anda ansiosa por um salve do DJ Cleiton Rasta, um aviso. Como anda na moda no Brasilzão, a página dele no Facebook também sofreu um coup d'état. Ele tem uma nova e pediu para o seguirem por lá. Bora Cleiton!

Fya Sound encontra DJ Cleiton Rasta
7/10, @ Quadra Do Bloco Caprichosos Do Piqueri, São Paulo; às 22h
Ingressos a R$20 aqui.

Coquetel Molotov
22/10, @ Coudelaria Souza Leão, Recife; às 13h
Ingressos a R$70 aqui.

ATUALIZAÇÃO 3/10/2016 13h30: Uma semana após a publicação dessa reportagem, Lucas Alves, que se identifica como empresário da agência de casting Somus, pediu para corrigirmos a autoria de Cabeça de Gelo. Segundo Lucas, o autor da música é o "Sr. Luiz Carlos Alves da Silva da Bahia" - ele enviou um registro do cadastro no Clube dos Compositores do Brasil datado de janeiro de 2016 para comprovar essa afirmação. A Somus é a empresa que assumiu a antiga fã page do Cleiton Rasta. Ainda de acordo com Lucas, Cleiton passou a página de vontade própria para a Somus.

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