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Estamos sendo justos com Patrícia Lélis?

Não se sabe quem é culpado no caso em que Marco Feliciano é acusado de praticar violência sexual, mas sua repercussão deixa claro quanto se duvida da palavra de uma mulher.
11 Agosto 2016, 2:53pm

Imagem via Agência Brasil.

Desde o dia 24 de julho, denúncias graves de agressão e violência sexual contra o pastor e deputado federal (PSC-SP), Marco Feliciano, surgiriam na mídia. Patrícia Lélis, militante do PSC e jornalista, diz ter sido agredida e abusada sexualmente por Feliciano ao negar as investidas do político em manter relações sexuais no apartamento funcional dele em Brasília. Após supostamente passar dias mantida em cárcere privado sob muitas ameaças do chefe de gabinete de Feliciano, Talma Bauer, Patrícia, acompanhada por sua mãe, conseguiu prestar queixa contra o político e seu assessor em uma delegacia em São Paulo.

E mesmo com a denúncia feita, este caso parece ainda ter muito chão pela frente. Na fase inicial das apurações policias, surgiram algumas contradições nos depoimentos de Bauer e Patrícia. Há indícios de que houve a negociação de um suborno no valor de R$ 300 mil para calar as acusações da jornalista (que nunca foi pago), além de a polícia ter descoberto fotos de Patrícia e Talma em momentos descontraídos — como uma imagem em que a jornalista aparece sorridente ao lado de seu namorado e de Bauer em uma churrascaria em São Paulo, o que ajudou a enfraquecer as acusações de que o chefe de gabinete de Feliciano a teria mantido em cárcere privado em um hotel em São Paulo. Há também outro vídeo também que traz mais dúvida à acusação de cárcere privado, no qual Bauer surge negociando o silêncio da jornalista.

Apareceram indícios da existência de uma conta bancária, na qual Patrícia, tendo sua mãe como intermediária, iria receber um depósito. Algumas outras provas cruciais também esperam por investigação. Como, por exemplo, quem é a mulher que bateu na porta do apartamento funcional de Feliciano no dia 15 de julho, data apontada como o dia em que a violência sexual teria acontecido. Por que no boletim de ocorrência há o registro de tentativa de abuso, enquanto no áudio integral da conversa entre Talma e Patrícia, ela diz que Feliciano forçou relações sexuais sem o consentimento dela?

LEIA: "Uma cronologia do caso de violência sexual envolvendo Marco Feliciano"

A previsão é que Lélis será investigada pelos crimes de extorsão e falsa comunicação de crime, já que o delegado descartou a existência de ameaça e cárcere privado por acreditar que há provas de que ela ativamente participou da negociação do seu silêncio. Por outro lado, a existência do suborno e do áudio que foi vazado para imprensa indicam que há algo realmente muito sério acontecendo e que não pode ser revelado entre os envolvidos. Em um vídeo divulgado recentemente, Bauer insiste que Patrícia (visivelmente incomodada com o pedido) fale com Feliciano pelo telefone. O deputado, por sua vez, pede para que ela "grave direitinho" o vídeo em sua defesa. "Me ajuda porque tenho família", pediu o deputado. Assim que a denúncia foi noticiada na imprensa, Patrícia gravou alguns vídeos desmentindo o caso e saindo em defesa do pastor. Segundo Lélis, sua defesa teria acontecido por ter sido coagida por Bauer.

É uma história complicada que me impede de tomar partido. Não posso medir a intensidade do abuso sofrido por Patrícia e nem como funcionou a dinâmica entre ela e Bauer durante esse suposto cárcere privado em São Paulo. Deixo isso para a investigação policial e a justiça, não é meu papel dizer que desconfio de Feliciano ou de Patrícia. Meu papel é avaliar o que está acontecendo com essa mulher a partir do momento em que ela decidiu levar adiante uma denúncia contra um dos deputados mais votados do Brasil e mais influentes da bancada evangélica.

Comparando com outros crimes noticiados na imprensa, o estupro sempre é aquele delito no qual o agressor mais goza do benefício da dúvida. Se é um caso de assassinato, roubo, furto, estelionato, a opinião pública parece ser unânime em querer prender o culpado. Em caso de estupro, porém, a dinâmica muda. Os olhares sempre se voltam à vítima. Quem ela era? O que ela estava fazendo? O que ela vestia? Ela usou droga? Com quem ela estava saindo? No caso de Patrícia, o julgamento moral não demorou a aparecer, mesmo sendo ela uma vítima ideal : branca, religiosa, heterossexual e defensora dos bons costumes. Uma versão idealizada da que foi ironizada na Veja São Paulo: a bela, recatada e do lar.

Mesmo preenchendo o ideal antifeminista, Patrícia não convenceu. Na mesma velocidade em que o caso se espalhou em forma de prints de conversas de WhatsApp, começaram a circular entre perfis de militantes evangélicos supostas "nudes" que Patrícia teria enviado para chamar a atenção de Feliciano. Em um dos perfis, inclusive, um usuário resgatou um perfil de Patrícia em um site de uma agenciadora de modelos comerciais. Embora a veracidade de todas essas "provas" seja extremamente duvidosa, essa movimentação foi suficiente para duvidar da palavra da jornalista: ela tirou fotos sensuais, portanto não é tão pura como imaginávamos. Como se tirar nudes validasse qualquer violência sexual.

A partir do momento em que uma mulher não se cala sobre um abuso que sofreu, ela automaticamente não é mais inocente. Não é possível que ela não tenha provocado de alguma forma o abuso. Talvez no dia do fato o decote estivesse mais aparente, talvez ela tenha exagerado no batom vermelho, a saia estava mais curta do que o normal ou talvez ela seja, afinal de contas, uma Mata Hari da esquerda convocada para desmantelar um homem de bem.

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Como falei, prefiro não me aprofundar em teorias da conspiração sobre qual a versão que prevalece nessa história. Me cabe só observar o mesmo processo de estigmatização que recai sobre Patrícia. O mesmo processo aconteceu não muito tempo atrás no caso tenebroso do estupro coletivo no Rio de Janeiro. Com algumas diferenças de intensidade, claro, já que a vítima do estupro coletivo era pobre, desassistida pela sociedade e menor de idade.

Patrícia, ao contrário, é uma velha conhecida de todas nós, sobretudo por suas ferrenhas opiniões contra o feminismo. Inclusive no campo da luta contra o aborto, no qual ela já comentou que as feministas queriam legalizar a prática para fazer "sexo ilícito". Durante toda a sua construção de militante jovem do PSC, antifeminista e da direita conservadora, a jovem sempre criticou a esquerda e teceu comentários dolorosamente preconceituosos sobre a comunidade LGBT e outras minorias.

Nós duas, eu e Patrícia, somos pessoas diferentes em quase todos aspectos e com opiniões muito divergentes sobre o que é a liberdade da mulher e o feminismo. Talvez deva considera-la como inimiga ideológica e já a critiquei em uma audiência aberta sobre o direito de abortar. Mas agora ela se pronunciou sobre um tipo de violência que é muito comum entre nós mulheres. Na minha cabeça, um conflito interno muito grande se instaurou em Patrícia quando ela denunciou a violência sexual — e talvez não fosse a única. Ela denunciou e fez um ato que muitas vezes é relacionado com a militância feminista. Patrícia, mesmo relutando com todas as forças, tomou uma atitude feminista para evitar que se machucasse e que também outras mulheres se machucassem.

E assim, todo o universo que construiu em sua volta desmoronou. Como acontece com tantas mulheres que denunciam abusos.

Ela é uma mulher que se dedicou à igreja evangélica, acreditou na política e perdeu tudo isso em um pouco mais de um mês. Ela diz ter sido abusada por um homem que admirava, recebeu ameaças graves da liderança do partido para o qual militava, foi questionada por pastores que ela achava que deveriam aconselhá-la a fazer o certo e agora é chamada de "esquerdista" pelos mesmos companheiros com quem mantinha amizade. Perdeu apoio até de Sara Winter, que não demorou a escrever um textão no Facebook para se distanciar de Patrícia o mais rápido possível e não manchar sua imagem.

Ironicamente, como a própria Patrícia fez questão de destacar, as únicas pessoas que apoiaram sua denúncia foram as feministas. Foi um apoio tão imediato em comparação ao ataque das pessoas que supostamente estariam ao lado de Lélis, que ela declarou publicamente que foram grupos feministas e LGBT que deram apoio incondicional ao seu caso. A denúncia avança as trincheiras políticas e demonstra como a figura do agressor se sente impune em praticar atos contra a liberdade sexual da mulher. Foi um caso tão grande que quase conseguiu abafar outra história igualmente capciosa de violência contra a mulher, que é a suposta agressão praticada pelo senador Telmário Mota (PDT-RR) contra uma estudante no fim de 2015, a qual retirou posteriormente as denúncias e desmentiu o caso. Rodrigo Janot, procurador-geral da República pediu para que o STF abra um inquérito para apurar o caso.

A política é um dos vários ambientes que podem se tornar insalubres para uma mulher. Começando pelo fato de que não há participação feminina efetiva na política brasileira (9% na Câmara e 13% no Senado) e ainda há espaço para políticos exaltarem torturadores de mulheres e crianças no plenário. Uma mulher que aparece peitando essa estrutura será questionada, inclusive quando ela possuiu um histórico tão caricato como o de Patrícia. Ela será posta à prova a todo momento pelos próprios jornalistas que conseguiram o furo — que a descreveram como "poderia ser mais uma mulher querendo atenção na internet".

A frieza de Patrícia nas entrevistas e seus discursos calculadíssimos causam estranheza em quem assiste. Como ela consegue permanecer tão forte mesmo ter sido violentada por um político influente e ter sido ameaçada com uma arma? Por que ela, supostamente, aceitou o suborno de Bauer para se calar sobre o abuso? Talvez realmente devêssemos duvidar da palavra de Patrícia, assim como deveríamos acreditar que o vídeo de Feliciano, ao lado de sua mulher, seja balela. Sim, a presunção de inocência, afinal de contas, é um direito previsto constitucionalmente. Mas quantas vezes nós já duvidamos da palavra de uma mulher sem hesitar, mesmo quando ela estava falando a verdade?

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