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Quantas armas os norte-americanos realmente têm?

Alguns dizem que o número está em torno de 600 milhões. Aqui você vê o que os dados realmente mostram.
03 Julho 2018, 10:00am

Não há uma contagem oficial de quantas armas os norte-americanos possuem. Mas os melhores cálculos disponíveis deixam claro que o número cresceu em dezenas de milhões nas últimas décadas, o que torna os EUA um dos países mais densamente armados.

Um relatório de junho de 2018 do Small Arms Survey estima que civis americanos são donos de 393 milhões de armas, legalmente ou não, enquanto o total de armas propriedade de civis no mundo é de 857 milhões. São mais 270 milhões de armas propriedade de civis no país, e 650 milhões globalmente, que em 2007, a última vez que a organização suíça divulgou uma estimativa.

O relatório mostra que não só o número de armas para civis nos EUA aumentou, mas também a posição do país no total global: de 42% uma década atrás para 46% hoje.

“O maior componente alimentando o aumento de armas no mundo é os civis norte-americanos comprando armas”, disse Aaron Karp, autor do relatório.

Tanto domesticamente quanto globalmente, armas de fogo matam mais pessoas que qualquer outro tipo de armamento. Mas como são menores, mais baratas, mais disponíveis e menos reguladas que outros armamentos, elas são inerentemente mais difíceis de rastrear. Nos EUA, contar o arsenal civil é impossível: Uma lei federal apoiada pelo NRA proíbe um registro central de armas de fogo propriedade de donos particulares. (O Bureau de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, que regula a venda de armas, encara restrições até sobre como digitalizar registros de transações de armas de fogo, para não constituir um inventário nacional real de armas.)

Como resultado, especialistas fazem estimativas de armas privadas usando dados e metodologias que variam muito, e podem chegar a conclusões muito diferentes.

A contagem do Small Arms Survey é significativamente maior que a produzida pela National Firearms Survey, um projeto conjunto da Harvard e Northeastern University, que em 2015 estimava que civis americanos tinham 265 milhões de armas. Seus autores calcularam que o estoque de armas de fogo do país tinha aumentado apenas cerca de 70 milhões desde 1994, a última vez que uma pesquisa detalhada e representativa nacionalmente foi conduzida pelos pesquisadores Philip Cook e Jens Ludwig. O estudo mostrava a porcentagem de americanos donos de armas de fogo como essencialmente plana. O aumento de armas privadas veio do surgimento de aficionados por armas, que representam 3% de todos os donos de armas, mas que individualmente possuem uma média de 17 armas cada e coletivamente respondem por metade do estoque civil.

A National Firearms Survey de 2015 foi baseada em pesquisas diretas com indivíduos donos de armas. Os pesquisadores aceitaram as respostas deles sobre quantas armas tinham.

A Small Arms Survey combinou e considerou um conjunto mais amplo de fontes, incluindo registros governamentais em outros países, pesquisas acadêmicas como a NFS, dados das autoridades e de fabricantes, e outras medições.

Os dois métodos são jeitos de trabalhar com a falta de dados governamentais confiáveis. “Não há um sistema de contagem internacional padronizado”, disse Karp. “Muitos países não têm nenhum tipo de rastreio de armas privadas.”

No mundo norte-americano das armas, as estimativas são ainda mais altas. Alguns defensores do porte ideologicamente motivados afirmam que civis americanos têm até 600 milhões de armas de fogo.

O que complica ainda mais a questão é como e se as estimativas levam em conta o número de armas que saem de circulação. A National Firearms Survey, junto com os pesquisadores Ludwig e Cook, consideram 1% de taxa de depreciação anual no suprimento de armas, para levar armas aposentadas em conta. Mas Deborah Azrael de Harvard, coautora do estudo da NFS, disse que a taxa pode ser menor. “Ninguém realmente sabe quantas armas saem de circulação por ano”, ela disse.

Saber o número de armas em mãos civis não é só uma questão acadêmica. Isso tem implicações em políticas das forças da lei e segurança pública, já que registros claros de quem tem que armas tornaria mais fácil rastrear armas de crimes e desarmar pessoas com ficha suja, que não têm mais permissão para comprar armas legalmente. Nos EUA, estimativas de armas privadas têm ramificações políticas também, com candidatos e eleitores debatendo se armas deveriam ser mais difíceis ou fáceis de comprar.

“Será interessante ver como essa nova estimativa é usada”, disse Karp, “Para algumas pessoas, ela será irrelevante. Para outras, será fundamental.”

Uma versão desta matéria foi originalmente publicada pela Trace, uma organização de notícias sem fins lucrativos que cobre as armas nos EUA. Assine a newsletter deles e siga a Trace no Facebook e Twitter.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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