arte

Exposição 'Histórias Afro-Atlânticas' traduz a subjetividade negra em imagens

Tomie Ohtake e MASP dividem o acervo e programação da mostra, que trata das condições pré e pós-escravização do negro nas Américas.

por Amanda Cavalcanti
31 Julho 2018, 10:00am

Sem título, da série 'Carnaval', 1972. Foto por Carlos Vergara.

A primeira obra visível da exposição Histórias Afro-Atlânticas, no primeiro andar do Museu de Arte de São Paulo (uma parte da exposição se encontra também no Instituto Tomie Ohtake) é um mural em que diversas figuras são reconhecíveis. Do lado direito inferior, James Brown canta para o público ao lado de uma foto famosa de Nina Simone. Acima deles, Jean-Michel Basquiat senta sobre seus próprios desenhos. Algumas outras imagens também são familiares, por mais que não com rostos tão famosos: a imagem de uma mulher negra levantando uma faca ao pescoço de um policial branco, duas mulheres gêmeas de mãos dadas segurando facões.

A obra foi batizada Éramos as cinzas e agora somos o fogo, em homenagem a um verso do rapper carioca BK' na canção “Quadros”, e foi realizada pelo conterrâneo Maxwell Alexandre, de 28 anos. A obra não é a única, porém, cujas imagens cutucam a memória recente de um jeito não-passivo. Study for Portrait of Obsession, de Benny Andrews, mostra um garoto negro com a camiseta ensanguentada; a pintura Conversation mostra três mulheres jamaicanas com adereços na cabeça e baldes d'água ao lado pelos olhos do artista Barrington Watson.

'Éramos as cinzas e agora somos o fogo', da série 'Pardo é papel', 2018. Por Maxwell Carvalho.

Isso acontece porque Histórias Afro-Atlânticas surge num momento da arte em que diversas movimentações estéticas buscam captar a subjetividade de homens negros e mulheres negras em seu tempo. “Sem dúvida a exposição, em sua totalidade, aborda uma produção em que o negro não é mais visto como objeto e, sim, como sujeito. Os artistas negros são os protagonistas, criando suas próprias narrativas”, fala Ayrson Heráclito, curador convidado da exposição. Junto a Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, e Lilia Schwarcz, curadora adjunta para histórias do MASP, Heráclito, que é artista plástico e professor de performance da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ajudou a curar as peças que foram expostas no Museu de Arte de São Paulo e no Tomie Ohtake.

O traço mais especial da exposição, segundo o curador, é que a grande maioria dos artistas expostos são negros. “São poucos os artistas não-negros e, quando eles aparecem, tem como objetivo a problematização. Por exemplo, a obra do escultor branco Mario Cravo Júnior está entre os artistas negros Agnaldo dos Santos, que foi seu assistente e conquistou na escultura em madeira um classicismo estético que combinava a ‘fine art’ nigeriana e a tradição dos mestres carranqueiros do rio São Francisco, e Mestre Didi, que se transformou em um grande compositor de orikis visuais contemporâneos. Neste contexto, tencionamos leituras que deslocam as hierarquias tradicionais do sistema de arte brasileira oferecendo outras percepções e rotas.”

Outro destaque da exposição é que ela destoa em formato das mostras que geralmente são exibidas no MASP. Além das tradicionais pinturas e esculturas, a exposição conta com fotos e vídeos que ampliam a discussão do tema. Histórias se assimila às exposições de arte contemporânea que costumam acontecer em espaços como o Sesc Pompeia. No primeiro andar da mostra no MASP, chama a atenção um vídeo exibido em loop numa televisão, de autoria do youtuber Spartakus, em parceria com AD Junior e Edu Carvalho, sobre como sobreviver a uma abordagem indevida da polícia durante a intervenção militar no Rio de Janeiro.

“As linguagens artísticas atravessam a historicidade nas obras. Temos diversas temporalidades e suas estratégias de materialização artística, desde técnicas mais tradicionais das belas artes até linguagens mais atuais e tecnológicas. Isso é bom pois desconstrói estereótipos e expectativas sobre as artes afro-atlânticas”, fala Heráclito.

Outra obra que salta aos olhos imediatamente é uma fotografia de quatro homens negros em um abraço, clicada pelo francês Vincent Rosenblatt durante um baile funk no Rio. Rosenblatt fotografa bailes desde 2005, quando se mudou para o Rio de Janeiro para dar aula para jovens fotógrafos na favela de Santa Marta. Ele descobriu o Baile do Boqueirão, perto do Aeroporto Santos Dumont, pouco tempo depois. A foto foi tirada em um desses bailes durante uma música do MC Gorila cujo refrão implica que você “agarre” os amigos mais próximos. “As minhas fotografias são o resultado de uma convivência, troca, amizades nascidas nos bailes e nos rolês, mas também fora deles — desenvolvidas ao longo dos anos. Fotografo as pessoas que amo e admiro, grande parte dançarinos ou frequentadores protagonistas dos bailes e festas pretas”, fala Vincent.

Baile do Boqueirão do Passeio - Rio Baile Funk #22 (2006). Foto de Vincent Rosenblatt

O fotógrafo, ainda, destaca a importância do funk como uma vertente vital dentro das diversas identidades negras da juventude do Brasil. “As batidas, a corporalidade, a celebração coletiva do funk são encarnações contemporâneas de uma ancestralidade. Proibir ou tentar cercear o ritmo e suas celebrações (bailes, fluxos) são atentados aos direitos civis de um povo usufruir da cultura por ele criada.”

Enquanto alguns artistas tentam compreender o presente como uma continuação do passado, alguns buscam fazer sentido dos tempos atuais por meio de uma reconstrução histórica. Jaime Lauriano é um paulistano cuja arte é uma tentativa de cartografar a história da violência no Brasil. “É pensar como o Estado brasileiro e a sociedade brasileira foram formados através de processos de partilha de uma violência, no sentido de que desde a colonização e da invasão portuguesa no Brasil, uma das poucas ou a única possibilidade de partilha de um espaço comum no país foi através das disputas violentas por terra”, explica.

No Festival de Arte Contemporânea do Sesc Pompeia, ao fim de 2017, Lauriano expôs Morte Súbita, vídeo que tensiona as relações entre a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970 e a severa ditadura militar. Para Histórias, o artista trouxe o trabalho Pedras Portuguesas, série de esculturas com o material que formam o nome dos países Angola, Moçambique e a antiga Costa da Mina. Esse tipo de calçamento português está presente em quase todas as colônias do país ao longo da história, como um assentamento da colonização desses territórios e fazem parte de suas identidades — o calçadão de Copacabana no Rio de Janeiro, por exemplo.

'Pedras Portuguesas #1' (2017), de Jaime Lauriano. Foto por Filipe Berndt.

Com Pedras, Lauriano quis verificar como a violência da colonização foi atualizada para tempos modernos. Os calçamentos foram ficando velhos com o passar do tempo e as pedras foram se soltando. “E muitas dessas pedras eram utilizadas pra duas coisas: primeiro para os pedestres se defenderem em manifestações, atirando elas contra os bloqueios e as ofensivas da polícia, e segundo sendo usados por pessoas que faziam linchamento público nas praças públicas do Brasil.”

O artista destaca também a importância de temas como o trazido por Histórias estar presente em espaços como o MASP e o Tomie Ohtake. “Espaços de arte e cultura têm que dialogar com o seu próprio tempo. Não tratar temas/assuntos que são caros à construção de qualquer sociedade no mundo, especialmente sociedades como a do Brasil, é estar fechado pra sua própria cidade e seu próprio povo. Instituições como o MASP têm de olhar pro presente, passado e futuro — em especial para o presente, porque é com o presente que a gente vai dialogar com o passado e imaginar novos futuros”, conclui.

Se Beyoncé e Jay-Z desafiam a branca história da arte no clipe de “APESHIT” e Denzel Curry expõe a violência sofrida pela população negra de diferentes maneiras ao longo de seu novo álbum TA13OO, os artistas da exposição Histórias Afro-Atlânticas tentam fazer sentido dos processos de colonização e escravização do negro nas Américas. Além de conversar com a busca da identidade negra no Brasil e nas Américas, a mostra também dialoga com os esforços da cultura e entretenimento popular em buscarem retratar a subjetividade negra de maneiras fidedignas e se mostra não apenas condizente com seu tempo, mas também um avanço estético dentro dele.

Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter, Instagram e YouTube.