Por que o matriarcado significa sexo melhor e uma sociedade melhor

É hora de acabar com o patriarcado e deixar as mulheres comandarem o mundo.

por Dr. Kate Lister; Traduzido por Marina Schnoor
30 Abril 2019, 10:00am

Segundo a mitologia grega, as amazonas eram uma raça de mulheres guerreiras que se recusavam a viver com homens. Justo. Para sobreviverem, uma vez por ano as amazonas visitavam a tribo vizinha, os gargareanos, para fazer sexo com os homens lá.

Quando as amazonas conseguiam o que queria, elas descartavam seus amantes como um lenço de papel usado e voltavam para suas terras – se tudo desse certo, grávidas. Nove meses depois as amazonas ficavam com todas as bebês meninas e ou devolviam os garotos para os pais ou só os abandonavam para morrer em algum lugar. Brutal.

“Quando as mulheres estão no banco do motorista, todo mundo vive melhor – e claro que o sexo é muito, muito melhor.”

Para a maioria, a frase “sociedade matriarcal” conjura imagens parecidas com as do mundo de roubo de esperma, lutas com lanças e espancamento de homens das amazonas. Mas antropólogos fazem questão de enfatizar que matriarcado não é o contrário de patriarcado. Isso não quer dizer um mundo onde as mulheres dominam homens.

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Segundo a mitologia grega, as amazonas eram uma tribo de mulheres que caçavam e lutavam em guerras. Imagem via Alamy.

Colocando de maneira simples, sociedade matriarcal é onde as mulheres não estão em desvantagens só por serem mulheres, onde o poder é compartilhado entre os gêneros, e onde as mães estão no centro da cultura. E, acredite ou não, ainda há sociedades matriarcais pelo mundo hoje.

Heide Göttner-Abendroth é a principal autoridade do mundo em sociedades matriarcais, tendo fundado a International Academy for Modern Matriarchal Studies and Matriarchal Spirituality em 1986. Ela define a sociedade matriarcal como operando em quatro níveis: econômico, social, político e cultural.

Economicamente, sociedades matriarcais não passam riquezas através de linhas paternas. Em vez disso, eles compartilham e o matriarcado do grupo é responsável pela distribuição de recursos entre o clã. Socialmente, esses grupos colocam a maternidade no centro – mesmo os homens abraçam o que significa ser mãe. As crianças são criadas coletivamente por grupos matriarcais, como se todos ali fossem sua mãe.

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A sociedade matrilinear de Meghalaya em Shillong, Índia. Foto via Getty.

Mulheres não são excluídas da política em sociedades matriarcais, em vez disso homens e mulheres tomam coletivamente decisões que afetam o grupo. E culturalmente, esses grupos adoram divindades femininas, e veem o mundo natural como feminino.

Mas e quanto ao sexo? Que bom que você perguntou. Em sociedades patriarcais, a riqueza é historicamente passada pelas linhagens paternas. Para garantir que poder e riqueza sejam passados diretamente de pai para filho, a sexualidade e sistema reprodutivo das mulheres são controlados rigidamente para garantir descendência legítima, e a sexualidade feminina é considerada uma coisa vergonhosa.

Em sociedades matriarcais, não há linhagens paternas, e como as crianças são criadas coletivamente, não importa quem é o pai biológico. Então, como você pode imaginar, o sexo e as atitudes para com mulheres que gostam de sexo são muito diferentes do que conhecemos.

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A tribo Mosuo na China, conhecida como "Reino das Mulheres". Foto via Alamy.

A tribo Mosuo vive nas províncias de Yunnan e Sichuan no sudeste da China, e é conhecida como a última sociedade matrilinear do país. Apesar de sua população estar caindo, registros sobre os Mosuo vêm de até 750 AC, quando crônicas chinesas chamaram sua terra natal de “nu kuo”, ou “o reino das mulheres”.

As mulheres Mosuo não se casam, têm quantos amantes quiserem, e lá não há palavras para “marido” ou “pai”. Amantes não moram juntos, mas as mulheres convidam homens para visitá-las em seus dormitórios à noite. Esse arranjo é conhecido como “indo e voltando”, e é considerado problema apenas do casal envolvido. Esse arranjo pode ser de longo prazo ou durar apenas uma noite, mas ninguém espera ter apenas um desses envolvimentos na vida.

As separações são igualmente casuais – ou a mulher para de deixar o amante vir para seu dormitório ou ele para de visitá-la. Um rito de passagem importante é quando uma mãe dá à filha a chave para seu próprio dormitório, para que ela possa convidar seus amantes – o que é bem mais legal que ensinar alguém a colocar uma camisinha numa banana.

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A comunidade Khasi da Índia. Foto: Wikimedia Commons.

Os Khasi vivem no nordeste da Índia e contam com certa de 1 milhão de pessoas. “Kha-si” significa “nascido de uma mãe”, e eles praticam o matriarcado há milhares de anos. As propriedades do clã passam de mãe para filha, as crianças têm o nome da mãe, e um homem casado mora com a esposa na casa da mãe dela, ou apenas a visita à noite para fazer sexo. O divórcio envolve as duas partes dizendo que não querem mais estar juntas. As mulheres Khasi têm vários maridos durante a vida.

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As mulheres da cidade de Noiva do Cordeiro. Foto cortesia de Noiva do Cordeiro.

Embora muitas sociedades matriarcais sejam antigas, há exemplos mais recentes. A cidadezinha de Noiva do Cordeiro é um dos distritos da cidade de Belo Vale, a 100 km de Belo Horizonte, Minas Gerais, e lar de cerca de 300 pessoas, e as mulheres comandam tudo. A cidade foi estabelecida em 1891 quando a fundadora, Maria Senhorinha de Lima, foi exilada de sua casa e da igreja por trocar o marido pelo amante. Marcada como uma vadia e adúltera, Maria fundou uma comunidade de mulheres com as trabalhadoras sexuais locais que também tinham sido abandonadas pela igreja. Hoje, as mulheres continuam a morar como uma comuna e vendem vegetais e artesanato, em vez de sexo. Apesar de algumas delas serem casadas, os maridos trabalham fora da cidade.

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As moradoras de Alapine Village. Foto cortesia de Alapine Village.

Alapine Village, no Alabama, EUA, é uma sociedade apenas de mulheres que foi fundada em 1997 como uma comuna lésbica. Alapine é uma das muitas comunidades lésbicas que começaram nos anos 1970, quando um grupo de mulheres revolucionárias fundou um acampamento na praia em St. Augustine, Flórida. Hoje, Alapine Village tem mais de 40 hectares e é lar de dezessete mulheres.

As moradoras cultivam a terra e realizam atividades comunitárias, como leitura de poesia, e noites de “ciclo da lua”. Se alguém se interessou, Alapine está sempre aberta para mais recrutas – desde que não tenham o cromossomo Y, claro.

Beyoncé uma vez cantou que as garotas mandam no mundo, e mesmo isso não sendo totalmente verdade ainda, essas sociedades matriarcais mostram que as mulheres podem e comandam o mundo em certos lugares. É possível construir comunidades cercando valores maternais que são baseados em necessidade, em vez de em poder e dominância. E mais, quando as mulheres estão no banco do motorista, todo mundo vive melhor – e claro que é o sexo e muito, muito melhor.

A Dra. Kate Lister é historiadora sexual, autora e professora da Leeds Trinity University. Ela também comanda o blog Whores of Yore. Siga a doutora no Twitter.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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