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Entretenimento

O que aprendi no 'debate' entre Jordan Peterson e Slavoj Žižek

Žižek foi menos um pensador experiente e mais um derrubador de vacas sagradas patológico. Peterson foi o bardo da elite reacionária e emo pacas.

por Jordan Foisy; Traduzido por Marina Schnoor
25 Abril 2019, 10:00am

Screenshots via YouTube.

Às 20h eu estava no Sony Center de Toronto esperando o começo do que estava sendo chamado de “o debate do século” entre Slavoj “Achei essa camiseta na rua” Žižek e Jordan “Por que dar gorjeta se o serviço foi ruim” Peterson, quando ouvi por acaso uma péssima notícia.

“Desculpa”, perguntei para o cara atrás de mim, “você disse que o debate vai durar duas horas e 40 minutos?” Ele fez que sim com a cabeça.

Enquanto um olhar de horror descia sobre o meu rosto, ele tentou me confortar: “Como está atrasado, acho que eles vão pular algumas partes e terminar umas 22h15, mas está marcado para 2 horas e 40 minutos”.

Duas horas e 40 minutos! Que é isso? Um documentário do Ken Burns sobre estragar festas? Tinha gente no público que tinha feito menos horas de sexo na vida do que o tempo que o debate ia durar. Especialmente o cara algumas fileiras atrás de mim, usando um boné MAGA e uma camiseta do Joy Division, que tinha uma vibe “Fui expulso do Reddit”.

Caramba, eu tinha um plano. Eu queria assistir o Gran Prix Mental 2019 Žižek/Peterson (título oficial: “Felicidade: Capitalismo versus Marxismo”) porque queria ver o fandom de Peterson em seu elemento. Quem são esses caras? O que eles tiram de ouvir os meandros ofendidos do príncipe das trevas do YouTube? Eles tinham costeletas embaraçadas ou aparadas e eficientes? Ao mesmo tempo, meu irmão estava visitando a cidade e meu time do coração, os Raptors, que é meu lastro emocional atualmente, ia jogar. Eu achava que o debate ia durar tipo uma hora. A ideia era fazer um rascunho de personagem breve de alguém que passa o dia inteiro jogando Axis & Allies, zoar o jeitão esloveno do Žižek, depois voltar pra ver o final do jogo com meu irmão, fortalecendo nossos laços gritando com jogadores de basquete milionários na TV.

Saber que o debate era mais longo que Guerra Infinita (mas felizmente mais curto que Ultimato) não foi a primeira decepção daquela noite. Eu estava esperando gente estranha no público: esquisitões de olhos esbugalhados com camisetas de manifestos da alt-right e solitários iludidos de aparelho de cabresto e colares vergonhosos. E sim, tinha um ou dois tipos de calça cargo camuflada que pareciam mágicos amadores no local, mas a plateia mesmo era perturbadora por uma razão totalmente diferente: as pessoas eram normais.

Como um conhecido com quem topei lá descreveu “Todo mundo aqui parece com a gente”. Era uma plateia jovem e descolada, vestida como se fosse sair pra balada. Óculos de aro transparente, cortes de cabelo legais, sapatos engraxados, baristas que eu reconhecia – podia muito bem ser um show do War on Drugs. Também tinha um número surpreendente de pessoas em encontros. Ouvi um casal discutindo na fila; ele implorando para ela para pelo menos manter a mente aberta. Também tinha uns casais mais velhos de ricos, vampiros endinheirados recarregando seu cachê cultural. Não era um encontro de comunistas esfarrapados ou caras doidos da alt-right, não, era o que poderia se passar pela elite de Toronto: os belos, educados e privilegiados.

Isso não quer dizer que não tinha algo sinistro no ar. Na entrada, um grupo de caras bombados começou a falar sobre se haveria agitadores. Um deles ficava me olhando para ver o que eu estava escrevendo no meu caderno. Enquanto boa parte do público estava lá por curiosidade intelectual ou, pelo menos, irônica, os fãs de Peterson começaram a se destacar. Uma característica fácil de notar, como um amigo apontou, era a postura: caras com a coluna reta como se tivessem levado um tapa de costa de mão de uma freira mal-humorada. Um fenômeno estranho é como muitos deles se vestem como Peterson; gravata e blazer, calça skinny ou jeans escuro terminando em sapatos lustrosos de bico fino. Peterson e seu rebanho se vestem como me vesti da primeira vez que fui num casamento depois de receber um aumento no trabalho, tipo “Olha, sei me vestir bem, OK, olha meu sapato de bico fino”.

Enquanto muitas pessoas pareciam estar se divertindo normalmente, também tinha uma seriedade meio perturbadora entre os seguidores de Peterson. Isso estava nos olhos deles, igualmente impassíveis e vulneráveis. Eles estavam cheios de uma antecipação vazia, prontos para serem enchidos de propósito e ação. Talvez eles me incomodaram porque foi a primeira vez que testemunhei como um crente parecia.

Sentei no meu lugar. Tive que pedir licença para dois caras, o arranjo mais comum de pessoas que vi naquela noite, para poder passar. Eles foram educados. Na minha frente tinha um casal, o braço dele nos ombros dela de um jeito quase violento, como se ele estivesse tentando absorver a moça. Um anúncio no alto-falante disse que quem fosse importuno seria retirado imediatamente do auditório. Isso rendeu gritos de aprovação do público, os caras educados do meu lado participando. Dava pra imaginar os bombados que vi antes estralando os punhos, pensando em como iam remover agitadores.

Um homem chamado Stephen Blackwood, filósofo, defensor da esfera privada e talvez um lobisomem aristocrata, veio apresentar os debatedores. Os chamando de “figuras imponentes”, Blackwood prometeu ao público “pensamento real sobre questões difíceis”, que foi exatamente o que ouvimos, se por “pensamento real” ele queria dizer “divagações de ego” e por “questões difíceis” Peterson não sabendo de que livros o Žižek estava falando. No debate, Peterson pareceu o tipo de cara que compra livros que parecem impressionantes, mente que leu todos, mas na verdade só assiste Game of Thrones.

Fora o vácuo de referências, o contraste entre os dois não poderia ser mais aparente. Vestido como um cosplay de John Wick, Jordan Peterson sentou na frente de um notebook aberto e algumas garrafas de San Pellegrino, com as pernas cruzadas e os dedos esticados no queixo, uma pose que parecia dizer “Estou pensando muito seriamente agora”. Quando falava, ele andava de um lado para o outro do pódio, gesticulando com os dedos no ar, ou curvado, com o rosto endurecido pelo tormento, como se as maravilhas de suas ideias fossem demais para um simples homem suportar.

Žižek, enquanto isso, tinha toda a graça e estilo de um pai de sitcom dos anos 90. Entediado e sentado todo torto, com um calcanhar branco permanentemente exposto pela barra da calça, eu podia apostar que tinha alguma mancha de pasta de dente nele. Ele também foi inegavelmente carismático e charmoso de um jeito que Peterson não é (até Peterson admitiu isso, dizendo em certo ponto “Você é um personagem... é o que te torna atraente”, rendendo risinhos na plateia ao meu redor). Com a língua passando pela boca como um furão ensandecido, Žižek ganhou a plateia com uma combinação de piadas de tiozão esloveno, autodepreciação e irreverência. Os aplausos e risadas mais longos foram dele por toda aquela noite.

Não foi um debate realmente. Pra isso seria necessários que pontos tivessem sido feitos. Em vez disso, Žižek falou livremente sobre uma variedade de ideias vagamente relacionadas: o modelo social chinês como uma síntese da tirania e capitalismo; como a crença em Deus, num projeto maior ou moralidade permite que os homens façam as piores coisas; citações ocasionais de Himmler; como felicidade nunca deveria ser um objetivo; a crise ecológica iminente que também pode não acontecer porque a Europa tem mais florestas que nunca agora; a praga do politicamente correto como um sinal de fraqueza da esquerda; a covardia do otimismo e o mal interior intransponível do homem. Žižek foi menos um pensador experiente e mais um chutador de santos patológico. O principal objetivo dele parecia ser provocar e esperar os aplausos.

Mas pelo menos ele disse coisas interessantes. Peterson, enquanto isso, foi completamente vazio. Ele tocou seus grandes hits: hierarquia é natural; valores e mitos judaico-cristãos representam verdades fundamentais; capitalismo está melhorando as coisas para os pobres; um dos maiores obstáculos do Ocidente são as taxas de divórcio subindo. Foi como assistir uma aula de Introdução de Economia de um cara que experimentou peiote exatamente uma vez. Ele fez alegações ridículas tipo ninguém nunca teve poder através de explorar pessoas (isso depois de se gabar que os ingressos pro evento estavam sendo vendidos mais caro que ingressos para o jogo do Leafs por cambistas). Ele negou o aquecimento global de passagem, dizendo que a crise “...é sinistra, mas não tão sinistra quanto as pessoas estão dizendo”. Ele disse que lucro é um excelente motivador porque desencoraja as pessoas a agir estupidamente, para um salão cheio de gente que pagou (vi ingressos sendo revendidos por mais de 400 paus) para ouvir ele falar. Ele criticou Marx por ignorar o trabalho glorioso dos gerentes. Em certo ponto, ele disse com 100% de sinceridade: “Para tranquilizar as ovelhas, você convida o dragão pra sua casa”. Alguém pode doar uma coleção de espadas pro cara deixar a gente em paz?

Mas a principal coisa que tirei de Peterson é que o cara é emo pra caralho. Para Peterson, o sofrimento humano não é um produto da sociedade ou da economia. Não, é um estado inerente do ser. Nascemos no sofrimento; ser humano é estar constantemente em guerra com o mal que reside em todos nós e a dor que existe fora de nós. De novo e de novo, ele mencionava o mal que precisamos superar. Ele reiterou continuamente uma visão da vida como um aguaceiro de tristeza em miséria. Tudo muito My Chemical Romance, e eu não ficaria surpreso se ele tiver uma tatuagem “Life Is Pain” em algum lugar.

Com tudo isso, acho que é essa teoria de vida aprovada por Bert McCracken que atrai as pessoas para Peterson – a razão para ele ter se tornado o bardo da elite reacionária. Se você é um dos privilegiados, Peterson está aqui para proteger seu glorioso sofrimento de qualquer agitador que tente questioná-lo. Ele valoriza sua dor, ela é válida como a de qualquer pessoa. Para Peterson, a única luta política que importa é contra seus demônios pessoais. Essa visão de vida achata tudo e passa pano para a injustiça. Opressor ou oprimido, rico ou pobre; são categorias sem sentido. Tudo o que importa é sua opinião sobre seu belo e mítico sofrimento. Essa é a coisa mais importante, com certeza mais importante do que perguntar se você é parte do problema.

Acho que isso é tudo que tenho pra dizer, eu devia ter ficado em casa com o meu irmão, gritando com os jogadores de basquete. Se vou sofrer mesmo é melhor que seja divertido.

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Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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