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Quando os Hells Angels mataram um garoto negro num show do Rolling Stones

O concerto gratuito caótico colocou uma pedra na positividade dos anos 60, mas as dimensões raciais daquela morte são inescapáveis.

por Seth Ferranti; Traduzido por Marina Schnoor
03 Julho 2018, 7:30pm

Esquerda: foto cortesia de Robert Altman. Direita: foto (de Meredith Hunter) cortesia de Dixie Ward.

Em 6 de dezembro de 1969, Meredith Hunter, um afro-americano de 18 anos, foi esfaqueado até a morte no que foi apelidado de “Woodstock West”, um show gratuito do Rolling Stones na Altamont Speedway no norte da Califórnia. Desde então, Altamont serve como o final simbólico da positividade dos anos 60 – um aviso de que otimismo e idealismo não seriam suficientes. Que ser jovem, engajado e idealista só poderia nos levar até certo ponto. Que os jovens que pareciam prontos para tomar o poder não podiam apagar a história da raça nos EUA.

Para quem achava que a contracultura era o começo da revolução, Altamont foi um lembrete de que injustiça e turbulência social assolavam e ainda assolam nossa nação.

Claro, a gangue de motoqueiros Hell's Angels que deveria servir como “segurança” no local já tinha se envolvido em outros casos de violências com os fãs naquele dia, a maioria brancos. Mas seria um erro ignorar a possibilidade de que o enfrentamento entre os Hell's Angels e Hunter começou porque ele era um homem negro saindo com uma mulher branca. Considerando os registros anteriores dos Angels atacando e espancando pessoas não brancas na Bay Area, e se apresentando como uma organização paramilitar que visava manter as ruas limpas – o que eles entendiam e explicavam como manter as ruas brancas – muito do que aconteceu com Meredith Hunter era quase inevitável considerando a cor de sua pele.

Em Just a Shot Away, que sai no dia 10 de julho, Saul Austerlitz conta a história de Meredith Hunter em detalhes. Muitos americanos se familiarizaram com os momentos em que ele aparece na tela no filme de 1970 Gimmie Shelter, mas Austerlitz sentia que ele era mais uma ausência que uma presença ali. O autor mergulha na história de Hunter antes do show que tirou sua vida, assim como o que aconteceu com sua família nos anos seguintes. Falei com Austerlitz sobre a ideia bizarra de contratar uma gangue de motoqueiros reacionários como segurança, o que o veredito de inocente no julgamento do assassinato de Meredith significou, e por que essa saga é tão familiar na nossa estranha era política.

VICE: Essa história já foi amplamente coberta em todos esses anos. O que você queria acrescentar aos relatos já existentes?
Saul Austerlitz: Nos anos depois do caso, vários livros foram escritos por pessoas envolvidas no show. Muitas vezes, a base desses livros é “Não foi culpa minha” ou “Quem eram os verdadeiros culpados”. Não havia um livro com a distância necessária para realmente abordar a história. Nasci depois de Altamont, mas estava interessado em abordar o incidente e falar com os envolvidos. Eu queria juntar uma narrativa com todas as experiências disparatadas. Acabei falando com 75 pessoas para escrever esse livro. Investiguei muito pelo Facebook, tentando rastrear pessoas e perguntando se elas estavam interessadas em falar.

Como já foi dito, o planejamento do show foi bastante apressado para capitalizar sobre o sucesso de Woodstock, e que os organizadores não estavam preparados para as mais de 300 mil pessoas que apareceram. Mas como eles conseguiram errar de maneira tão espetacular?
Sucesso pode ser perigoso. Entre os concertos gratuitos realizados em São Francisco por bandas como Grateful Dead e Jefferson Airplane, Woodstock, e vários outros eventos enormes no final dos anos 60, como o Human Be-In, havia uma sensação de que essas coisas sempre dariam certo, que todo mundo presente queria ter uma boa experiência, queria que as coisas dessem certo, e ter uma oportunidade ouvir música e usar drogas juntos. O que as pessoas iam comer? Onde poderiam usar o banheiro? Onde dormiriam? Quem as protegeria? A mentalidade é que todo mundo estava nessa junto.

É uma filosofia admirável que não deu muito certo para os organizadores.

Quanto da responsabilidade pela decisão de trazer o Hell's Angel foi do Rolling Stones na sua opinião?
Eu diria que a responsabilidade por contratá-los foi do Greatful Dead tanto quanto do Rolling Stones. Eles deram seu selo de aprovação aos Angels, dizendo que eles tinham cuidado do gerador no show anterior deles no Golden Gate Park e que tudo daria certo.

Claramente foi um erro. Foi um erro pagar a eles em bebidas, o que só pode ter exacerbado a situação. O Greatful Dead já tinha trabalhado com os Angels, mas os colocou numa situação muito pouco familiar para eles. Era um lugar desconhecido para os Angels, lidando com um público 100 vezes maior, e eles eram basicamente a única figura de autoridade responsável pela segurança num concerto daquele tamanho. Esses erros fizeram parte desse desastre.

O Hell's Angels são amplamente considerados uma organização criminosa hoje. Como isso era diferente em 1969, logo depois que Hunter S. Thompson os apresentou ao mundo em seu livro?
O livro de Thompson é um marco importante: foi basicamente a primeira vez que muitos americanos foram apresentados à ideia dos Hell's Angels – à ideia da cultura biker no geral. Isso até apareceu em filmes dos anos 50, como O Selvagem, mas Thompson forneceu mais base para dar aos leitores uma ideia de quem eram os Angels, no que eles estavam interessados, como eles agiam entre si e como se comportavam no mundo em geral.

Mesmo na época, os Angels eram, no mínimo, uma organização criminosa de meio período. Eles invadiram uma passeata contra a Guerra do Vietnã em Berkeley, e começaram a bater nos manifestantes. Eles já tinham se envolvido em atos racialmente carregados, e diretamente racistas, de violência. Acho que a distinção é que depois de Altamont – quando o rompimento com a contracultura aconteceu – os Angels partiram para uma direção criminosa em tempo integral. Eles demonstraram para o submundo do crime que eram capazes de ser leais uns aos outros e à organização.

Eles acabaram contratados para todo tipo de esquema de distribuição de drogas depois disso. Altamont foi um momento de transição para eles. Pessoas que eram amigos deles antes, pessoas de São Francisco que pensavam “Bom, não gostamos da polícia e vocês não gostam da polícia, então vamos ser amigos” – viram o que aconteceu em Altamont, viram como eles se comportaram, o que foi realmente o ponto de ruptura.

O Hells Angel Alan Passaro foi a julgamento por esfaquear Hunter, mas foi inocentado como tendo agido em legítima defesa. Uma história muito familiar para os americanos hoje.
Na minha opinião, ele era culpado. A filmagem que parecia tão condenatória acabou salvando Passaro, porque ele pediu ao júri para considerar só o que eles viam na filmagem. Naquele vídeo é muito difícil dizer o que estava acontecendo exatamente. O que ouvimos, ou o que outras testemunhas disseram sobre o que aconteceu depois da filmagem, é muito mais problemático. Vemos Meredith Hunter sacar uma arma no vídeo, mas o que as testemunhas dizem sobre o que aconteceu depois que o vídeo acaba, quando a arma de Hunter é jogada longe, [é o mais assustador].

Em vez de agir como outros seguranças mais profissionais fariam, o algemando e levando dali, eles basicamente tiraram Hunter de vista e continuaram batendo nele até ele morrer.

O advogado de Passaro – que era afro-americano – argumentou que Passaro estava agindo em legítima defesa de outras pessoas, significando que ele não temia pela própria vida, mas que temia que Meredith Hunter pudesse ferir outras pessoas, e que Passaro estava defendendo essas pessoas. A defesa de Passaro conseguiu contornar questões-chave de muitas maneiras. Foi assim que ele acabou considerado inocente.

Como você explica as tensões raciais que destacaram esse julgamento continuarem tão fortes nos EUA hoje, apesar de um exemplo tão espetacular ser visível para os jovens uma geração atrás?
O que estamos vendo nos últimos anos é um lembrete que muito do que estava presente em dezembro de 1969 não desapareceu. Nosso país fez progressos tremendos de muitas maneiras, incluindo racialmente, mas quando vemos quem é o presidente dos EUA, vendo a linguagem que ele usa, vendo como seus simpatizantes estão dispostos a fazer vista grossa para as coisas que ele diz que são claramente racistas, claramente preconceituosas, acho que é um lembrete que ainda estamos lutando para escapar das amarras da raça. Ainda lutamos para achar um jeito de não ter o racismo como base do que move as políticas americanas. O que aconteceu em Altamont parece estar sendo replicado no que acontece no país inteiro agora.

Para você, quão conscientes eram os paralelos entre os assassinatos cometidos pela polícia nos EUA moderno quando você estava trabalhando nesse livro?
Não consegui deixar de pensar sobre os paralelos entre Hunter e algumas das figuras de hoje, seja Trayvon Martin ou Tamir Rice, ou qualquer um dos jovens negros sendo mortos por policiais. O tempo ajudou a entender melhor a história de Hunter. Na época, a questão foi discutida em termos de shows de rock, contracultura e os Hell's Angels. É uma história que conhecemos melhor hoje do que as pessoas na época. [Ela exemplifica] o que acontece quando afro-americanos estão num lugar que não é considerado deles por figuras de autoridade. Nesse sentido, me pareceu uma história oportuna e, infelizmente, muito familiar.

Saiba mais sobre o livro de Austerlitz aqui.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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