Relembrando o Hipster

Por dentro do mundo da literatura erótica hipster

O compêndio em nove volumes transforma todo estereótipo hipster em oportunidade para um bacanal.

por Arielle Pardes
18 Dezembro 2015, 6:11pm

Todas as fotos são cortesia de Hannah Wilde.

Desde que o mundo alcançou o Auge Hipster, já passou tempo suficiente para podermos olhar para trás e enxergá-lo como um movimento, uma febre ou um meme, ou que porra tenha sido, e tentar fazer um balanço para entender o que significou, se é que é possível. Então é exatamente isso que vamos fazer com umapequena coletânea de matérias.

Na maioria das atividades artísticas, é impossível declarar objetivamente que uma pessoa é "a melhor" no que faz. Quem poderia dizer que Van Gogh é superior a Monet, ou que o Zayn é mais gato que o Justin? Há, no entanto, uma campeã inigualável no gênero da literatura erótica hipster. O nome dela é Hannah Wilde, criadora do The Complete Hipster Gangbangs (agora disponível também em audiolivro, caso essa seja a sua praia).

O compêndio em nove volumes transforma todo estereótipo hipster em oportunidade para um bacanal: tem a história da Amy, barista hispter que faz uma orgia na cafeteria; da Danielle, a hipster gótica que leva pica de dez homens de uma vez; da Lauren, gamer hipster que "se vê no meio de um jogo multiplayer mais tórrido do que jamais poderia imaginar" e muito, muito mais. Até onde sei, não existe outra coleção de erótica hipster tão abrangente.

Quem é Hannah Wilde, fiquei pensando, e como é que ela sabe tanto sobre sexo hipster? Será que ela escreveu com base na própria experiência ou eram apenas fantasias habituais? Será que ela era uma hipster mais para estudante de artes ou, digamos, o tipo que fica vagando por festivais de música com penas na cabeça? Consegui encontrá-la e, para minha surpresa, Hannah Wilde não é muito hipster, não – apenas uma escritora e empreendedora do ramo erótico de Los Angeles que começou a criar livros que vendiam bem. Conversei com ela sobre a origem da série, como ela desenvolveu os personagens para além de estereótipos superficiais e por que um livro erótico hipster só não seria o suficiente.

VICE: Você tem nove livros da série The Complete Hipster Gangbangs. Por que o foco nos hipsters?
Hannah Wilde:Eu estava tentando achar um diferencial para me destacar do resto, [e isso era] uma coisa que eu pessoalmente achava sexy e ainda não tinha sido feita à exaustão. Também queria focar no público mais novo, universitário, não no mercado da dona de casa que normalmente devora esse tipo de literatura do cara sem camisa em cima do cavalo. E os hipsters faziam sentido.

Eu também sabia que queria fazer uma série de livros, porque sempre gostei de coisas colecionáveis e imaginei que meu público também deveria gostar. Lembro que, mais nova, eu era obcecada pelos livros da série Goosebumps, ia na livraria e sempre comprava o novo que saía porque gostava do jeito que todo o grupo ficava na minha prateleira. O motivo pelo qual a coisa da coleção interessa é porque existem muitos tipos diferentes de hipsters. Foi muito fofo tentar criar diferentes subcategorias que eu conseguisse imaginar e de alguma forma transformá-las em orgia: gangbang no festival de música, gangbang barista no café, gamers mandando ver na menina que joga... É um poço sem fundo. Só de pensar nisso agora, fico um pouco chateada por só ter nove livros na série.

Se você fosse escrever um décimo livro, sobre que tipo de hipster seria?
Pensei em fazer um sobre um estúdio de tatuagem. Além disso, apesar de ter um livro sobre gamers, nunca consegui desenvolver o tipo programador – tipo, computadores no lugar de consoles ou algum tipo de elemento hacker. Também pensei num livro punk, já que minha definição de hipster essencialmente era contracultura, mas imagino que outras ideias se desenrolem mais rápido.

Como você decidiu sobre que hipsters escrever?
Para ser sincera, às vezes os que foram escolhidos dependiam de eu encontrar uma foto boa de capa que funcionasse para uma ideia e não para outra. O Yoga Hipster Gangbang meio que rolou assim. Eu tinha a ideia, mas a coisa se desenrolou quando encontrei uma foto ótima de uma menina para a capa.

Além disso, o conto erótico é muito mais voltado para a ação do que qualquer outra coisa. Você tem basicamente 5 mil palavras para chegar, mandar ver e cair fora, então tem uma grande questão de estereotipar tudo. Acho que isso se aplica à pornografia em geral: você pega uma persona ou fantasia e extrapola os elementos para proporções sexualizadas épicas. Em geral, a voz dos personagens é a minha mesmo, e tem um sarcasmo natural e uma juventude nisso, e acho que isso se encaixa bem na estética hipster. Talvez sejam todos diferentes aspectos da minha própria personalidade.

Tem algum elemento autobiográfico nos livros? Você se identifica como hipster?
Acho que depende da sua definição de hipster. Se você pincela as coisas de maneira genérica e busca diferentes tipos de persona da contracultura, com certeza eu acabo me encaixando nisso de alguma forma. Mas se você está falando do hipster tradicional que anda de bike fixa em Portland e vai no festival de filme do Wes Anderson, aí não é muito a minha cara. O primeiro livro, Graduate Hipster Gangbang, na verdade é muito mais autobiográfico do que deveria ser. [Nota da edição: Graduate Hipster Gangbang é sobre uma menina de 19 anos chamada Hannah que faz uma orgia com o time de futebol americano inteiro.] Mas até hoje, ninguém envolvido nesses eventos relacionou com esse pseudônimo, então parece que meu anonimato está a salvo por enquanto.

"A maioria das pessoas prefere olhar um cara ou uma mina e ver tatuagens e já pensar 'Eu me identifico' do que ter uma introdução de 20 minutos em que a atriz ou o ator pornô fala sobre como adora Jack Kerouac."

O que torna o "sexo hipster" diferente, digamos, da literatura erótica que você faz sobre personagens paranormais?
A literatura erótica paranormal que escrevo tem muito mais a ver com a ação do que qualquer outra coisa. As histórias são curtas e precisam se desenvolver porque normalmente tem algum tipo de monstro ou aspecto de aventura que não tem a ver com sexo. Tem muito mais coisa para fazer acontecer em cada página. A erótica hipster tem mais a ver com o clima e, principalmente, criar um diálogo que seja jovem e divertido. Se alguém lê um dos meus livros da série Hipster Gangbang, é porque quer ouvir sobre as bandas que os caras e as minas gostam, ou que tipo de gracejo sarcástico o personagem pode fazer quando colocado em uma situação pornográfica absurda. Tem muita comédia nos livros do Hipster Gangbang que vem diretamente de fazer os personagens reagirem da forma que eu mesma reagiria nessas situações sexuais exageradas.

Parece que você se concentra muito no desenvolvimento dos personagens hipsters. O que você acha de filme pornô com temática hipster, que é basicamente pornografia mainstream com óculos de armação preta?
Pessoalmente, não me incomoda, porque a grande maioria dos hipsters faz isso, na verdade – só coloca uns óculos, deixa crescer a barba e toca banjo, sei lá. É uma escolha estética que as pessoas estão fazendo e que pode refletir muito o que se passa dentro delas, ou nada. Muito da pornografia, principalmente se falamos de fotos e vídeos, é para ser só uma viagem curta na fantasia. Você entra, sai e segue em frente. Isso significa que a maioria das pessoas prefere olhar um cara ou uma mina e ver tatuagens e já pensar 'Eu me identifico' do que ter uma introdução de 20 minutos em que a atriz ou o ator pornô fala sobre como adora Jack Kerouac. Não é assim que muita gente lida com a pornografia, e acho que não tem problema nenhum.

O erotismo, no entanto, vai ter um tipo de público diferente, de gente que procura mais um ardor lento de ir conhecendo o personagem por dentro e goza com esse tipo de personalidade hipster de um jeito que parece um pouco mais real. Na verdade, o erótico é perfeito para o pornô hipster, porque é uma das únicas subseções da pornografia focada em revelar a personalidade dos participantes e o que se passa na cabeça deles.

E em que os hipsters pensam durante o sexo?
Acho que tem uma certa pose que vem com a estética hipster, para o bem ou para o mal, então imagino que possa ter um problema aí de pensar demais em você em vez de curtir o momento. Obcecar sobre como você está, o que está usando ou não está usando. No mundo da fantasia erótica, não tem nada disso, felizmente, porque essa é a natureza dos mundos fantásticos, mas são situações em que os hipsters poderiam se encontrar: trepar para conseguir um passe VIP para um festival de música, por exemplo, ou para expandir a mente em uma aula de ioga, ou para impressionar o chefe em um café.

Você pretende continuar escrevendo literatura erótica com o tema hipster?
Com o tempo, aprendi a direcionar meus esforços para o que vende, e enquanto o gangbang hipster vendeu bem, o gangbang com monstros vendeu ainda mais. [Nota da edição: Hannah Wilde também tem uma série chamada Violated By Monsters.]Para mim, é fascinante o fato de existir mais gente interessada em trepar com o Monstro do Lago Ness – ou pelo menos em rir sobre uma foda com o Monstro do Lago Ness? – do que em trepar com uma barista bonita ou coisa assim.

Pois é, falando nisso, reparei que você escreveu um livro sobre uma foda com um bando de chupa-cabras. Como foi essa ideia?
Tinha um episódio de Arquivo X sobre o chupa-cabra que, se bem me lembro, nunca mostrou o bicho. E acho que desde então fiquei decepcionada com isso. Talvez o livro fosse para compensar aquilo no meu próprio subconsciente, sei lá. Ele faz parte da série Violated By Monsters, que acabei de terminar, com 60 livros, cada um com um monstro diferente. A essa altura, acho que seria muito difícil pensar em um tipo de monstro sobre o qual eu já não tenha escrito uma foda.

Você encontra toda a literatura erótica da Hannah Wilde aqui.

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