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A Maré Virou no Complexo da Maré

Em repúdio à constante violência policial foi convocado um ato. Em resposta, os manifestantes receberam gás, bomba e munição letal.

por Matias Maxx
24 Fevereiro 2015, 6:44pm

Todas as fotos são do Matias Maxx.

Matéria atualizada em 26 de fevereiro.

Até os anos noventa, quem chegava no aeroporto internacional do Rio e se dirigia ao centro ou a zona sul, inevitavelmente tinha de contornar, ou cruzar, o Complexo da Maré. Pela linha vermelha, a primeira visão da cidade que os turistas tinham era favela de um lado, e favela do outro e uma molecada de chinelo vendendo água para os motoristas presos no engarrafamento. Em 2009, já no embalo dos "grandes eventos", o prefeito Eduardo Paes resolveu o "problema" instalando um "muro acústico" em volta da Linha Vermelha, servindo para esconder a favela e proteger os motoristas — e também isolar o barulho que vem da avenida.

Em abril de 2014, a área das comunidades foi ocupada pelas Forças Armadas , numa operação conjunta do Exército e da Marinha. Assim como no Complexo do Alemão, a presença do exército seria temporária até a instauração de uma Unidade de Policia Pacificadora, mas mesmo assim o exército permaneceu. Fiz algumas matérias na Maré e o pessoal do Exército, que patrulha constantemente a comunidade em veículos blindados, sempre me apareceu bem pouco amigável e sádico. Todas as vezes sempre ouvi histórias sinistras. Segundo apurei, recentemente a companhia foi trocada por um "pessoal do nordeste", bem mais violento e intolerante. De fato, no dia 12 de fevereiro, cinco amigos tiveram o carro atacado por militares voltando de uma festa. Um dos ocupantes teve a perna amputada e segue internado . No dia 20/02 um pedreiro conhecido como Rivaldo foi confundido com um traficante por fuzileiros navais e assassinado . No dia 21/02 uma Kombi que fazia lotação foi alvejada pela policia ao furar uma blitz, deixando duas pessoas feridas.

Em repúdio à violência policial foi convocado para segunda, dia 23, o ato "Protesto em favor da vida no Complexo da Maré". Ironicamente, o dia já começou com uma ocorrência, com um menino de 11 anos baleado nas costas. Muitas palavras de ordem, bombas e rojões depois, outro menor de idade teria sido baleado ao fim do ato, que descrevo a seguir no estilo "fotonovela jornalística":

Cheguei à passarela número 6 da Avenida Brasil por volta das 19h, lá fica uma das entradas para a Vila do João, uma das várias comunidades do Complexo da Maré. Próximo aos moto táxis tinham umas faixas estendidas, logo encontrei colegas da imprensa, midiativistas, ongueiros e outras figuras conhecidas dos protestos, em meio a um grupo pequeno de moradores. De fato, ali era a concentração do pessoal que vinha de fora, e não tardou uns vinte minutos para vários bondes de moradores brotarem de dentro da comunidade, entoando palavras de ordem e direcionando-se direto à Avenida Brasil.

Pelo que eu apurei, havia ficado combinado que o ato seguiria pela Av. Brasil em direção ao CPOR, onde fica a base da operação militar na Maré, mantendo uma faixa livre para o trânsito. Mas não foi bem isso o que sucedeu. Ao principio a marcha foi escoltada por policiais comuns, com armamento pesado e letal, como é praxe nas ações em comunidades do Rio. Eles não permitiram que o pessoal fechassem a Av. Brasil, sempre tentando manter o pessoal numa das vias de acesso que circulam a comunidade, nessa o ato acabou sendo empurrado para a Linha Amarela.

Como em outros protestos o povo cantou o "Rap da Felicidade", que fez bem mais sentido do que quando entoado pelos estudantes universitários de sempre, e uma porrada de gritos de repúdio à PM, que fizeram bem mais sentido ainda, afinal, ali no meio, podiam ter policiais que de fato mataram amigos dos manifestantes.

Desde o início do ato, uma molecada mais exaltada ia na frente, correndo e tentando fechar o trânsito a qualquer custo. Enquanto a galera que segurava as faixas ficava freando o ato pedindo pra molecada se acalmar, às vezes até de forma autoritária. Até que num dado momento, num ato de peleguismo, essa galera sentou no chão e começou a posar pra foto, abrindo mais ainda o buraco entre as faixas e a molecada lá da frente.

Nesse meio tempo a Tropa de Choque chegou, afinal a Linha Amarela, uma das principais vias expressas do Rio, estava fechada. Aí assim que esse Apartheid ficou bem claro pra policia, eles começaram a tacar bomba de gás na molecada. A maioria delas caindo na outra pista, que estava aberta, engarrafada e cheia de carros.

Isso foi em frente à entrada da Vila do Pinheiro, onde tem uma passarela. Uma parte da molecada correu pra dentro da comunidade, e outra seguiu pela Linha Amarela, perseguida pela polícia. Eu fui atrás. Quando chegamos um pouco mais a frente, uma rajada de tiros de balas traçantes foram disparadas de dentro da comunidade pelas Forças Armadas.

Foi uma de manifestante, policial e imprensa se jogando no chão.

Esse motoqueiro da Choque caiu da moto e o caralho. Por que diabos os militares dispararam? Para culpar os traficantes e de quebra distribuir mais balas perdidas pela comunidade?

Aí a Tropa de Choque se posicionou atrás desse "muro acústico" com finalidade de isolar a favela das avenidas expressas e começou a disparar bombas de gás lacrimogêneo para dentro da comunidade.

Essa senhora estava voltando do trabalho e passou mal com o gás lacrimogêneo. Como na maioria das comunidades do Rio, as casas são pequenas, os quartos apertados, as janelas pequenas, e os residentes muitos. Eram umas oito horas e quem não tava chegando do trabalho, já estava dentro de casa. Agora imagina você tá lá tranquilão em casa jantando e assistindo a porra da novela e uma nuvem de gás lacrimogêneo invade sua casa? Eu ficaria bem, bem, puto!

E a maioria da população ficou. E aí centenas de moleques foram às ruas e começaram a tacar pedras e rojões pra cima da Tropa de Choque.

A essa altura só sobraram eu e mais cinco colegas da imprensa, nenhum de agência internacional ou grande grupo de mídia (se bem que a VICE é grande grupo de mídia e agência internacional né? Mas bem, vocês me entenderam). Nos posicionamos atrás de uns caminhões e kombis que estavam estacionados, e dava pra ver bem do lado esquerdo a Choque na Avenida (a esta altura fechada nos dois sentidos) e do lado direito, na entrada da favela o povão armando barricadas.

Normalmente eu curto fotografar esses confrontos do lado dos manifestantes. Mas tava tenso, desde antes da treta toda começar vários moleques ficavam receosos com câmeras, com medo de sofrerem perseguição caso uma foto sua venha a ser publicada. Durante o confronto volta e meia voava uma pedra na nossa direção acompanhada do recadinho "toma no cu, Globo!".

Aí ficou essa punheta por umas três horas: a Choque tacava bomba pra cacete, avançava até a entrada da favela, e ai levava rojão, garrafada, pedrada e molotov a rodo e recuava de novo até a Avenida. A população avançava, armava barricadas e tacava pedra. A Choque fazia mais uma chuvinha de bombas, avançava, e o ciclo se repetia. Chegou até a rolar troca de turno.

Era um verdadeiro confronto urbano, não é a toa, que não muito longe dali, existe a Faixa de Gaza, apelido carinhoso da linha imaginária que separa o território das facções Comando Vermelho e ADA/TCP. Com a separação do TCP (Terceiro Comando Puro) e o ADA (Amigo dos Amigos), o controle do tráfico nas quinze comunidades que formam o complexo é disputado por três facções criminosas.No entanto, do outro lado de onde a treta rola fica a Baixa do Sapateiro, o único morro dentro de todo Complexo da Maré, que é uma gigantesca favela plana.Enquanto a Tropa de Choque bombardeava a entrada da Vila Pinheiro, o exército agia do outro lado da Linha Amarela, aonde fica a Baixa do Sapateiro, área contígua ao Morro do Timbau, o único relevo nessa gigantesca favela plana. Por conta dessa posição tão estratégica, para evitar intermináveis disputas sangrentas entre as facções, esse morro é tradicionalmente um território neutro, livre do controle das facções. Mesmo assim, o exército não parava de circular o morro, e disparar em sua direção.

À essa altura, a revolta já tinha chegado à todas as entradas da comunidade, a PM começou a tomar pedra e rojão de todos os lados, e num movimento inesperado, bateram em retirada.

Aí o colega Patrick Granja da A Nova Democracia foi bem sagaz e orientou nossa trupe jornalística a subir a passarela, porque podia dar ruim. E lá de cima pudemos ver aquela cena linda, o povo tomou as duas pistas da Linha Amarela e começou a arrastar e incendiar caçambas de lixo.

Enquanto a maioria da turba não estivesse nem aí pra gente, uns caras começaram a tacar pedra na gente, começamos a responder que estávamos do lado deles, filmando a polícia para que não houvesse covardia, que éramos dos direitos humanos, midiativistas etc. De fato, eu tenho certeza de que se a gente não estivesse lá, além do fato não ser noticiado e que a Choque e os militares teriam sido muito mais covardes.

Um cara de moto apareceu, gritando pra galera que "os amigos mandaram avisar que não era pra mexer com a imprensa". Depois ele subiu a passarela de moto e falou pra gente ficar tranquilo. Trocamos umas ideias, falamos que estávamos ali para que a polícia não atirasse contra a população. Ele disse que se eles quisessem, colocavam snipers nas lajes e atiravam na polícia também. Despediu-se da gente falando que queria tatuar a bandeira do Estado Islâmico.

Este é o momento em que um jornalista coxinha pau mandado escreveria uma baboseira sem sentido do tipo "tráfico incita população à atacar a policia" ou como disse o hipócrita do Rodrigo Pimentel no RJTV, "houve traficantes na organização do protesto". Mas o que eu vi ali foi uma população revoltada, que leva tapa na cara e vê parentes e amigos serem assassinados pela polícia desde que nasceram, e que pouco a pouco está se cansando de ter seu jantar temperado por gás lacrimogêneo e spray de pimenta.

Ficou muito claro que o que aconteceu nessa noite foi pura e simples lei de ação e reação, a Choque fez chuva de bomba e tomou uma chuva de morteiros de volta. O contingente da Policia Militar em todo estado é de 48 mil pessoas, e a população da Maré uns 150 mil...

Ah, sem contar que traficantes odeiam confrontos de qualquer tipo, pois eles atrapalham os negócios, e em tempo de ocupação, eles andam em baixa. Então, afirmar que o tráfico tem algum interesse em incitar esses protestos é assinar um atestado de burrice e cabacismo de quem realmente não entende como se organizam as comunidades — ou é hipocrisia mesmo.

Alguns poucos policiais ficaram para trás, e dispararam com munição letal. Aos poucos chegaram reforços que não poupavam munição letal. A população ficava nos gritando "filma eles, filma eles!".

Aí começaram a chegar os blindados do exército e o protesto logo se dissipou.

Aos poucos os policiais retomaram suas posições. Ainda se ouvia um tiro ali e um rojão lá. Até que veio uma calmaria.

Fizemos o caminho de volta pela Avenida que estava repleta de pedras e granadas deflagradas. No caminho passamos por mais uns três ou quatro grupos de policiais, ainda apreensivos e cagados de medo.

Um mototáxi nos confirmou a informação de que um menor havia sido atingido e estava na UPA, ele havia levado sua irmã para lá.

Consegui pegar o último metrô e cheguei em casa a tempo de assistir os telejornais noturnos. Nenhum deles dizia nada sobre o confronto. Na internet só achei nas editorias de trânsito notas bem simples do tipo "protesto fecha Linha Amarela por três horas". Curiosamente, haviam muitas noticias sobre os preparativos para os Jogos Olímpicos de 2016, uma vez que o Alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, o Joseph Blatter da vez, havia chegado à cidade para inspecionar as obras na cidade.

Todo dia e toda noite alguma comunidade do Rio de Janeiro passa por alguma história parecida. E na maioria das vezes as balas não são de borracha e gente acaba morta. A maioria dos fatos nunca são noticiados, mas pouco a pouco câmeras de todo tipo nas mãos da imprensa alternativa, da população ou mesmo dentro das próprias viaturas, ajudam a expor a triste história de violência policial nas favelas, que começou décadas atrás, e só tem se intensificado após a instauração das UPPs.

A presença do exército na Maré está confirmada até junho. Mas não duvido que haja interesse em posterga-la mais uma vez. Torço para que os recentes acontecimentos exponham o absurdo dessa ocupação militar em tempos democráticos, e para que após sua saída, eles não sejam simplesmente substituídos pela Polícia Militar, mas também por outros serviços públicos e sociais, senão tal qual os EUA no Iraque e Afeganistão, estremos só gastando dinheiro, vidas e alimentando um interminável ciclo de violência.