Foto: Matias Maxx/VICE

O Favela Sounds levou a música periférica ao quintal do poder

A terceira edição do festival de música voltado à periferia teve clima de “muito amor, mas raiva é fundamental sempre”.

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29 Novembro 2018, 2:22pm

Foto: Matias Maxx/VICE

“Muito amor, mas raiva é fundamental sempre”, a frase entoada pelo rapper mineiro Flávio Renegado na primeira noite de shows do Favela Sounds resume o espírito de resistência do festival, que realizou a sua terceira edição em Brasília no último final de semana. Foram duas noites de shows gratuitos de uma gama de artistas periféricos como Flora Matos, Don L, Deize Tigrona, Keila Gentil, La Fúria, Hodari, Rico Dalasam, MC Tha, entre outros. O palco foi montado coladinho ao Museu Nacional. Do outro lado, a catedral e, ao fundo, o Congresso Nacional davam um tom bem representativo ao festival. Além da óbvia configuração de poder, religião e cultura delineada pelos prédios e monumentos eu não conseguia deixar de lembrar daquele meme do Niemeyer, “aqui vão ficar os maconheiro”.

Meme do Niemeyer

As duas noites de shows tiveram entrada gratuita e ônibus buscando e levando jovens de várias quebradas de Brasília como Ceilândia, Taguatinga e Paranoá, também gratuitamente. Antes disso, durante quinze dias rolaram nessas quebradas várias oficinas ensinando cenografia (que contou com presença de jovens em privação de liberdade) e produção musical além de debates sobre temas políticos. A rapper e educadora paulistana Preta Rara, atração do festival, visitou duas escolas para o debate “Rap é compromisso, rima e identidade”. Ela visitou turmas do ensino médio e do fundamental, e numa delas foi abordada por um menino gay. "Ele me pediu 'Preta, quero fazer uma poesia'. Eu fiquei meio 'será que a galera vai zoar o menino?', mas levantou a escola toda pra aplaudir. Se fosse em outro tempo, como quando eu estudava, isso não aconteceria, então já estou conseguindo perceber essa tal mudança. Também sou educadora, historiadora, dei aula até 2016, mas os tempos são outros, né? Por mais que a história seja cíclica, hoje está passando muito rápido. Meus alunos de 2016 já são completamente diferentes desses de 2018 — essa galera está mega alinhada com essas discussões e novas narrativas, respeitando a diversidade que há no mundo.”

Preta Rara em visita à escola em Brasília. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação
Preta Rara em visita à escola em Brasília. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação

O Noisey, à convite da organização do evento, embarcou para Brasília para testemunhar a primeira noite do festival, que começou por volta das 19h com o candango Hodari junto de dois outros músicos apresentando músicas novas como “Tudo pro ar”, com o pegajoso refrão “ao invés de pisar no meu coração, senta na minha cara”. Com o avançar da noite, as batidas foram acelerando, até a plateia explodir ao som dos baianos do La Fúria. Acompanhado de vários músicos de calça branca e bailarinas de shorts pretos, o frontman Bruno Magnata vez por outra perguntava quem ali estava no “modo Fabio Assunção” e embalou uma sequência de hits de funk 150 BPM como “Baile da Gaiola”, em versão pagodão baiano, que deixou a plateia cantando e ralando até o chão como se tivessem no próprio baile. “A Penha é coisa boa”, me disse Bruno quando me identifiquei como sendo do Rio e entusiasta do atual funk carioca, ritmo que (assim como outros) não faltou nos sets do duo de DJs Yorubeat, que tocavam enquanto o palco principal era trocado para receber Flora Matos, Keila Gentil e Deize Tigrona, as últimas atrações da noite que fizeram o público quicar e cantar como nunca.

Keila, ex-vocalista da Gang do Eletro mostrou algumas músicas do seu disco solo que vem aí com referências periféricas que vão do tecnobrega amazônico ao funk carioca e a música cigana da Albânia, “todo esse conceito que eu já venho fomentando há alguns anos. Sempre tive essa vontade de fazer um som com letras que instiguem as mulheres, que falem dessa realidade, da minha realidade da periferia. Até um tempo atrás eu não tinha noção do meu lugar de fala, do que eu significava pro palco. Hoje em dia eu me sinto responsável, principalmente com o cenário político atual, pra falar mais forte sobre tudo que a gente vive.”

O público do festival era uma atração a parte. Jovem, periférico, com muitos negros e LGBTQ+ curtindo na maior ciência de que se hoje é dia de festa, amanhã, quando a bancada conservadora e fundamentalista lotar ainda mais aquele congresso ao fundo, serão resistência. Perguntei ao mineiro Flávio Renegado sobre o que muda na cena periférica a partir do dia primeiro de janeiro. “Infelizmente, o peso sempre fica pra nós. Só da gente produzir arte na periferia já é um avanço, tá ligado? Agora a gente tem de ter a obrigação de segurar a ponta das coisas sempre, e é um saco. Todo mundo fica fazendo e expondo sua arte e a gente da periferia tem de fazer arte de resistência sempre. A gente faz o que a gente curte, o que é natural, é da gente, é nato, mas a responsabilidade disso é foda. Como sociedade, temos que aprender a dividir mais essa bola também.”


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Preta Rara emenda no assunto. "A galera LGBTQ+ e a população preta tão aí há muito tempo resistindo. Por isso eu falo tanto do afeto — através do afeto alguém sai afetado naquela ideia que você tá mandando." A respeito de possíveis perseguições, ela completa. “Se chegarem a ponto de boicotarem internet, censurarem vídeos, sei lá, a gente vai inventar novas técnicas para se comunicar, seja escrevendo na folha de sulfite e colando no poste, entendeu? A gente vai ter de retroceder a essas tecnologias antigas pra dar continuidade e espalhar esse novo momento que estamos vivendo. Não vai ser fácil, mas a gente tá aí, se reinventando todos os dias. Eu tenho certeza que vamos ocupar o poder de fato.”

Em dezembro, no dia 16, o Favela Sounds ganha uma edição pocket no Rio de Janeiro, dentro do festival Conexidade na Praça XV, com shows de ABronca, Thabata Lorena e a sempre inspiradora Deize Tigrona.

Veja mais imagens do festival abaixo.

Montagem do festival Favela Sounds
Alunos da oficina de cenografia montando o palco. Foto: Matias Maxx/VICE
Flora Matos no festival Favela Sounds
Flora Matos. Foto: Matias Maxx/VICE
Keila Gentil no festival Favela Sounds
Keila Gentil. Foto: Matias Maxx/VICE
Hodari no festival Favela Sounds
Hodari. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação
Lydia Garcia, avó do Hodari e matriarca da Garcia Gang, no festival Favela Sounds
Lydia Garcia, avó do Hodari, matriarca da Garcia Gang. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação
Flávio Renegado no festival Favela Sounds
Flávio Renegado. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação
Bruno Magnata no festival Favela Sounds
Bruno Magnata. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação
Don L e Terra Preta no festival Favela Sounds
Don L e Terra Preta. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação
Rico Dalasam no festival Favela Sounds
Rico Dalasam. Foto: Rômulo Juracy/Divulgação

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