Meio Ambiente

O plano radical de trabalhar menos pra salvar o planeta

O movimento de decrescimento quer intencionalmente encolher a economia para abordar as mudanças climáticas, e criar uma vida com menos coisas, menos trabalho e mais bem-estar. Mas seria só uma fantasia utópica?

por Shayla Love; Traduzido por Marina Schnoor
05 Junho 2019, 10:00am

Annie Xing Zhao

Em 1972, uma equipe do MIT publicou The Limits to Growth, um relatório prevendo o que poderia acontecer com a civilização humana se a economia e a população continuassem crescendo. O que a simulação por computador deles descobriu é algo bem direto: num planeta com recursos limitados, crescimento infinito exponencial não é possível. Eventualmente, nossos recursos não-renováveis, como petróleo, vão se esgotar.

Historicamente, consideramos crescimento uma coisa positiva, sinônimo de segurança empregatícia e prosperidade. Desde a Segunda Guerra Mundial, o medida de produto interno bruto (PIB) tem sido usada como “a medida definitiva para o bem-estar geral de um país”. Um dos economistas do John F. Kennedy's, Arthur Okun, teorizou que para cada aumento de 3 pontos do PIB, o desemprego cairia um ponto percentual – uma das razões para campanhas presidenciais dos EUA se fixarem na medida.

Mas crescimento levou a outros problemas, como aquecimento global por emissões de carbono, clima extremo e perda de biodiversidade e produção agrícola. Consequentemente, alguns ativistas, pesquisadores e legisladores estão questionando o dogma de que crescimento é sempre bom. Esse ceticismo levou ao movimento de decrescimento (degrowth), que diz que o crescimento da economia está inextricavelmente ligado a um aumento das emissões de carbono. Ele pede uma redução dramática no uso de energia e materiais, o que inevitavelmente encolheria o PIB.

O Green New Deal, popularizado pela política americana Alexandria Ocasio-Cortez, busca diminuir as emissões de carbono investindo na indústria da energia renovável. Mas o movimento de decrescimento acredita que precisamos levar isso além, criando um levante social que desembarace a ideia de progresso da de crescimento econômico de uma vez por todas. Esse novo cálculo de sucesso econômico focaria no acesso a serviços públicos, uma semana de trabalho mais curta e aumento do tempo de lazer. Essa abordagem, eles dizem, não só combateria as mudanças climáticas, mas nos libertaria da cultura workholic onde tanta gente sofre para simplesmente sobreviver.

Ativistas, pesquisadores e legisladores estão questionando o dogma de que crescimento é sempre bom.

O movimento de decrescimento hoje tem suas raízes na França: No começo dos anos 2000, o professor de economia antropológica da Universidade de Paris-Sud Serge Latouche começou a escrever fervorosamente sobre décroissance no Le Monde Diplomatique. Mesmo prestando homenagem ao Limits to Growth, o décroissance expandiu o conceito. A questão não é mais se há um limite para o crescimento. A nova pergunta é muito maior: Como podemos impôr um limite para o crescimento quando toda nossa estrutura econômica e política é baseada nele? Como organizamos uma sociedade para fornecer altos níveis de bem-estar humano no contexto de uma economia que está encolhendo?

Decrescimento agora é uma palavra-chave nos círculos da esquerda e acadêmicos no mundo todo; seus defensores são economistas, ambientalistas, social-democratas e ativistas, jovens e velhos. Eles veem um mundo pós-crescimento como um jeito de mudar fundamentalmente como medimos sucesso e bem-estar, e assim abordar nosso crescimento financeiro e desigualdades sociais enquanto também salvamos o planeta.

Essa visão interessante do futuro está ganhando terreno. A primeira conferência internacional de decrescimento foi em 2008 em Paris e atraiu cerca de 140 pessoas, e outras cinco conferências foram realizadas desde então. Na conferência de pós-crescimento de 2018, a audiência foi de 700 pessoas. O número de artigos acadêmicos e livros sobre decrescimento também está aumentando, e em 2018, 238 acadêmicos assinaram uma carta publicada no Guardian pedindo que um futuro pós-crescimento seja levado a sério.

Mas como nossa economia é baseada em crescimento há tanto tempo, não é o suficiente apenas puxar o freio de emergência, disse Giorgos Kallis, um cientista ambientalista e ecologista político da Universidade Autônoma de Barcelona, e autor do livro Degrowth. Para desacelerar a economia sem cair no caos, ele disse, temos que reconfigurar nossas ideias sobre todo o sistema econômico.

É assim que os defensores do decrescimento imaginam o processo: depois de uma redução no consumo de material e energia, que vai contrair a economia, também é preciso acontecer uma redistribuição da riqueza existente, e uma transição da sociedade materialista para uma cujos valores são baseados em estilos de vida mais simples, e trabalhos e atividades não-remunerados.

Decrescimento significaria ter menos coisas: menos gente trabalhando e produzindo materiais, menos marcas nos supermercados, menos fast fashion, e menos bens baratos e descartáveis. Famílias teriam um carro em vez de três, você pegaria um trem em vez de um avião nas férias, e tempo livre não seria preenchido por compras, mas atividades sem gasto de dinheiro com os entes queridos.

Na prática, isso também exigiria um aumento de serviços públicos gratuitos; as pessoas não têm que ganhar tanto dinheiro se não precisam gastar com saúde, habitação, educação e transporte. Alguns degrowthers também pedem uma renda universal para compensar por semanas de trabalho mais curtas.

As pessoas podem viver um estilo de vida de decrescimento hoje comprando menos coisas, mas no final das contas é um desafio se comprometer com o decrescimento sem esses serviços públicos já inseridos no modelo. No momento, nosso trabalho, lazer e qualidade de vida no geral são ditados em termos de consumo. Trabalhar menos, ganhar menos e reduzir o uso de materiais provavelmente terá um impacto negativo na qualidade de vida da maioria das pessoas agora, a menos que a sociedade atenda essas necessidades.

Como há poucos exemplos da vida real de decrescimento, Kallis usou uma utopia fictícia para explicar o conceito num artigo de 2015. Ele fez referência ao planeta Anarres, do livro Os Despossuídos de Ursula K.Le Guin – uma sociedade que tem recursos modesto, mas que através de sua estrutura igualitária é um lugar mais justo e significativo para viver, comparado com o planeta mais capitalista próximo, Urras.

“É como imaginamos uma vida boa”, disse Kallis. “Uma vida mais simples, não uma vida onde continuamos produzindo mais e mais, correndo mais e mais, tendo mais e mais produtos para escolher.”

Críticos do decrescimento dizem que isso é mais uma ideologia do que uma maneira prática de avançar – que encolher a economia inteira não derrubaria os níveis de carbono a zero, e considerando a distribuição de renda desigual que já existe, contrair a economia poderia tirar necessidades essenciais como energia e comida de quem mais precisa.

“É como imaginamos uma vida boa.”

Robert Pollin, professor de economia da Universidade de Massachusetts Amherst e codiretor do instituto de pesquisa econômica e política lá, disse que mesmo compartilhando muitos dos sentimentos do movimento de decrescimento, ele discorda fundamentalmente de que tal sistema pudesse funcionar, pelo menos no período em que precisamos que funcione.

Pollin disse que é verdade que reduzir o PIB poderia diminuir emissões, mas não tanto assim. Contrair a economia em 10% reduziria emissões em cerca de 10%. Economicamente, isso seria duas vezes pior que a Grande Depressão – em outras palavras, alto potencial de risco social por apenas 10% de redução em CO2.

Para derrubar as emissões para zero seria preciso um tipo de “decrescimento”, mas voltado especificamente para consumo de combustível fóssil. “Não quer dizer que precisamos de um decrescimento em tudo”, disse Pollin. “Precisamos decrescer a indústria de combustível fóssil para zero, mas expandir imensamente nossos sistemas de energia limpa, investimentos em energia renovável e eficiência energética”. Basicamente o que é o Green New Deal: um impulso para aumentar o uso de energia renovável enquanto eliminamos combustíveis fósseis, e incluindo um esforço para criar uma transição justa para as pessoas que trabalham nesse setor.

Para Pollin, mesmo isso seria uma melhora radical. Um plano para zero emissão de carbono em 30 anos significa fechar uma das indústrias mais poderosas do mundo. Ele acha que isso já é ambicioso o suficiente sem tentar implementar outras mudanças sociais mais amplas.

“Levando a ciência climática a sério, só temos algumas décadas para fazer um grande progresso”, disse Pollin. “E gostando ou não, não vamos derrubar o capitalismo nesse meio tempo.”

Decrescimento pode refletir mais do que um desejo de minimalismo.

Os EUA poderia ser convencido a decrescer? A recente Yale Climate Survey descobriu que mais da metade dos americanos, mesmo em estados que votaram no Partido Republicano, concordam com a afirmação de que proteção ambiental é mais importante que crescimento econômico.

Sam Bliss, um estudante de Ph.D. em recursos naturais da Universidade de Vermont e membro do coletivo DegrowUS, disse que, culturalmente falando, a popularidade de figuras como Marie Kondo – a estrela da Netflix que encoraja as pessoas a se livrar de objetos que não trazem alegria – revela um sentimento crescente de que nos tornamos materialistas demais.

Um impulso para o decrescimento pode refletir mais do que apenas um desejo de minimalismo, mas também fadiga num sistema onde o crescimento não representou muitas vitórias para muita gente. Fora acesso a mais bens baratos, as pessoas entendem que os benefícios do crescimento não são distribuídos igualmente. Em 1965, CEOs ganhavam 20 vezes mais que um trabalhador típico, mas em 2013, eles ganhavam 296 vezes essa quantia. De 1973 a 2013, os salários por hora aumentaram apenas 9%, mas a produtividade aumentou 74%. “Isso significa que os trabalhadores estão produzindo muito mais do que recebem em seus salários e pacote de benefícios de seus empregadores”, escreveu o Economic Policy Institute, uma think tank de economia.

Mesmo em períodos de crescimento geral, millennials são rotulados como a “geração burnout”. Muitos sofrem para encontrar e manter um emprego, não acham moradias que podem pagar, não conseguem pagar por tratamento médico, e estão descobrindo que seus salários não são suficientes para cobrir os custos de vida.

No meio de tudo isso, decrescimento oferece um mundo onde o barulho da mercantilização diminui, onde valor próprio não é enraizado em valor monetário, e onde você não precisa trabalhar até a total exaustão para acessar necessidades básicas.

Isso não quer dizer que decrescimento é necessariamente a estratégia mais eficaz para cortar nossas emissões de carbono no prazo em que precisamos, mas o movimento em si levanta questões importantes sobre como medimos nosso sucesso como sociedade.

“Colocando de maneira coloquial, mais coisas não significa automaticamente mais bem-estar ou, mais coloquialmente ainda, mais felicidade”, disse David Pilling, autor de The Growth Delusion: Wealth, Poverty, and the Well-Being of Nations, numa entrevista para o Washington Post. Ele ofereceu o exemplo do sistema de saúde americano. Ele contribui com 17% do PIB, que é muito mais do que outros países gastam – mesmo que muita gente vá concordar que outros sistemas de saúde são melhores.

O PIB também ignora trabalho invisível onde não há troca monetária, como trabalho doméstico – geralmente realizado por mulheres e pessoas marginalizadas. “É engraçado que se eu roubou seu carro e vendo, isso conta como crescimento, mas se cuido de um parente idoso ou crio três crianças saudáveis, não conta”, Pilling disse na entrevista.

Talvez haja uma lição a aprender do decrescimento que tem mais a ver com os jeitos fundamentais como vivemos do que com política. Como Jason Hickel, antropologista da London School of Economics, escreveu, decrescimento pede “florescimento humano”. Associamos crescimento com ser capaz de resolver problemas sociais, como erradicar a pobreza, melhorar a vida e garantir empregos para todos, disse Hickel, mas isso não está funcionando.

“Por que quando se trata de sistema econômico, estamos convencidos de que esse é o único caminho?”, ele disse. “É ridículo. Acho que precisamos parar de nos sujeitar a esse sistema e reconhecer que precisamos evoluir um melhor.”

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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