VICE Sports

A revolução virá das arquibancadas

Acompanhamos o protesto dos Gaviões da Fiel contra Fernando Capez, Rede Globo, CBF, FPF...

por Peu Araújo
19 Fevereiro 2016, 6:01pm

Se você já foi a um estádio de futebol, provavelmente já presenciou o barulho e a energia agressiva das torcidas organizadas. Se você se informa sobre as arquibancadas pelos jornalões convencionais já se acostumou a criminalizá-las.

Uma coisa que precisa ficar clara para entender os parágrafos a seguir: as torcidas são muito mais complexas do que esse maniqueísmo. Não, não é só um bando de bandidos reunidos e também não é um bonde dos bonzinhos. "Se você vier aqui atrás de briga, você vai encontrar meia dúzia de cabeça de bagre que tá atrás da mesma coisa, mas a torcida é muito mais do que isso", explica Wildner Rocha, o Pulguinha, ex-presidente da torcida e liderança histórica dos Gaviões.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Na última semana, muito tem se falado sobre a torcida do Corinthians. Os protestos no Campeonato Paulista começaram na partida contra o Capivariano, na quinta-feira (11). Faixas com mensagens como "Rede Globo, o Corinthians não é seu quintal" e "Cadê a$ conta$ do e$tádio" foram abertas no meio da arquibancada da Arena Corinthians e repreendidas pela Polícia Militar, que se pauta numa cláusula interpretativa do Estatuto do Torcedor:

Segundo o Art. 13-IX, é proibido "portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo". Parece que é proibido protestar pelas ruas e também nas arquibancadas de São Paulo. Bom, até onde sabemos, ainda não é ofensivo questionar a administração de um clube ou se mostrar contra uma emissora da televisão.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Um dos representantes dos Gaviões nas reuniões com o Batalhão do Choque antes das partidas, o diretor da torcida, Cristiano de Moraes Souza, afirma que ninguém assumiu a autoria da repressão policial. "Eles [os policiais] disseram que a ordem veio da Federação Paulista e do próprio clube. Eu questionei o Corinthians sobre isso, e disseram que não foi o clube. A Federação não se pronunciou. A gente vive assim: a polícia fala que um mandou, vai lá e faz."

No clássico contra o São Paulo, também em Itaquera, no domingo (14), outras faixas foram erguidas no meio dos Gaviões da Fiel: "CBF, FPF a vergonha do futebol", "Ingresso mais barato", "Futebol refém da Rede Globo" e "Quem vai punir o ladrão de merendas?". As mensagens ganharam repercussão e o que era uma questão urgente para os torcedores virou um protesto organizado e consciente.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Nesta quinta-feira (18), depois da chuva torrencial do meio da tarde, os Gaviões começaram a aparecer na quadra da torcida, no bairro do Bom Retiro. com um objetivo simples: colar na frente da Federação Paulista e fazer muito barulho.

Às 19h30, centenas de torcedores vestindo preto e branco ocuparam um dos sentidos da Avenida Sérgio Tomás. Se compararmos essa ação com uma manifestação do Movimento Passe Livre, por exemplo, podemos ver uma evolução estratégica e uma energia muito mais combativa. Você pode até pensar que são coisas muito distintas, porém, se a torcida decide protestar por questões extracampo, qual a diferença?

Foto: Felipe Larozza/VICE

Antes da saída da quadra, Fabricio Pouseu, um dos diretores, faz uma espécie de preleção pedindo para que os torcedores não percam tempo com torcedores adversários — nas imediações da FPF, há sedes de torcidas do Palmeiras — e exigedisciplina no trajeto. "Vai ter polícia lá, mano. Qualquer problema liga nóis. Vamo todo mundo junto, sem dispersar. Vão ser 50 minutos gritando lá na porta."

Uma salva de palmas marca o início da marcha, que segue a passos rápidos e firmes, sempre muito bem compactada. A bateria, muito bem tocada, dita o ritmo das músicas e todo mundo canta, entre outros hinos, "Ladrão, devolve o futebol do povão" e "Eu não roubo merenda, eu não sou deputado. Trabalho todo dia, não roubo meu Estado." Três bandeirões flamulam ininterruptamente.

Foto: Felipe Larozza/VICE

A impressão que dá é a de que se tem muito mais gente. Os rojões, atirados a todo tempo, deixam o clima mais bélico, assim como as caras fechadas de boa parte dos torcedores. Sinalizadores com fumaça preta e outras pirotecnias começam a aumentar à medida que o bonde se aproxima da FPF. Nas imediações, duas viaturas da PM e alguns policiais do Choque esperam os torcedores.

A massa se concentra em frente à porta principal da instituição, e o primeiro rojão é atirado na janela do último andar, mas logo é repreendido pela diretoria da torcida. Outros de 12 tiros estouram no céu, além de muitos gritos contra a FPF, CBF, Rede Globo e o inimigo número um das organizadas, Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e Deputado Estadual pelo PSDB. Todas as pautas são questionáveis. "Nós temos propriedades pra questionar todas elas. Todas elas são de propriedade do nosso associado, do torcedor, do cara que tá na arquibancada", explica Pulguinha.

Foto: Felipe Larozza/VICE

As pautas são muitas e algumas vezes confusas, embora a maioria delas deseje a melhoria do futebol e das torcidas, independentemente do time.

A treta com a Rede Globo questiona o horário dos jogos de meio de semana. Por causa da programação da emissora, as partidas começam às 22h e acabam por volta de meia-noite. Nesse horário, muitos torcedores ficam sem ter como voltar para casa ou demoram horas para realizar o trajeto. "Jogo às dez horas da noite não dá mais. Isso não é uma briga só do corinthiano, não é uma briga só dos Gaviões. Isso tem que ser uma briga aberta, tem que ser uma briga de todas as torcidas do país. Pô, não dá mais. O pessoal acorda às cinco horas da manhã. Você sai do jogo meia-noite e não tem condução pra chegar em casa. Não tem mais condição disso", comenta Fabricio.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Contra a Federação Paulista de Futebol o conflito é em relação às proibições de sinalizadores e bandeiras e ao valor do ingresso. Os próximos dois jogos da equipe custarão mais de 100 reais no setor mais "popular."

Capez se entrincheirou contra as torcidas há mais de 20 anos. Em 1995 conseguiu extinguir a Torcida Independente, do São Paulo, e a Mancha Verde, do Palmeiras. Ambas mudaram minimamente os nomes e continuam ativas.

Foto: Felipe Larozza/VICE

A bronca dos corinthianos, e de outros torcedores, é porque o deputado pretendia, à época, punir as instituições por ações de indivíduos. "A liderança da época quando falava que não podia se responsabilizar pelos 50, 60 mil sócios ele generalizava. Agora ele tem 10, 15 assessores, sei lá, e ele não pode se responsabilizar?", questiona o diretor dos Gaviões Fabricio Pouseu em referência ao escândalo de desvio de dinheiro das merendas escolares nas escolas estaduais em que o Capez é citado. Procurado pela reportagem, o deputado se prestou apenas a mandar uma nota oficial em que nega participação no caso de corrupção.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Ninguém deu as caras na FPF, que já estava com os portões fechados, mas, por uma hora, gritos, bandeiras, faixas, rojões, sinalizadores chamavam a atenção do prédio inerte. Apenas dois seguranças, imóveis, acompanhavam o espetáculo do lado de dentro das grades, e enquanto menos de uma dúzia de policiais do Choque com escudos fechavam a pequena rua, provavelmente preocupados com o trânsito.

Foto: Felipe Larozza/VICE

O protesto da torcida do Corinthians colocou sob holofote algumas questões pertinentes para quem frequenta estádio e gosta do esporte, sem clubismo. Esse levante é, além de tudo, um convite para que outras organizadas se manifestem e questionem essas "verdades absolutas", podendo ser o início de algo muito maior. O futebol brasileiro está afogado em corrupção e falcatrua há muitos anos e as arquibancadas estavam em silêncio. Esse tempo acabou.