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Entendendo a atração do golden shower

Perguntamos a especialistas em sexo por que algumas pessoas curtem a chuva dourada.

por Anna David; Traduzido por Marina Schnoor
29 Setembro 2017, 2:00pm

Foto JUSTIN TALLIS/AFP/Getty Images.

"Alguns veem isso como uma conexão bonita — um jeito de ver mais de seu parceiro e ir além na intimidade", diz o Dr. Chris Donaghue, autor de Sex Outside the Lines. O aclamado terapeuta sexual não está falando sobre o tipo de beijo longo, lento e molhado que Kevin Costner descreveu em Sorte no Amor. Ele está falando sobre urofilia, também conhecida como water sports ou — nas palavras de um relatório suspeito que recebeu muita atenção da imprensa — golden shower.

Enquanto a urofilia não é tão rara quanto você pode imaginar, não falamos tanto sobre isso porque vivemos numa cultura cheia de frescuras quando se trata de sexo. Ainda mais quando o assunto é hábitos do banheiro. E a urofilia faz um ótimo trabalho juntando as duas coisas.

"Não falo com ninguém sobre isso", confessou um europeu de 40 e poucos anos que contatei por um anúncio de "MIJE EM MIM" no Craigslist. "Não quero que me olhem torto. Algumas pessoas acham nojento e estranho."

Esse cara — vamos chamá-lo de Pierre — descobriu que tinha uma coisa por chuva dourada quando viu a prática num pornô alguns anos atrás e se sentiu excitado. Ele perguntou para uma mulher com quem fazia sexo ocasionalmente se ela se interessava e ela topou, mas disse a ele que precisava relaxar fazendo sexo antes. Então, quando eles estavam transado, ela ficou por cima e "disse que estava pronta, aí se levantou e mijou no meu estômago e pênis enquanto eu me masturbava", disse Pierre. Ele gozou com a urina, mas não com o sexo normal. Mais tarde, no chuveiro, ele urinou nos seios dela. Mas agora essa mulher está casada e a parceira atual de Pierre não curte water sports. Ele disse que ela ficou enojada quando ele mostrou a ela um vídeo de golden shower, então ele nunca mais tocou no assunto.

E foi assim que Pierre se viu postando um anúncio — um anúncio que, quando conversamos, não tinha atraído muitas respostas além de algumas mulheres que disseram que mijariam nele por dinheiro. Talvez por causa dessa falta de ação, Pierre fez o máximo para me convencer a dar uma chance à prática. "Não consigo imaginar por que uma escritora sente que pode escrever sobre o tópico sem nunca experimentar", ele repetiu várias vezes. Tive a sensação de que ele achava que quando eu entendesse completamente a urofilia, eu pediria que ele viesse até a minha casa, com a bexiga estourando, me mostrar como a coisa funcionava na prática.

Por que algumas pessoas se excitam com urina não é algo totalmente compreendido. Especialistas nem conseguem dizer se esse fetiche é mais comum entre homens porque, como Donaghue colocou, vivemos numa cultura "onde as mulheres não são empoderadas o suficiente para pedir o que querem sexualmente". Tudo que sabemos é que não tem nada novo na nossa fascinação por mijo.

Na Roma Antiga, os romanos usavam urina para tudo, de tinta invisível a mensagens secretas — a suposta origem da expressão "leia entre as linhas" — e até branqueador de dentes. Mijo era tão valioso na época que os vendedores do produto pagavam um imposto específico. Mijo também tem um papel nas artes. O tomo Erotica Universalis da Taschen tem imagens de pinturas, mosaicos e esculturas em madeira de atos sexuais relacionados a urina que datam de até 100 anos AC. Na literatura, você encontra histórias de mijo erótico bem antigas também. A mais famosa é 120 Dias de Sodoma do Marquês de Sade, um livro do século 18 sobre quatro libertinos que gostavam de beber urina.

Depois temos Havelock Ellis, um médico inglês que estudou a sexualidade humana no começo do século 20. Ellis não foi apenas uma das primeiras pessoas a escrever sobre urofilia como fetiche, ele também foi um dos primeiros a admitir publicamente que curtia a prática — algo que ele rastreou ao fato de que quando era adolescente, ele esfregava as costas da mãe com uma esponja enquanto ela fazia xixi. Outros momentos-chave da história da chuva dourada incluem Lori Wagner mijando num cadáver no filme de Gore Vidal Calígula (1979), o escândalo de R. Kelly de 2002 ("um ponto baixo da história do fetiche", apontou um especialista que consultei), e uma confissão manhosa de Ricky Martin numa entrevista de 2006. Você pode dizer que quando o golden shower fez uma aparição em Sex and the City (2000), o tema foi mais longe ainda.

Esse episódio de Sex an the City (no qual Carrie saía com um político interpretado por John Slattery, que gostava de ser mijado) apresenta o cenário de golden shower que entendemos melhor — ou seja, a ideia de caras poderosos que se excitam quando são dominados e sujos. Mas o conceito só parece estar correto parte do tempo.

"Às vezes as pessoas gostam disso porque curtem serem degradadas. Enquanto para outras isso não tem nada a ver, elas se sentem selvagens, desinibidas e quebrando o tabu sem que isso represente algo perigoso", diz a terapeuta sexual e escritora Dra. Gloria Brame. Algo em que Brame e Donahue concordam: é bobagem a noção de que ter um fetiche como esse significa que algo perturbador ou bizarro aconteceu com você nos seus anos de formação.

"O antigo pensamento freudiano é que as pessoas estão tentando resolver um trauma, o que pode ser verdade, mas às vezes elas têm um fetiche com algo que associam ao prazer", diz Brame. Donahue ecoa esse conceito: "Não há um significado universal para esse comportamento, porque cada pessoa chega a associações diferentes. Alguns acham isso degradante, enquanto outros veem a prática como querendo algo mais da outra pessoa".

Na verdade, uma dominatrix com quem conversei me disse que seus clientes de golden shower eram um médico poderoso e um cara fofo e tímido, que levava uma pequena privada de madeira que ele mesmo tinha feito. O rapaz nerd colocava a privada na cara, ela se agachava sobre ele e deixava o líquido dourado cair enquanto ele gemia.

Parece que assim que você desenvolve um estereótipo sobre quem curte esse fetiche, outra pessoa aparece para derrubá-lo. E isso, claro, não leva em conta as muitas pessoas que nunca admitiriam suas predileções por mijo. Brame disse que um amigo sexólogo realizou uma palestra sobre o tópico que foi uma das mais cheias que ele já deu, e que poucos participantes fizeram perguntas. Lendo essas entrelinhas, a chuva dourada pode ser, para muitos, o segredo mais bem guardado.

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Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

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