Diphylla eucadata, mais conhecido como morcego-vampiro-de-perna-peluda, se alimenta de sangue de aves grandes e, na ausência deles, do sangue de galinhas e seres humanos. Crédito: UFPE

​Por que morcegos brasileiros estão se alimentando de sangue humano?

Primeira coisa que você precisa saber: eles não curtem pescoço.

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31 Janeiro 2017, 5:48pm

Diphylla eucadata, mais conhecido como morcego-vampiro-de-perna-peluda, se alimenta de sangue de aves grandes e, na ausência deles, do sangue de galinhas e seres humanos. Crédito: UFPE

Embora existam 1500 espécies de morcegos batendo asas pelo mundo, apenas três delas se alimentam de sangue. Até onde se sabia, suas presas eram cavalos, gado, porcos, pássaros e outros da própria espécie, mas, no final de 2016, em Pernambuco, o cenário ganhou um quê de Drácula de Bram Stoker: uma pesquisa publicada pelo Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) identificou sequências de DNAs humanos nas fezes de uma outra espécie de morcego hematófago (que se alimenta de sangue, também chamado de morcego-vampiro) do Parque Nacional Catimbau, em Buíque. Pois é: sinais de nosso genoma no cocô do bicho.

Antes que você comece a entrar em pânico e abraçar todas as noias possíveis de que o seu pescoço será o próximo a receber os dentinhos cruéis desse animal inescrupuloso e oportunista que chupa seu sangue, mas que, talvez, queira mesmo a sua linda e virginal alma, acalme-se, cara. "Não estamos experimentando um surto de mordedura, de raiva. Trata-se de uma espécie rara, muito pouco abundante na região", afirma o biólogo Enrico Bernard, professor do departamento responsável pela pesquisa publicada pela UFPE. "Mas estamos mostrando que ela está começando a se alimentar do sangue humano."



Diphylla eucadata, mais conhecido como morcego-vampiro-de-perna-peluda, se alimenta de sangue de aves grandes e, na ausência deles, do sangue de galinhas e seres humanos. Crédito: UFPE

Há 20 anos na pesquisa desses quirópteros, Bernard explica que a ideia da análise surgiu quando sua equipe se deparou com uma pequena colônia de morcegos-vampiros da espécie Diphylla eucadata, mais conhecido como morcego-vampiro-de-perna-peluda, na caverna do parque. "É um bicho raro, não é comum", explicou, por telefone. "Vi que tinha, entre eles, grávidas, jovens. Pensei que era um bom sinal porque a colônia estava conseguindo se manter e se reproduzir." Mas, conhecendo a região em volta e sabendo que ali não existia o prato principal da espécie, as aves de grande porte, o biólogo questionou: do que eles estão se alimentando, então?

Descolar a informação de que os bichinhos estavam mandando ver no sangue de galinhas e de humanos não foi simples. "Quando o sangue entra no trato digestivo do morcego, existem várias proteínas que quebram o DNA. Então, extrair sequências das amostras fecais não é fácil." Junto dos biólogos Rodrigo Torres e Fernanda Ito o estudo, que aconteceu entre 2014 e 2015, começou a tomar forma.

Bernard instala equipamento de medição de temperatura e umidade dentro da caverna Meu Rei, no Parque Nacional do Catimbau, Pernambuco. Crédito: Frederico Hintze/ UFPE

Já que galinhas não são a especialidade do morcego-vampiro-de-perna-peluda, os resultados trouxeram dois enfoques. O primeiro foi de que, sim, aves de grandes portes talvez tenham sido localmente extintas. "Isso confirma também que a caatinga está passando por um processo de perturbação, que ela está perdendo espécies nativas, que a presença humana vem alterando as relações ecológicas com as outras espécies", pontua o biólogo.

O segundo foi de que a questão do sangue humano tem outra implicação, que é a de saúde pública. Se existem pessoas sendo mordidas por morcegos, elas precisam estar cientes de que isso envolve riscos. Morcegos, assim como outros mamíferos (mesmo um coelhinho branco bem fofo), podem transmitir doenças para os humanos. A mais grave é a raiva, que, além de ser letal, não tem cura. "Então, as pessoas da região precisam saber que, se elas forem mordidas, devem procurar um posto de saúde ou um hospital para receber vacinação. Elas não podem tratar mordedura como se fosse algo corriqueiro, normal."

COMO UM MORCEGO MORDE UMA PESSOA?

"Esquece os dois pontinhos da mordida do Drácula porque não é nada disso", diz Enrico, interrompendo qualquer ideia fantasiosa vista incansavelmente em filmes, como aquele em que Tom Cruise e Brad Pitt eram vampiros. Existem muitos mitos ao redor dos morcegos. Primeiro porque são bichos noturnos, que voam e dormem de cabeça pra baixo (isso é bonitinho, vai). Costumeiramente, são atrelados à mau agouro, morte, trevas e até mesmo ao diabo. Essa galera não sabe de nada e certamente nunca viu um vídeo de morcegos bebês.

O que soa peculiar é que esses animais possuem uma riqueza de hábitos alimentares muito grande. Das 180 espécies que temos no Brasil, metade se alimenta de insetos. A outra metade se alimenta de frutos, néctar e pólen. Esses são conhecidos como morcegos beija-flor (Glossophaga soricina) e, inclusive, fazem polinização (isso não é só um serviço gratuito para a natureza como também para nós, humanos). Existem morcegos especializados em pegar peixes, que comem passarinhos, lagartos, ratos e, como mencionado antes, até mesmo outros morcegos. E há também os que preferem sangue. "O morcego-vampiro é um bicho altamente especializado. Não tem nenhum outro mamífero que se alimenta de sangue como o ele."

Em galinhas, eles mordem mais na região das patas e da cloaca. Já em nós, seres humanos, eles preferem a testa, as orelhas e o nariz – ou seja, os locais mais vascularizados.

O biólogo cita estudos científicos mostrando que, quando um morcego-vampiro é deixado em cativeiro apenas com uma tigela de leite, ele prefere morrer de fome a ingerir algo que não seja sangue.

Ainda assim, morcegos são mamíferos, portanto, também têm cinco sentidos: visão, olfato, paladar, audição e tato. Em geral, todos têm um sexto sentido chamado ecolocalização, um sonar. O animal utiliza o ultrassom pra se orientar no espaço. Já os morcegos-vampiros têm um sétimo sentido: no rosto deles, existem sensores de calor. Então, o animal pousa próximo da presa. Geralmente caminha até ela. Com esse sétimo sentido, o morcego-vampiro-de-pernas-peludas detecta os locais que estão mais quentes, onde, geralmente, existem mais vasos sanguíneos perto da superfície da pele. Ele dá uma mordidinha, tira um pedaço de pele e começa a lamber a ferida. "Ele toma, no máximo, uma colher de sopa de sangue, fica satisfeito e vai embora", explica o biólogo.


Bernard instala equipamentos de medição de temperatura e umidade no Parque Nacional do Catimbau, Pernambuco. Crédito: Frederico Hintze/ UFPE

Em gado, os lugares mais mordidos são orelhas e calcanhares. Nos porcos, ele morde o mamilo ou as orelhas. Em cavalos, é o pescoço. Em galinhas, eles mordem mais na região das patas e da cloaca. Já em nós, seres humanos, eles preferem a testa, as orelhas e o nariz – ou seja, os locais mais vascularizados. Acontece também de morderem os dedos dos pés, já que algumas pessoas dormem com os pés pra fora do lençol ou até mesmo da rede (que, na região, é comum).

Importante: morcegos-vampiros não atacam as pessoas do nada. O que geralmente acontece é que os animais adentram residências com janelas abertas. E, na maior parte das vezes, as pessoas estão dormindo. "É um animal muito esperto. Ele não é bruto, é delicado."

Ou seja, na dúvida, feche a janela antes de dormir.