Meio Ambiente

O Everest está derretendo, revelando toneladas de lixo e vários cadáveres

“O lixão mais alto do mundo” está vomitando lixo e corpos humanos que ficaram enterrados por décadas enquanto o montanhismo comercial encontra as mudanças climáticas.

por Omkar Khandekar; Traduzido por Marina Schnoor
26 Setembro 2019, 11:00am

(Esquerda) Lixo transportado pelo ar para Kalapattar (Foto cortesia do Sagarmatha Pollution Control Committee, Nepal) e (direita) "Botas Verdes", um alpinista indiano que morreu no cume nordeste do Monte Everest em 1996, e agora serve para marcar a distância e altitude (Foto viaWikimedia).

Mingma David Sherpa viu um cadáver na primeira vez que escalou o Everest em 2010.

Mingma, que tinha 20 e poucos anos na época, sabia que a rota até o topo era pontuada por mais de 200 corpos. Os alpinistas muitas vezes usam os cadáveres para marcar a distância e altitude. Por exemplo, ele sabia que quando visse o “Botas Verdes” – o cadáver de um alpinista indiano identificado pela cor de suas botas fluorescentes – ele tinha entrado na “ Zona da Morte”, a 8 mil metros acima do nível do mar.

“Me senti mal”, lembra Mingma sobre a experiência de passar por um cadáver atrás do outro, todos congelados num momento de tragédia. “Eu estava cruzando com várias pessoas que estavam claramente com problemas mas não podiam ser resgatadas.”

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O guia e especialista em resgate Mingma David Sherpa confere um cilindro de oxigênio. Foto: Omkar Khandekar.

Em 2016, Mingma se juntou a Anthony Gordon, um produtor de TV australiano que conceitualizou o documentário sobre a Primeira Equipe de Resgate Sherpa do Mundo (sherpas são de uma comunidade étnica nepalesa empregada como guias da montanha). A equipe de sete sherpas foi treinada para operar câmeras e as filmagens de suas missões de resgate foram transformadas no documentário Everest Air.

A equipe de Mingma resgatou os corpos de 52 pessoas do Everest e sua vizinha Makalu, a quinta montanha mais alta do mundo. Mas eles não estavam apenas enfrentando um terreno hostil. Há sempre a ameaça das mudanças climáticas causadas pelo homem. Só no ano anterior, um clima quente incomum causou uma avalanche na geleira Khumbu na rota para o Everest, matando 16 pessoas.

“Não dá mais para prever o que pode acontecer”, diz Mingma. “Às vezes tem neve demais [nas montanhas], às vezes de menos.”

Isso significa que os cadáveres, alguns perdidos há anos, começaram a emergir do gelo. E junto com os corpos, toneladas de lixo – latas, garrafas, acessórios de escalada descartados e resíduos humanos – estão descongelando ao longo da rota usada pelos montanhistas há décadas. Mais de 5 mil quilos disso é de resíduos humanos no acampamento-base.

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Quatro corpos resgatados do Monte Everest. Foto cortesia do Sagarmatha Pollution Control Committee, Nepal.

Um estudo de cinco anos do International Center for Integrated Mountain Development (IDIMOD) descobriu que as geleiras do Hindu Kush e Himalaia estão derretendo rapidamente, e ameaçam encolher para metade de seu tamanho se as emissões de CO2 não forem controladas.

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Lixo transportado pelo ar para Kalapattar. Foto cortesia do Sagarmatha Pollution Control Committee, Nepal.

Em 2019, o Everest viu seu maior número de fatalidades (12) quando um congestionamento deixou alpinistas presos numa tempestade. Essa imagem viral capturou a fila de quase 200 alpinistas presos no “congestionamento” no pico. O governo nepalês, que emitiu um recorde de 338 permissões de escalada para o Everest, foi criticado por monetizar de maneira imprudente um ecossistema tão frágil. Mas para um país em que o PIB per capita é de apenas US$ 835 – quase 1/70 do PIB dos EUA – aumentar o tráfego na montanha é de interesse nacional. Expedições para o Everest renderam 442 milhões de rúpias nepalesas (quase US$ 4 milhões) apenas este ano.

Mas essa é uma situação Ardil 22. Muitos sentem que a responsabilidade pela limpeza cabe tanto a interesses privados quanto a sociedade civil. Ang Tshering Sherpa, cuja família vive de liderar expedições para o Everest há quatro gerações, diz que a limpeza não é boa somente para o meio ambiente, mas também faz sentido do ponto de vista dos negócios.

“Se temos que aumentar os negócios, temos que ser responsáveis pelo meio ambiente”, diz o homem de 73 anos.

“Meu bisavô liderava expedições desde os anos 1920. Mas a primeira grande operação de limpeza só foi feita em 1996 pela Associação de Montanhismo do Nepal. Eu estava envolvido nela com uns 40 outros sherpas. Trouxemos de volta cerca de sete toneladas de lixo.”

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Um sherpa nepalês caminha com sua carga do acampamento-base do Everest no Nepal. Foto: REUTERS/Laurence Tan

Aquela limpeza foi financiada pela iniciativa privada e exigiu milhares de dólares. Com esforços financiados pelo governo fora da mesa, essas operações só podem ser repetidas esporadicamente.

Desde 2008, a agência de viagem de Ang Tshering, Asian Trekking Pvt Ltd, dedica 20% de seus lucros para limpezas anuais. As “Eco Expeditions” da agência já coletaram mais de 20,2 toneladas de lixo acumulado acima do acampamento-base do Everest. Elas também recuperaram sete corpos de acima de 8.400 metros. “Remover tanto peso não é fácil”, acrescenta Tshering. “O corpo congelado de uma pessoa média pode pesar até 160 quilos por causa do gelo em volta. Mas os sherpas fazem isso pelo meio ambiente.”

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Pessoal de resgate enrola cadáveres encontrados no Everest. Foto cortesia de Sagarmatha Pollution Control Committee, Nepal.

Incitado por vários desses esforços voluntários, em 2014 o governo nepalês introduziu uma regra de que cada grupo de escalada tem que depositar US$ 4 mil antes da subida. O depósito é reembolsado depois que os alpinistas voltam com 8 quilos de lixo cada. Para controlar o problema das fezes humanas, eles pedem que os montanhistas coletem tudo em sacos e descartem depois da descida. Tshering Tenzing Sherpa, coordenador da ONG Sagarmatha Pollution Control Committee (SPCC), diz que a medida se mostrou eficiente.

No começo do ano, o SPCC foi contratado pelo governo para liderar uma operação de limpeza. Na primavera de 2019, quando o processo para escalar o Everest foi aberto para montanhistas, uma equipe de oito pessoas limpou as montanhas e retornou com 10,5 toneladas de lixo e sete cadáveres. Tshering Tenzing diz que planeja continuar as operações por pelo menos cinco anos.

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Equipe de uma campanha de limpeza no acampamento-base do Everest. Foto cortesia do Sagarmatha Pollution Control Committee, Nepal.

Apesar desses esforços, ainda há cerca de 50 toneladas de lixo na montanha, segundo estimativas da Everest Summiteers Association. Mês passado, o governo proibiu o uso de plástico descartável na região do Everest. Para reduzir o número de mortes, eles também planejam restringir as permissões para quem escalou pelo menos um pico de 6.500 metros no Nepal antes de tentar o Everest.

De todas essas medidas, a solução mais eficiente é a educação, conscientização ambiental e esforços sustentáveis, diz Tshering Tenzing. “Everest é a mãe do Nepal. Precisamos salvá-la.”

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Matéria originalmente publicada pela VICE Índia.

Esta matéria é parte de uma iniciativa da VICE para observar o estado do meio ambiente por todo o globo. Na Ásia-Pacífico, cada escritório da VICE está examinando as principais preocupações de seu território, num esforço para avaliar a saúde do planeta como um todo e destacar a necessidade geral de mudanças. Para outras matérias desta série, acesse Environmental Extremes

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