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Don L oferece mais uma dose de caos em 'Roteiro pra Aïnouz, Vol. 3'

O MC favorito do seu MC favorito voltou. No novo EP, inconformismo e poesia suficientes para mandar o mundo da música se foder.

por Paulo Marcondes; fotos por Felipe Larozza
23 Junho 2017, 3:00am

Foto: Felipe Larozza/VICE

Depois de quatro anos do lançamento da mixtape Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L, o rapper cearense agora radicado em São Paulo coloca nas ruas nesta sexta (23) o aguardado EP Roteiro pra Aïnouz Vol. 3. No começo da semana, o rapper já havia dado um gostinho do trabalho com o bonito clipe de "Laje das Ilusões". O disco, produzido pelo próprio Don e pelo Deryck Cabrera, chega cheio com participações: Diomédes Chinaski, Terra Preta, Nego Gallo, Fernando Catatau, Thiago França e Lay; além da co-produção de Leo Justi, DJ Caíque, Sants e Luiz Café . A direção artística ficou por conta do André Maleronka, que inclusive é editor-chefe aqui da VICE Brasil.

Você pode ouvir já o disco no player abaixo (ou no serviço de streaming de sua preferência).

Diferente de tudo o que está sendo feito no país (não é trap, não é boombap, não tem punchline que parece meme, não quer soar como banda), o primeiro disco da trilogia RPA apresenta um Don L inconformado e frustrado com o mundo, no significado mais abrangente da expressão: da mediocridade da música brasileira como um todo à solidão por não ter ninguém afim de virar o jogo ao seu lado. O álbum também reflete, sem-querer-querendo, o momento sócio-político caótico do Brasil.

É um pouco como no clássico A Última Noite do Spike Lee, mas troque os escombros do 11 de setembro pelas ruínas da política e do rap brasileiros. Nesse enredo, o Don L assume de novo, só que agora com mais raiva, o papel de artista do caos. "Foi muito louco o que aconteceu. Passei muito tempo reunindo condições de vida pra me mudar pra São Paulo, por causa das pessoas com quem eu trampo, mas eu cheguei no pior momento, aquele imediatamente depois do melhor momento. É como o cara que vai pronto pro jogo pra Meca, pra Babilônia, mas quando chega lá acabaram de botar fogo em tudo e a cidade está em chamas. No momento que eu ia começar de verdade a minha carreira, o rap e o país começaram a desmoronar", analisa o rapper.

RPA3 tem em seu título o nome do diretor cearense Karin Aïnouz, e muita gente ficou sem entender exatamente o porquê da referência. Ninguém melhor que o próprio Don para explicar a relação do disco com a obra do cineasta. "Ele tenta traduzir um inconformismo cearense, de ver as possibilidades que a gente tem e não se conformar com elas. O Céu de Suely tem essa coisa de ser estrangeiro em todo lugar, inclusive no lugar de onde você veio. Você vislumbra coisas maiores, pensa 'essa cidade não é suficiente pra mim, preciso ir embora', e, quando você vai, acaba se sentindo mais estrangeiro ainda. No fim, você será sempre um estrangeiro". Outro filme de Aïnouz serviu de inspiração temática pro Don. "O Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo, fala da vontade de ser alguém novo, uma outra pessoa, ter uma vida nova, com outra perspectiva, porque você está carregando coisa demais e essas coisas estão tentando te definir. Muitas vezes você quer se livrar do que você tá carregando pra saber quem é você mesmo", explica.

Don L no centro de São Paulo. Foto: Felipe Larozza/VICE

E como zé povinho é mato, muitas rimas do RPA3 vão certamente atiçar os ânimos dos isqueirinhos de treta. Logo nas primeiras faixas, "Eu Não Te Amo" e "Fazia Sentido", Don aponta a caneta (até nominalmente) pro próprio rap game, suas superficialidades e falácias de marketing. "São umas ideias pesadas que, se a pessoa não sacar, se ela não tiver o cuidado de tentar entender, ela pode analisar da forma mais pobre possível: 'eu sou foda e esses caras são menos', e isso não tem nada a ver com a realidade. Sou fã pra caralho do Emicida e do Criolo, acho os caras foda. Artisticamente, acho que eles construíram algo foda, mas eles também são reféns desse jogo que é viver e trabalhar dentro do contexto da música brasileira. O fato de ser fã dos dois não quer dizer que não posso em algum momento não concordar com o caminho que eles seguiram. Ou até concordar com eles, mas não com o que está em volta. A gente tá dentro de algo muito maior, que depende de muito mais gente", contemporiza.

A virulência do Don tem muito a ver com essa frustração que ele sente em relação à mentalidade da música brasileira em si. "Eu esperava muito mais. Não que eu fosse ingênuo: eu não tinha muitas ilusões, não sou um cara deslumbrado, só que quando comecei a entender mais como funciona esse mundo da música brasileira, passei a perceber que a palavra mais significativa é a mediocridade, é ela quem gere o bagulho todo. Talvez sempre tenha sido assim e eu não percebia, por estar de fora, mas quando você entra, você nota. Eu evito fazer julgamentos pessoais porque tudo tem um contexto. A gente vive num país de terceiro mundo, tem essa economia. Aqui é foda, o cara cospe no prato que tá comendo. Não se contenta em tirar 20% de uma verba pra botar na conta da Suíça, o cara quer deixar 20% pra fazer a obra e roubar os outros 80. No futuro, os filhos empresários dele ficam sem condições de fazer bons negócios porque aqueles 80% que ele roubou eram pra ter construído uma ferrovia e viabilizar um processo econômico mais amplo, então ele prejudicou o próprio bolso. Tudo é imediatista aqui, ninguém pensa a longo prazo", explica Don L, que vê esse pensamento dentro da música. "É a mesma coisa: as pessoas se conformam com a mediocridade e tem uma mentalidade de achar que o povo também é medíocre, 'vamo fazer o que o povo quer', que o povo gosta dessa música pobre mesmo, mas eu não acredito nisso. Acho que o bagulho é imposto de cima pra baixo. O povo gosta do que vem, do que tá disponível pra eles. Essa ideia é velha, acho que é a mesma ideia que as pessoas têm de que o capitalismo vai se autorregular e que a concorrência entre as empresas vai fazer com que elas sejam melhores, porque 'se eu deixar de comprar o café ruim pra comprar o café bom isso vai…'. Mas o que rola mesmo é um complô, é todo mundo fodendo com você. Então ou você tem pessoas que querem fazer a diferença mesmo, que vão pensar a longo prazo, que vão pensar 'eu quero fazer uma parada com substância' ou nada vai mudar nunca, se persiste o pretexto de que se faz o que funciona quando se vive num contexto."

RPA3 também tem uma homenagem ao Gato Preto, amigo do Don e integrante do clássico grupo de rap A Familia, que foi assassinado no ano passado. Em "Ferramentas", Don incluiu um áudio do rapper falando sobre liberdade. "'Ferramentas' foi um som que eu escrevi em um dia que tinha trombado o Gato Preto e trocado essas ideias de não se conformar com a realidade que a gente vive e querer fazer grandes coisas, de construir. Eu conheço o Gato Preto desde 2006, através do GOG, e ele era um maluco que me ligava falando 'esse som aqui, 'Vida Vadia', na Favela do Colombo é o hit', e até hoje, antes dele ir embora dessa, ele pirava nesse som. Toda vez que eu colava lá no Colombo ele botava pra tocar. Gato Preto é um maluco memorável mesmo, um gênio, que infelizmente não teve oportunidades suficientes pra mostrar pro mundo essa genialidade, mas quem estava próximo dele sabia."

Depois de "Ferramentas", o disco vira a chave. A sensação de estar sozinho no mundo, de inconformidade e de deslocamento dão espaço para a esperança, na maior representação do que é a vida: um grande círculo. "É esse momento de virada, 'uma coisa morre em você sempre para você conseguir seguir em frente'. É o que falo: 'Peguei uma dose de gim, deixei o meu amor e o troco', porque isso é pouco. Isso que eu tô achando que sou eu não pode ser eu, mas se for só isso mesmo, foda-se, não me importo. Você precisa se desfazer de algumas coisas pra dar um reset e manter o ciclo e é aí que vem a 'Laje das Ilusões'. Meio que um looping. Um looping infinito da vida."

Don L. Foto: Felipe Larozza/VICE

No papo mais técnico, a produção do RPA é uma parada à parte. Don mantém a sina de produzir as próprias faixas, assim como na mixtape Caro Vapor, mas dessa vez o papel dele foi um pouco diferente, mais para editor do que produtor. O seu parceiro Deryck Cabrera foi bastante importante nesse processo. "O produtor é o cara que tem a visão geral. O Deryck fez alguns beats e trampou isso comigo, do mapa geral, de como [o disco] está soando. Criar um beat é totalmente diferente de produzir uma música. Muitas coisas que eu pego de beatmaker às vezes eu mudo o timbre, mudo o timbre do bumbo, do baixo, faço outro bagulho em cima... Então o produtor é esse cara que tem que fazer a música funcionar, traduzir o sentimento da faixa. Um detalhe como um hi-hat e a equalização dele fazem toda a diferença, e o produtor tem que ter esse feeling. Entender e sentir o que a música passa."

RPA3, como já adiantamos, faz parte de uma trilogia, mas que começa no último capítulo. Os outros dois, ainda sem data de lançamento, falarão sobre a fase de transição do rapper e, no fim, falar de onde ele veio. A ideia com os três discos, revela Don L, é preparar o terreno para o futuro. "A ideia da trilogia é tornar o Don L acessível para todo mundo. Por isso eu estou criando de trás pra frente — porque se eu simplesmente fizer o que quero fazer agora, antes das pessoas saberem de onde eu vim, como foi chegar até aqui, elas não vão entender nada. Tudo o que tenho pra fazer é pós-RPA. É muita coisa, então preciso criar um terreno. Essa é a ideia."

Don L. Foto: Felipe Larozza