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A China está criando um exército de baratas para comer restos de comida

Os insetos são mantidos em instalações onde são alimentados por canos com toneladas de lixo. Especialistas dizem que seria uma catástrofe se eles escapassem.

por Gavin Butler; Traduzido por Marina Schnoor
12 Dezembro 2018, 5:59pm

Imagem via YouTube/South China Morning Post.

A China tem um problema com lixo. A crescente população do país está produzindo mais restos de comida do que os aterros sanitários do país conseguem absorver. O NewsCorp recentemente informou que Pequim produz mais de 25 mil toneladas de lixo por dia, enquanto o South China Morning Post relatou que os moradores da cidade produziram 9 milhões de toneladas de lixo só ano passado – um número que só deve crescer. E no meio dessa crise de lixo, cidadãos empreendedores pensaram num método inovador de eliminação de resíduos urbanos. Eles estão dando lixo para as baratas.

Bilhões de baratas são mantidas em instalações na China onde são alimentadas com toneladas de restos de alimentos e lixo de cozinha, segundo a Reuters. Em uma dessas usinas – comandada pela Shandong Qiaobin Agricultural Technology Co, localizada em Jinan, capital da província de Shandong, leste do país – um bilhão de baratas consomem aproximadamente 50 toneladas de lixo por dia. A comida chega antes do amanhecer e é entregue para as celas das baratas através de canos. A Shandong Qiabin espera abrir mais três instalações similares ano que vem e projeta que será capaz de processar um terço do lixo de cozinha produzido na cidade de mais de 7 milhões de habitantes.

E a operação não acaba aí: as baratas mortas vão para a fabricação de alimentos nutritivos e fontes de proteínas para porcos e outros animais. Num país onde usar restos de comida para alimentar porcos é proibido por causa de surtos de febre suína africana, essa é uma solução útil – “como transformar lixo em recursos”, segundo a presidente da Shandong Qiaobin Li Hongyi.

Outras instalações pela China criam baratas exclusivamente por essa razão: para usar como alimento de pecuária. Mas a praga tão odiada também é considerada um ingrediente útil em vários remédios e produtos de saúde, segundo o South China Morning Post. Uma instalação na cidade de Xichang, província de Sichuan, no sudeste do país, alcançou tantos “avanços científicos e tecnológicos” em seu programa de criação de baratas que o governo da província afirma que eles merecem um prêmio nacional de ciência.

A fábrica produz uma poção feita de baratas, que são esmagadas em máquinas depois de atingir o tamanho e peso desejados. Mais de 40 milhões de pacientes sofrendo de doenças gástricas, respiratórias e outras teriam sido curados depois de tomar a milagrosa poção de barata, e a usina estaria vendendo a substância para mais de 4 mil hospitais da China. Jornais de medicina chineses já sugeriram que a medicação pode ser eficaz em estimular o crescimento de tecido danificado, tratar queimaduras e inflamações estomacais sérias.

“Nossa droga é usada em hospitais há muitos anos e estabeleceu um grande número de fãs”, disse Han Yijun, representante da Gooddoctor Pharmaceutical Group em Pequim, que fabrica os medicamentos de barata. “Todo mundo sabe que nossos produtos são feitos de barata. É um inseto nojento, mas há poucas drogas nas prateleiras que têm o mesmo efeito.”

E assim, a humilde dona baratinha acaba sendo muito mais do que os olhos podem ver. As baratas são fonte de alimentos, um ingrediente medicinal e um “caminho de biotecnologia para converter e processar resíduos de cozinha”, segundo Liu Yusheng, presidente da Shandong Insect Industry Association. Mas especialistas sugerem que ainda deveríamos ser cautelosos com nossos novos senhores dos insetos: considerando as implicações do que pode acontecer se essas bilhões de baratas conseguirem escapar das fazendas de insetos.

A professora Zhu Chaodong, cientista-chefe de estudos de evolução de insetos da Academia Chinesa de Ciências, disse que uma fuga em massa de bilhões de baratas para o meio ambiente local seria uma “catástrofe”.

“É preciso ter várias linhas de defesa funcionais para evitar o desastre de uma liberação acidental”, ela disse, apontando que esses insetos se multiplicam rapidamente no tipo certo de ambiente e podem infestar um bairro inteiro em pouquíssimo tempo. O South China Morning Post informou que também há preocupações de que a reprodução intensiva e triagem genética nas instalações podem dar um empurrão na evolução das baratas, e produzir um exército de “superbaratas” anormalmente grandes e viris.

Zhu diz que é improvável que isso aconteça.

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