O Terremoto de 1985 na Cidade do México: Milhares Morreram, Enquanto eles Nasciam

Enquanto a cidade estava presa em desespero e desinformação com as mortes, os danos, o caos e a tragédia do terremoto de 1985, algumas pessoas que encheram os pais de felicidade estavam nascendo.

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set 22 2015, 4:30pm

A pulseira de hospital de Uriel del Angel.

Todo ano, no dia 19 de setembro, os mexicanos relembram as mesmas coisas: as mortes, os danos, o caos e a tragédia do terremoto de 1985.

Mas apenas alguns lembram que também houve alegria naquele dia. Enquanto a cidade estava presa em desespero e desinformação, pessoas que encheram os pais de felicidade estavam nascendo.

Naquela manhã, a natureza foi impiedosa. Eram 7h17 quando um tremor de magnitude 8.0 sacudiu as fundações da metrópole, que naquela época tinha dez milhões de habitantes. Muitos ainda estavam na cama, outros já estavam indo ao trabalho, enquanto crianças se preparavam para a escola. A cidade estava despertando – e o terremoto a pegou de surpresa.

A Cidade do México ficou isolada por quatro dias após uma ordem presidencial para bloquear qualquer ajuda internacional e evitar que o mundo ficasse sabendo da escala do desastre. A principal preocupação do governo era que a FIFA decidisse cancelar a Copa do Mundo, que o país deveria hospedar no ano seguinte. Mas isso foi um erro grave. Muitas pessoas estavam soterradas e morreram porque não havia equipes de busca suficientes. As tropas de resgate mexicanas não eram o bastante para tamanha tragédia. Então, os moradores se organizaram e fizeram o melhor possível para salvar as pessoas que pediam ajuda entre os escombros.

A solidariedade vinda da sociedade civil foi mais corajosa que qualquer ajuda fornecida pelo governo. Ainda assim, quando as equipes de auxílio estrangeiras chegaram, milhares de pessoas já tinham morrido.

E a Copa do Mundo não foi cancelada.

Faz 30 anos que a tragédia aconteceu, e essas pessoas celebram seu aniversário no dia 19 de setembro. Elas ouvem o "Parabéns a Você" e sopram velas num bolo. Tudo normal. Vida e morte estão sempre no mesmo nível de importância; depois de nascer, a morte é a única certeza.

Daniela e Jimena Garfias

"Minha mãe planejava dar à luz dias depois, mas viemos mais cedo", dizem as gêmeas Jimena e Daniela Garfias.

Só um minuto separou a chegada delas ao mundo: Daniela nasceu às 18h28 e Jimena, às 18h29.

A mãe delas, Alícia, relembra: "Elas deviam ter nascido na primeira semana de outubro, mas o terremoto mudou tudo. Naquela manhã, eu estava sozinha no meu apartamento no sétimo andar, no bairro de Polanco. Lá, o terremoto não foi sentido com tanta força como em outras áreas. Depois disso, eu não conseguia achar meu marido, que tinha levado nosso outro filho para a escola. Algumas horas depois, a angústia provocou contrações e minha bolsa estourou. Sozinha, consegui de algum jeito descer as escadas a fim de procurar alguém para me levar até o Hospital Santa Monica, perto da minha casa. Meu marido chegou naquele momento, e conseguimos que alguém nos levasse de carro. Levamos duas horas para chegar lá, mesmo o hospital sendo perto. No caminho, percebemos que a cidade estava um caos. As pessoas estavam gritando e andando sem rumo pelas ruas. Quando cheguei ao hospital, não havia funcionários suficientes porque eles não tinham conseguido chegar ao trabalho ou estavam procurando por parentes. A enfermeira que me ajudou estava chorando porque não tinha notícias dos pais, que viviam no centro, porém a vocação dela a manteve do meu lado. Não sei se os pais dela sobreviveram. O hospital ficou sem luz. Horas depois, meu médico chegou e entrou na sala de cirurgia. Me deram uma anestesia da cintura para baixo. A energia elétrica ia e voltava. Parecia um sonho ruim. Daniela nasceu com saúde, embora Jimena estivesse frágil. Naquela noite, ela estava muito delicada, mas depois se recuperou. Foi muito triste. Levei cinco anos para superar e começar a comemorar o aniversário delas. Fui abençoada porque muitas mães perderam seus filhos e eu vi isso acontecer. Sempre digo que elas têm de fazer o melhor possível porque estão vivas por alguma razão".

Saul Gonzalez Quiñones e Uriel Del Angel

Saul (esquerda) e Uriel (direita) não se conheciam, mas, alguns minutos depois de se encontrarem, foi como se fossem melhores amigos.

Os pais de Uriel moravam no centro da cidade. Naquela manhã, o pai deles, José Carlos Del Angel, levou a mãe, Patricia, para o hospital quando ela sentiu os primeiros sinais do parto. Ele a deixou no quarto, voltou para casa e sentiu o terremoto enquanto tomava banho para voltar. Ele se vestiu o mais rápido possível e foi diretamente ao hospital. Ele levou quatro horas para chegar lá a pé.

"Eu devia ter nascido pela manhã, mas, por causa do terremoto, tive de esperar até a tarde. Meu pai estava feliz porque eu estava prestes a nascer, porém, quando viu todas aquelas pessoas mortas e feridas, ele não soube como reagir. Foi um choque. Nos dias seguintes, meus pais foram a vários enterros me carregando no colo. As pessoas os parabenizavam enquanto estavam de luto por seus parentes. Para mim, é um dia de alegria. Meus amigos sempre se lembram do meu aniversário e me ligam. Não gosto do fato de que muitas pessoas se lembrem da data por causa das mortes, mas o que posso fazer? É meu aniversário, e isso me deixa feliz", diz Uriel.

Saul nasceu às 10h no Sanatório Montes de Oca. O trabalho de parto deveria começar às 19h, mas os médicos não conseguiram chegar a tempo para ajudar sua mãe, Rosaura. "As enfermeiras de plantão ajudaram minha mãe no parto", ele conta.

Para Saul, ter nascido nesse dia em particular "é especial, porque todo mundo se lembra do meu aniversário, é como nascer no dia 20 de maio. Minha vida tem sido diferente. Todo mundo me chama de 'garoto terremoto', e, quando a terra se mexe, as pessoas dizem que estou furioso. É legal que as pessoas lembrem o seu aniversário apesar de ser uma data tão trágica, e é uma coisa que vai ficar comigo até eu morrer".

Jesus Chucho Garcia Lopez

Saúl nació a las diez de la mañana en el Sanatorio Montes de Oca. Estaba programado para las siete, pero los doctores no llegaron a tiempo para asistir a su madre Rosaura. "Las enfermeras de guardia fueron las que ayudaron a mi madre a dar a luz", platica.

Para Saúl, haber nacido en ese día "es especial porque todo el mundo se acuerda de tu cumpleaños, no es igual a haber nacido un 20 de mayo. Mi vida ha sido particular. Todo el mundo te llama 'niño terremoto' y cuando tiembla me dicen que ya me encabroné. Siempre es padre que te puedan recordar más allá de un evento tan dramático, es algo que me va a acompañar hasta la muerte".

Jesús Chucho García López

O retrato dele foi tirado no Hospital Geral, onde ele foi resgatado três dias depois junto com 52 outros bebês. Noventa e oito bebês morreram naquele hospital.

Jesus nasceu às 6h25. Sua mãe, Manuela, lembra que as enfermeiras levaram o bebê para lavá-lo. Aí o terremoto aconteceu. "O prédio desabou, e todo mundo começou a correr para se salvar. Um pedaço do teto caiu na minha mão e perna esquerdas e me fez perder um dedo. Fui resgatada às 15h e levada para outro hospital. Eu não sabia nada sobre meu bebê e achei que ele tinha morrido", ela conta.

Três dias depois, Jesus foi resgatado com mais 50 bebês, porém 92 outros morreram naquele lugar. Ele estava muito ferido. Um ácido, provavelmente vindo de algum encanamento, queimou seu ouvido e braço direitos, enquanto um pedaço de concreto caiu em sua cabeça. Nos meses seguintes, ele teve de passar por duas cirurgias perigosas. Ele sobreviveu, mas o trauma vai causar ataques epiléticos durante a vida inteira dele. Ainda assim, hoje ele trabalha como parte de uma equipe de limpeza de um escritório.

Manuela só foi saber que Jesus estava vivo em dezembro. "O que salvou minha vida foi que nunca perdi a pulseira com o nome da minha mãe. Eles nunca a tiraram do meu pulso", frisa Jesus. Manuela ainda estava se recuperando e deixou alguns amigos tomando conta do bebê. Em fevereiro de 1986, ela finalmente pôde ficar com o filho.

Perguntei a Manuela sobre o pai de Jesus. "Nunca ficamos sabendo o que aconteceu com ele naquele dia. Não sabemos se ele sobreviveu ou morreu. Ele simplesmente desapareceu."

Rosa García

O retrato dela foi tirado onde o famoso Hotel Regis ficava. Um memorial foi construído no lugar, assim como a Praça da Solidariedade.

Rosa nasceu às 12h30 no Hospital Espanhol. Sua mãe, María de Lourdes, relembra o caos naquele dia. As salas de emergência estavam lotadas, e ela não conseguia a atenção de que precisava. Ela teve de entrar na sala de cirurgia junto com dezenas de pessoas feridas. Quando Rosa nasceu, os médicos a levaram para outra sala, onde ela ficou isolada por várias horas, enquanto a mãe estava sozinha. Ela via as pessoas correndo desesperadas de um lado para outro e não sabia onde a filha estava. Eventualmente, ela e o sogro encontraram a menina no final da tarde e não a deixaram mais sozinha.

Rosa afirma: "Fico triste em pensar que um terremoto tão forte aconteceu no dia em que nasci. Pode parecer egoísta, porém, toda vez que a terra treme, sinto uma descarga de adrenalina, mas não tenho medo. Sempre me senti diferente. As pessoas me chamam de 'garota terremoto' porque sou muito temperamental e mal-humorada, talvez porque fiquei isolada por tanto tempo quando nasci naquele caos. Sou muito séria, difícil, caótica e perfeccionista. Meu aniversário sempre tem exercícios de terremoto. É desagradável, embora não tenha problemas com isso. Eu digo que a terra tremeu porque eu nasci. Eu sei que é estranho, mas é assim. Muitas pessoas estavam de luto por seus parentes, só que meus pais, apesar do medo, estavam felizes".

Ela também já ouviu comentários negativos e piadas. "Uma vez, me disseram que a terra estava com raiva porque eu estava nascendo e decidiu matar tanta gente porque eu era o anticristo. Outros já me chamaram de assassina e disseram que muito sangue corria nas minhas veias. A verdade é que sou boa em aconselhar pessoas que sofreram danos emocionais, como abortos ou abuso físico. Sinto que sou capaz de ajudar e dar paz a elas. Eu tenho uma premissa: se você não vai fazer algo direito, nem tente."

Jesus Francisco Flores Medina, o Garoto Terremoto

A foto dele foi tirada na Praça Garibaldi, onde o prédio San Camilito ficava. Naquele lugar, sua mãe morreu com ele ainda na barriga. Vinte e quatro parentes dele também morreram no terremoto.

A história dele é uma das mais dramáticas do terremoto de 1985. "Eu nasci entre os mortos", é como Jesus começa sua história. O prédio onde sua família inteira morava desabou e agora é a famosa Praça Garibaldi.

Vinte e quatro membros da família dele ficaram presos nos escombros e morreram, incluindo sua mãe, Martha Cruz Medina, que estava grávida de sete meses e meio. A avó de Jesus, Brenda, tinha saído alguns minutos antes das 7 horas a fim de comprar comida para o café da manhã quando o terremoto aconteceu. Ela correu para o prédio, mas ele já tinha desabado. Nos dias seguintes, ela ficou esperando que o esquadrão de resgate tirasse algum de seus filhos, filhas, sobrinhos e irmãos dos escombros.

No quarto dia, a chance de achar alguém com vida era mínima. Brenda cruzou a zona proibida e encontrou o corpo da filha Marta sob os escombros. A equipe de resgate já tinha ido embora; então, ela se aproximou e sentiu algo se movendo na barriga da filha. Sem pensar duas vezes, e confiante de que estava fazendo o melhor, ela pegou uma lâmina e cortou a barriga da filha, pegou o bebê, quase morto também, e o colocou numa caixa de sapato. Ela entregou o bebê na Cruz Vermelha mais próxima, eles o transferiram para um hospital próximo e ele ficou na incubadora até se recuperar.

Desde aquele dia, sua vida não ficou mais fácil. Brenda, sobrecarregada com a morte de sua família e as dificuldades econômicas que enfrentava, tentou cometer suicídio várias vezes, cortando os pulsos. Ela até tentou se jogar nos trilhos do metrô com o bebê nos braços. Ela estava desesperada por ajuda. Os jornais publicaram uma foto dela e do bebê. Na época, quando pediam doações para sobreviver, a criança foi chamada de "garoto terremoto".

Sua vida deu uma guinada quando o candidato Carlos Salinas de Gortari, que concorreu à presidência em 1988, ficou sabendo da história e ofereceu ajuda. A fidelidade de Jesus ao partido de Gortari se tornou uma devoção. Agora, o "homem terremoto" ajuda pessoas pobres a conseguir cadeiras de rodas, remédios e atenção médica de um escritório no térreo do prédio do PRI (o partido da situação) na Cidade do México. "Muitas portas se fecharam, mas outras se abriram para mim. Minha infância foi cheia de privações. Agora, posso dizer que valeu a pena ter sobrevivido graças à minha mãe, que me manteve vivo em seu corpo, e à minha avó, que me ajudou a chegar nesse mundo. Deus é grande", ele pontua.

Paulina Guzman

A foto dela foi tirada no lugar onde 600 mil costureiras trabalhavam em condições péssimas e morreram quando o prédio desabou.

Ela nasceu às 8 horas no Hospital México.

Foi isso que a mãe dela contou: "Minha mãe começou a ter contrações no começo da manhã e foi diretamente ao hospital. Foi lá que ela sentiu o terremoto. As pessoas começaram a ouvir sobre os danos à cidade pelo rádio. Disseram que o prédio Chihuahua, em Tlatelolco, tinha desabado: era onde os pais dela moravam, só que [o desabamento] tinha sido o prédio Nuevo Leon. Ela ficou tão nervosa que a bolsa estourou. Ela só se acalmou depois de saber que o prédio dos pais dela não era o que tinha caído. Minha mãe se lembra de ouvir muitos gritos porque estava em cima da sala de emergência. Naquele dia, meu irmão não tinha ido à creche, que desabou e matou quase todos que estavam lá dentro. Uma amiga da minha mãe foi encontrada segurando os dois filhos embaixo dos escombros".

Até hoje, Paulina admite que sua vida ficou marcada por um episódio dramático. "Fui a um psicólogo quando fiz 20 anos para falar sobre como um colega abusou sexualmente de mim. Falando com ele, relembrei algo terrível que me assombrava desde criança. Meu pai tinha abusado sexualmente de mim quando eu era pequena. Por isso, saí de casa. Me tornei autossuficiente, e minha vida é muito melhor agora. Percebi que posso superar qualquer adversidade e que tenho muitas coisas para fazer, como ajudar pessoas a superar seus problemas. Assim, me tornei psicóloga."

Cesar Lopez Fuentes

A foto dele foi tirada no local onde ficava o prédio Nuevo Leon, em Tlatelolco. Mais de 300 pessoas morreram ali. César mora ali perto.

Ele nasceu às 8h13.

Para Cesar, ter nascido nesse dia é normal. "Lembro daquele dia com respeito pelas pessoas que morreram, é um dia que marcou o antes e depois na cidade; no entanto, também é meu aniversário, uma razão para comemorar. É legal, e muitas pessoas se lembram do terremoto e me dão parabéns. É difícil esquecer."

Pergunto a Diego, o filho de oito anos de Cesar, se ele sabe que, no dia em que o pai nasceu, um terremoto terrível aconteceu na cidade. O rosto dele acende como se ele estivesse orgulhoso. Eu digo que ele não estaria aqui se não fosse pelo pai. Ele procura um olhar de cumplicidade nos olhos de Cesar, que confirma o que eu disse. Cesar diz que muitas pessoas morreram nessa data e que ela, apesar de ser uma data feliz para eles, é um dia triste para outros – e conclui: "É parte da vida, filho".

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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