O clima tá tenso: casos de violência marcam eleições 2018

Eleitores, políticos, militantes, apoiadores, até mesmo jornalistas têm sido alvos de agressões

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out 6 2018, 10:00am

A placa destruída de Marielle nas mãos dos apoiadores de Bolsonaro. Reprodução: Facebook

Recentemente circulou nas redes o vídeo com os candidatos a deputados estadual e federal pelo PSL, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira, vestidos com camisetas em apoio a Bolsonaro destruindo uma placa escrito “Rua Marielle Franco”, nome da vereadora do PSOL assassinada em abril. Apesar de não ser oficial, a placa era uma homenagem feita no local onde aconteceu o maior ato contra a violência e renomeava a praça original.

Em reação ao ato, o grupo Sensacionalista lançou a campanha Eles Rasgam Uma, Nós Fazemos Cem - um financiamento coletivo para a confecção de 100 placas que serão distribuídas na Cinelândia, no Rio de Janeiro, e arrecadaram 20 vezes mais que o valor da meta pretendida.

Violência do simbólico às vias de fato

Em países com cultura e instituições democráticas menos consolidadas, a violência pode emergir e prosperar se não for combatida com firmeza pelas autoridades, é o que explica o sociólogo e vice-coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e professor Livre-docente do Departamento de Sociologia da USP, Marcos César Alvarez. “Em contextos de acirramento das disputas políticas, indivíduos e grupos podem se sentir estimulados a praticar atos violentos, quer a partir de iniciativas isoladas, quer a partir de ações coletivas e projetos políticos autoritários ou totalitários”, comenta o professor.

A violência em contexto político pode ocorrer desde o campo do simbólico, como a destruição de uma homenagem até agressões físicas. Evidente que a situação política e as lideranças, como explica o cientista político Marcus Ianoni: “Há casos isolados de violência, mas, mesmo esses casos isolados, tendem a ter uma relação com o tipo de cultura política a que o agressor está vinculado”, explica professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Segundo o sociólogo e vice-diretor do Núcleo de Estudos da Violência, Marcos Alvarez, o espaço da política é a arena legítima na qual diferentes visões e interesses devem ser debatidos, mas a esfera público foi invadida por manifestações de preconceito e de defesa da violência por parte de alguns grupos.

Outros casos

No último dia 02, o vereador de Dourados e candidato a deputado federal, Cido Medeiros (Dem), foi agredido enquanto fazia propaganda política na região da Vila Industrial, periferia de Dourados, no Mato Grosso do Sul. O candidato estava em uma bicicleta com aparelhagem de som, quando teria sido abordado por dois homens que estavam em um veículo, conforme o Dourados News.

Em setembro, a deputada federal Benedita da Silva ( PT- RJ) e sua assessora foram agredidas por um casal que se dizia eleitores de Bolsonaro. De acordo com nota publicada, a deputada estava em um café quando os agressores tentaram expulsá-las do local. “Eles acusavam o PT da ‘facada’ em seu candidato, nos xingavam, cuspiam na nossa frente e gritavam tentando nos expulsar do local”, palavras de Benedita.

No mesmo mês, a administradora do grupo do Facebook Mulheres Unidas Contra Bolsonaro registrou ocorrência após ter sido agredida por dois homens quando entrava em sua residência, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.

Este ano, no sudeste do Pará, o deputado federal Wladimir Costa (SD), em revolta por ser interrompido durante discurso, deu um tapa na cara de um professor que questionou tatuagem com o nome do presidente Michel Temer. Durante o discurso, A vítima falou ao microfone: "Me explica a tatuagem do Temer na tua bunda, por favor?"; em seguida, o deputado dá o tapa e diz "Respeita a cara de homem, vagabundo. Homem safado apanha na cara".

Coincidência ou não, muitos foram os casos de apoiadores de Jair Bolsonaro envolvidos em casos de agressões. Questionado sobre tal relação, o professor explica que a postura dos candidatos pode estimular atos de violência por parte de seus correligionários, bem como de adversários. Para ele, candidatos com posturas polêmicas, por muitas vezes polarizam os debates, para o bem ou para o mal, atraindo atenção do público e às vezes sendo alvo de ataques.

“Infelizmente, no atual pleito, foram poucas as manifestações de apreço à Democracia, à República e aos Direitos Humanos, por parte de muitos candidatos localizados à direita no espectro político. Mas especialmente o candidato Jair Bolsonaro defendeu ideias e práticas incompatíveis com os valores democráticos, tendo com isso obtido significativo apoio eleitoral, o que é extremamente preocupante, pois coloca em risco a própria continuidade da Democracia no país”, comenta.

Sociólogo e vice-coordenador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e professor Livre-docente do Departamento de Sociologia da USP, Marcos César Alvarez / Arquivo pessoal

De acordo com Marcos Alvarez, dizer, no momento, que a violência é apartidária seria tirar a responsabilidade de candidatos e grupos que efetivamente defendem o uso da violência para a resolução de conflitos sociais. “O assassinato de Marielle Franco e a ausência, até o momento, de identificação dos seus algozes foi um atentado gravíssimo à Democracia, e não é possível dizer que setores de centro e de esquerda estejam envolvidos com tal violência. No momento, é a extrema direita, tanto no Brasil quanto no mundo, que defende valores não democráticos e mesmo emprega a violência contra seus supostos inimigos”.


Jornalistas também são alvo

Somente em 2018, foram registrado 128 casos de agressões a jornalistas durante trabalho em contexto eleitoral e político de acordo com Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Ainda segundo a Abraji, apenas neste ano foram registrados 58 casos de agressões físicas, que variam de agressões verbais, spray de pimenta no rosto, socos na orelha, hostilização, objetos atirados, cabeçadas e atentado a tiros.

A repórter da Rádio Bandeirantes Ana Nery foi agredida verbalmente e com uma cabeçada por um manifestante pró-Bolsonaro no domingo, 30 de setembro, durante o ato em apoio ao candidato à presidência pelo PSL na Avenida Paulista, em São Paulo.

Nesta quinta, dia 4, o candidato a deputado estadual pelo PSOL em SP relatou em sua conta no Facebook que foi agredido na rua. Todd Tomorrow disse ter levado um tapa na cara na região da Paulista apenas por estar com panfletos da campanha. “Acabei de levar um forte tapa na cara de um fortão que está com um grupo de marmanjos. Assim, do nada.”

Inúmeros são os casos de violência relacionados ao período eleitoral e outros contextos políticos e não sabemos assegurar que após as eleições irão diminuir. Além do mais, a democracia brasileira é relativamente jovem e tem muito a amadurecer e com ela os brasileiros também.

Infelizmente, não é possível ser otimista em relação à violência no Brasil, afirma o professor. “Em primeiro lugar, a violência comum, expressa sobretudo pelas altas taxas de homicídio em quase todo o país, continua sendo um problema extremamente grave, que só pode ser combatido com políticas de segurança consistente, associadas a amplos programas sociais. Esse debate pouco avançou entre os candidatos, sendo que inclusive muitos defenderam saídas simplistas e populistas para a questão.

Em segundo lugar, a vitória de Jair Bolsonaro – que com frequência defende o uso da violência contra adversários e minorias – pode estimular apoiadores e mesmo grupos que empregam a violência ilegal para fins criminosos a seguirem uma trilha de brutalidade.

Para o sociólogo, seria preciso um claro comprometimento de toda a classe política com os valores da Democracia, da República e dos Direitos Humanos. Afinal, justificar qualquer ato violento por conta de divergências políticas está longe de qualquer processo democrático, com respeito.

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