Sexo

Por dentro dos clubes de strip-tease com distanciamento social recém-reabertos nos EUA

As coisas não são mais como costumavam ser.

por Zoe Zorka; Traduzido por Marina Schnoor
21 Maio 2020, 8:12pm

Imagens: Paul Duane.

É noite de sexta-feira no Trail’s Gentlemen’s Club em Salt Lake City. Tipicamente, esse seria um dos principais finais de semana para os moradores da maior cidade de Utah visitarem locais de entretenimento. Historicamente, 1º de maio marca o final não-oficial do inverno, enquanto as noites quentes do deserto não começam por ainda um mês.

Ainda assim, essa noite de sexta também é outro marco importante. Em 1º de maio, o estado de Utah, o condado de Salt Lake e Salt Lake City encerraram muitas de suas restrições da pandemia do mesmo jeito arbitrário e aleatório como foram inicialmente implementadas algum tempo atrás. Como muitos estabelecimentos de entretenimento adulto da área são classificados como bares pela lei estadual, o condado de Salt Lake é uma das primeiras regiões do país a permitir explicitamente que seus clubes de strip-tease reabram.

A VICE visitou três clubes de strip-tease de Utah na primeira semana de reabertura, para ter uma noção de como é o novo normal.

Dancer at Trails
Dançarinas do Trails usam máscara e mantêm uma distância de 1,80 metro dos clientes e umas das outras. Imagem: Paul Duane

Lá pelas 21h o sol já mergulhou no horizonte na costa oeste das montanhas de Sierra Nevada. O estacionamento do Trails está cheio e uma fila começa em frente ao local. De fora, o clube parece qualquer boate popular de hip hop, com um DJ tocando Drake, Future, Tyga, Post Malone, Blueface e Rihanna.

Grupos diversos de clientes não estão exatamente numa fila, mas em amontoados, colocados estrategicamente a 1,80 metro de outros grupos. E enquanto locais como o Trails costumavam ter dress codes rígidos, agora todo mundo na fila precisa usar máscara. Alguns usam máscaras médicas N95. Outros usam bandanas estilo Velho Oeste. A maioria usa balaclavas de esqui, uma referência a temporada de esqui abruptamente interrompida pela pandemia.

Um segurança com máscara N95 confere as identidades e depois mede a temperatura dos clientes. (Quem medir acima 37 graus não pode entrar.) Depois que todos os membros passam pela medição de temperatura, o grupo é escoltado para uma mesa enquanto o segurança relembra as regras do novo mundo:

1. Fiquem a 1,80 metro das dançarinas, funcionários e outros clientes.

2. As pessoas precisam usar a máscara o tempo todo, exceto quando estiverem bebendo.

3. Não se aproximem mais que 1,80 metro do palco a não ser para colocar dinheiro na beirada.

4. Depois de colocar o dinheiro na beira do palco, vocês precisam voltar imediatamente para sua mesa.

Para os clubes de strip do condado de Salt Lake, a crise chegou rápido e com força, assim como para muitos outros pequenos negócios, mas com uma ressalva importante: clubes de strip-tease (assim como cassinos) não tinham direito a empréstimos de assistência para pequenos negócios, uma prática que muitos nas indústrias consideram injusta.

Uma funcionária do Southern X-posure, outro clube de strip de Salt Lake City, apontou que o clube, como os outros na área, não tinha direito a assistência apesar de pagar impostos federais, estaduais e locais, além de outras taxas como licença para vender álcool – mesmo que esses negócios tenham fechado antes mesmo das ordens oficiais para isso.

cleaning products at strip club
Produtos de limpeza no palco do Trails. Imagem: Zoe Zorka

“Não tivemos muito movimento nas últimas duas semanas antes do lockdown porque [o governo] estava mandando todo mundo ficar em casa”, ela diz.

Dentro do Trails, as luzes de LED cercando o palco brilham ainda mais com a falta de clientes sentados no balcão de gorjetas (bem na frente do palco). No fim de cada apresentação, uma funcionária mascarada usa um rodo para remover as notas do palco (que depois serão contadas por outro funcionário com luvas), enquanto outra esteriliza a área de dança para a próxima dançarina com máscara.

Tem uma ironia poética aqui enquanto as mulheres cirurgicamente esculpidas dançam ao som de “Mask Off” do Future, com o DJ relembrando periodicamente os clientes de manter a distância e lavar as mãos.

Se adaptar a essas novas medidas era a única chance que muitas dessas mulheres tinham de continuar empregadas, enquanto a taxa de desemprego em Utah decola e o programa de assistência federal ainda está no processo de implementação.

Dancer cleaning a pole
Dançarinas no Trails precisam limpar as barras antes e depois de sua apresentação, e não podem tocar o dinheiro das gorjetas. Imagem: Paul Duane

As dançarinas, apesar de não trabalhar por quase dois meses, não tinham direito aos benefícios de desemprego por serem contratadas independentes. “A pandemia atingiu todo mundo de repente”, diz Steph Mercedes, gerente das dançarinas do Trails. “A maioria das pessoas que perdeu o emprego podia pedir benefícios de desemprego, algo que não podemos por ser contratadas independentes, então o estresse financeiro foi intenso.”

A 16 quilômetros das luzes do centro de Salt Lake City, The Bears Den em Magna também reabriu suas portas. Num prédio baixo e despretensioso no meio da paisagem desolada de Utah, o estabelecimento atende principalmente os trabalhadores da mina de cobre próxima Rio Tinto Kennecott.

O “Den”, como os locais chamam carinhosamente o clube, atualmente é o único bar funcionando na cidade de Magna, já que os outros tiveram suas estruturas prejudicadas por uma série de terremotos na região em março e abril.

Não tem um DJ estilo Las Vegas ou luzes de LED no Den, mas painéis de madeira e pisca-piscas de Natal pendurados no teto. O Den está foram dos limites de Salt Lake City, então as regras são diferentes aqui. As dançarinas ainda precisam usar máscaras e não podem tocar o dinheiro, mas os clientes não precisam usar máscaras.

temp check
Uma funcionária mede a temperatura dos clientes do The Bears Den Imagem: Zoe Zorka

Mas o segurança, como o do Trails, ainda teve que assumir um novo papel. Ele registra os nomes e telefones de todo mundo que entra.

“No caso de um surto”, ele explica, a voz abafada pela máscara cirúrgica claramente apertada demais pra ele.

Enquanto a dançarina, uma mulher magra e pálida com luzes loiras crescidas no cabelo, se apresenta no pequeno palco do bar ao som de música country e clássicos do rock dos anos 80, a mulher atrás de uma divisória de acrílico no bar troca suas luvas entre cada rodada de drinques.

Os clientes, usando casacos camuflados, botas de cowboy e camisetas Harley Davidson, dividem sua atenção entre a apresentação e as TVs atrás do bar, passando uma corrida da NASCAR e Fox News. Dois clientes mostram com orgulho suas máscaras do Punisher enquanto outro usa uma N95.

Morgan, a bartender, estima que o clube está 60% mais cheio que o normal, uma aproximação similar a feita pelos funcionários do Trails.

“As pessoas têm dinheiro pra gastar. Elas acabaram de receber seus cheques de estímulo e acham que logo vão voltar ao trabalho”, ela diz enquanto limpa os tacos de sinuca antes de dá-los para um novo grupo de jogadores.

Para David, um mecânico de 50 e poucos anos e cliente regular do Den, voltar para o bar significa não só uma sensação de normalidade, mas também apoiar um pequeno negócio local que ele diz ser importante para a comunidade.

“Não tenho medo de ficar doente”, ele diz enquanto tira um maço de notas de dólar do bolso para pagar a dançarina, depois ela espirra desinfetante no palco entre músicas do Luke Bryan.

A waitress serves drinks wearing a mask and disposable gloves.
Uma garçonete do Trails serve os drinques usando máscara e luvas descartáveis. Imagem: Paul Duane

“Não sou tão velho assim, e é bom mesmo passar logo por isso. Se vai acontecer, deixe acontecer. Mas estou tomando cuidado. Estou lavando as mãos. Fazendo distanciamento social”, ele diz, apontando para as mesas separadas na distância correta.

“Mas as pessoas precisam de dinheiro. O governo não nos ajudou, então temos que nos ajudar.”

Enquanto o público dos três clubes parece ter aumentado, muitas dançarinas disseram que as gorjetas caíram significativamente.

“Conversar com os clientes quando saímos do palco é uma parte vital do trabalho”, diz Steph Martines, a gerente de dançarinas. “Como não podemos fazer lap dances, conversar com os clientes é quando eles se sentem importantes no nosso clube.”

Uma mulher que usa o nome artístico Sass, e é dançarina no Den há mais de uma década, fica feliz em não ter que usar máscara enquanto conversa comigo. Ela usa o cabelo moreno na altura dos ombros e suas unhas curtas estão cuidadosamente pintadas. Apesar de sua aparência normal, ela ilumina no salão enquanto fala, parando às vezes para acenar para clientes que não a viam há mais de seis semanas.

Ela diz que apesar do aumento de público e renda no geral, ela está fazendo apenas 60% do que ganhava normalmente num dia bom – uma queda que ela atribui ao uso obrigatório de máscaras.

“A gorjeta é diferente quando eles não podem te ver sorrindo”, ela explica enquanto conta o dinheiro que ganhou no turno anterior no clube.

Para os clubes e dançarinas, o futuro é tão incerto quanto para muitos americanos.

a dancer at Trails
Uma dançarina do Trails. Imagem: Paul Duane

Olivia, uma dançarina do Den, diz que gosta do trabalho, mas também está bolando um plano paralelo para voltar a estudar e tirar seu certificado de flebotomia.

Martines enfatiza a importância dos negócios, ter economias e guardar o máximo de dinheiro possível, um sentimento ecoado por Sass.

“Invista em você”, ela me diz com o entusiasmo e experiência de uma mãe que passou anos dando conselhos para os filhos.

Sass já está investindo nela. Atualmente ela está tirando uma licença B100, uma licença de construção que permite trabalhar em qualquer estrutura acima do solo.

“Todo mundo ainda constrói, mesmo durante a pandemia, e não há muitas mulheres nessa área”, ela diz, dizendo que espera que seu gênero ajude a conseguir projetos.

Enquanto Olivia concorda com a ideia de economizar, ela também diz que é importante apoiar os pequenos negócios locais da comunidade “frequentando, dando gorjetas e se divertindo”.

Ela pergunta se posso escrever para que o governo federal e estadual não feche seu meio de vida de novo. Antes que eu possa responder, ela interrompe com outro pensamento.

“Mas, claro, garantindo que as pessoas tomem as precauções necessárias para impedir que a doença se espalhe. Então espero que essas medidas de saúde continuem funcionando”, ela acrescenta.

dancer at Trails
Imagem: Paul Duane

Por enquanto, os donos e funcionários dos clubes parecem navegar a nova ordem mundial mantendo um equilíbrio precário entre entreter e aplicar os códigos de saúde. Todo mundo com quem falei enfatizou a importância de tomar cuidados e fazer sua parte para impedir que o vírus se espalhe.

No Trails, um segurança musculoso aborda gentilmente duas mulheres, pedindo que elas não fiquem muito longe de sua mesa, algo ligeiramente diferente do convívio típico desse tipo de estabelecimento numa noite de sexta normal.

E assim que outro cliente está prestes a me mostrar sua máscara inspirada em super-herói, uma briga começa no estacionamento do bar, fazendo várias pessoas esquecerem o distanciamento social – e mostrando que mesmo precauções cuidadosamente mantidas às vezes falham.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.

Tagged:
Utah
strip clubs
reopening