Por dentro do bar de 'Rick and Morty' que só durou uma noite incrível

Iniciando os trabalhos? Encerrando os trabalhos.

por Beckett Mufson; Traduzido por Marina Schnoor
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ago 21 2018, 12:06pm

John, 32 anos, e Daniel, 32. Fotos pelo autor e Justin Gellerson.

O bar pop up temático de Rick and Morty Wubba Lubba Dub Pub fechou de vez na sexta-feira passada depois de funcionar por apenas um dia. A Turner Broadcasting mandou uma notificação extrajudicial aos cocriadores do bar, a Drink Company, e exigiu que eles destruíssem toda a decoração feita para o espaço ou pagassem uma taxa de licenciamento de US$ 100 mil [em torno de R$ 400 mil na cotação atual].

O presidente da Drink Company Derek Brown disse a VICE que a ação legal foi inesperada. “Uma taxa de licenciamento de seis dígitos. Como uma coisa de arte feita por fãs, não podemos pagar US$ 100 mil”, ele disse. “Isso pode fazer sentido para uma empresa de camisetas ou uma parceria de longo prazo, mas ficou claro que a ação foi pensada para nos fechar.”

O Wubba Lubba Dub Pub era uma gota num oceano de homenagens de fãs a Rick and Morty, de broches e cachimbos a fanfic e exposições de arte, mas o Adult Swim parece ter colocado o limite nesse pop up. “Não podemos garantir que essa experiência atenda nossos padrões para os fãs, que não queremos desapontar”, a companhia escreveu numa declaração no sábado. Mas é uma pena, porque visitei o bar na quinta, que por acaso foi a única noite em que ele ficou aberto ao público, e ninguém lá parecia decepcionado. Na verdade, espaços assim são exatamente o que fãs de Rick and Morty precisam.

Foto por Justin Gellerson

O bar estava lotado de fãs em cosplay e pessoas que nunca assistiram Rick and Morty. As fotos não fazem justiça a sensação de estar completamente imerso nos ovos de Páscoa que cobriam o bar de cima a baixo. Alguns eram grandes, como a cabeça animada do Cromulon de “Get Schwifty” gritando “Me mostre os que vocês têm!” Outros eram mais sutis, como um desenho de capacete que parecia aquele do “Morty's Mindblowers” quando você colocava num drinque em cima. Também tinha os inescapáveis, como um modelo de sete metros de Ruben, o Papai Noel mendigo cujo corpo nu cobria os EUA em “Anatomy Park”. A trilha sonora também usava músicas e remixes da série para completar a atmosfera sci-fi.

Grande parte da equipe que construiu o bar estava lá, conversando com fãs e curtindo os frutos de seu trabalho. Adriana Salame-Azpiazu ficou com os Meeseeks de 2 metros costurado à mão por sua mãe (que não assisti o desenho), enfiados em seu apartamento por semanas. Sempre que falava deles, ela usava a incansável frase deles “Posso fazer!” Andrew Funk, o artista de grafite que desenhou vários personagens, do Morty ao Pencilvester, me falou sobre passar dias recriando o portal de Rick colando discos de espelho nas paredes.

Jimmy, 31 anos e Hillary, 28.

Todos os fãs com quem falei disseram ter conhecido pelo menos uma pessoa nova, e estavam eletrizados com o nível de detalhe colocado no espaço. “Eu não sabia o que esperar, mas seja lá o que eu tinha em mente, esse bar superou minhas expectativas”, disse Jimmy, 31 anos, que veio vestido de Morty do Mal. “Estou chocado que eles tenham feito tudo à mão.”

A vibe era barulhenta mas relaxada. Ouvi conversas inteligentes e bestas. Ninguém subiu no balcão do bar para gritar pedindo molho szechuan.

O capacete que ficava parecendo o do episódio "Morty's Mindblower" quando você colocava um drinque em cima era um dos ovos de Páscoa mais sutis do bar.

Colegas já escreveram sobre suas interações negativas com fãs de Rick and Morty, de dates ruins a gente escrota nos eventos de merchandising. Eles ligaram essas interações ao tipo de espectador pentelho que o cocriador Dan Harmon condenou depois que um grupo assediou anonimamente roteiristas mulheres de Rick and Morty durante a temporada três. O Wubba Lubba Dub Pub era o oposto desses fóruns online sem rosto, de onde fãs anônimos coordenaram aquele ataque. “Quando a coisa é real e ao vivo, é difícil ter o tipo de comportamento tóxico que você encontra online”, disse Brown. “Criar espaços seguros para os fãs se encontrarem e falarem sobre a série, é sobre isso que é este lugar.”

Se isso é ou não uma rede positiva para os fãs não era a preocupação para o Adult Swim. A declaração deles dizia que eles não foram contatados pelo bar antes, o que “não é muito educado” e também ilegal.

Mas esse não foi o caso, segundo Brown, que diz que informou a rede sobre o bar, mas que não recebeu resposta até o aviso de cease-and-desist menos de uma semana antes da inauguração original marcada para 9 de agosto. Eles adiaram a inauguração por uma semana, oferecendo isenção de responsabilidade, doar todos os lucros para a caridade e pagar uma taxa de licenciamento justa que permitisse compensar a equipe. Um acordo parecia possível até um pouco antes do bar ser fechado na sexta. “Não fizemos nada de errado”, disse Brown. Ele e seu advogado, John Mason, acreditam que o bar está protegido por leis de uso justo, mas foram obrigados a fechar porque a Turner pode gastar bem mais que eles num tribunal. A Drink Company teve que dispensar seus atendentes e bancar os custos de manter o lugar por mais oito semanas.

Foto por Justin Gellerson.

Acabar com bares pop up de fãs é uma atividade nova para empresas de entretenimento tentando proteger sua propriedade intelectual. A Netflix fechou um bar temático Stranger Things ano passado, e a LEGO obrigou um boteco temático dos bloquinhos a mudar de nome. Mas a lei cercando esses empreendimentos de tempo limitado ainda é nebulosa. Às vezes as redes deixam eles acontecerem.

A Drink Company teve relações cordiais com os donos do copyright de seus bares anteriores. A HBO permitiu que o bar pop up de Game of Thrones deles terminasse seu curto funcionamento em 2017, e até fez parceria com eles para doações para a caridade. Brown disse que um representante da Nintendo passou no bar temático do Mario deles e simplesmente disse “Bom trabalho”. Brown apontou a ironia de que a série que finalmente mandou um aviso de cease-and-desist para eles ser originalmente uma paródia de De Volta Para o Futuro, que o cocriador Justin Roiland fez “para tirar sarro da ideia de receber avisos de cease-and-desist”.

Está claro que o aviso de cease-and-desist emitido pelo Winterfeldt IP Group não é piada para o Adult Swim, mas o tom do aviso até que era fofo. A carta de Brian J. Winterfeldt mencionava a coleção de pogs do Morty Advogado, a TV a cabo interdimensional e o Conselho de Ricks, antes de dizer que o bar violava leis de copyright, leis de marca registrada, diluição de marca registrada e leis de competição injusta. Winterfeldt ameaçava levar os violadores “diante do Juiz Morty Durham Jr.” – personagem de uma leitura de Roiland da transcrição de tribunal “Judge Fuckman”, que viralizou em 2016.

Austin, 24 anos.

Sobre a decisão de desistir do bar, Brown disse: “Ficamos tristes. Esse é um trabalho de muito amor. É algo muito especial. Os itens foram feitos à mão. Não são apenas cópias das coisas de Rick and Morty, é uma decoração feita pelos fãs, é de fato uma 'fanart'. Dizer aos fãs que fizeram isso que eles precisam destruir sua própria arte é triste.”

Apesar do revés, Brown continua ansioso pela quarta temporada de Rick and Morty. “Claro que estou”, ele disse. “É um desenho incrível.”

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