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‘Tá Tudo Errado’ no Complexo do Alemão

O Coletivo Papo Reto está tentando retomar o espaço público da comunidade.

por Katia Karvalho
09 Setembro 2015, 2:00pm

Foto: Kátia Carvalho


A situação em que vivem moradores do Conjunto de Favelas do Alemão, na zona norte do Rio, está insustentável com os confrontos quase diários entre policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) e traficantes. Desde o início do ano, já foram 30 mortes, segundo informações publicadas na página do Coletivo Papo Reto, que criou a Campanha #TáTudoErrado.

Uma região bastante tensa por lá é o Areal, onde o pequeno Eduardo (10 anos) foi morto na porta de casa por um policial militar em abril deste ano.

Crianças no Complexo do Alemão. Foto: Kátia Carvalho

Esse coletivo - que tem grande atuação na luta por direitos e contra a violência na região - vem convocando moradores, por meio das redes sociais, a fim de propor caminhadas e a retomada dos espaços para ações culturais. A princípio, as reivindicações vinham com pedidos de paz. No entanto, no dia 29/08, na última caminhada por alguns dos locais mais tensos (Largo do Bulufa, Areal e Canitar), Raull Santiago, morador e membro do Coletivo Papo Reto, fez questão de frisar que eles não iam mais pedir por paz. As reivindicações deveriam ser outras.

Foto: Kátia Carvalho

As novas reivindicações são para que o Estado indenize as pessoas por danos e perdas de vida – e que retire as bases estendidas dos espaços de Cultura, Educação, Artes e Lazer do Complexo do Alemão. Também será solicitada a retirada dessas bases do CIEP da Nova Brasília, da Quadra da Canitar, do Campo das Torres, do Campo do Sargento; além disso, o coletivo irá requerer que os Caveirões (veículos blindados da polícia) sejam proibidos de circular dentro do complexo. Os estragos em pequenas barracas de comércio, carros e motos são constantes com a passagem desses blindados em ruas e vielas.

Foto: Kátia Carvalho

Na Rua Canitar - outro local bastante tenso - já teve uma base da UPP que ficava em um contêiner e foi incendiado após confrontos com traficantes. Foto: Kátia Carvalho

Em frente ao Centro Cultural Canitar, uma barricada foi montada em abril deste ano. É visível a precariedade e a dificuldade que os policiais enfrentam nessa base, onde acontecem muitos confrontos. Marcas de tiros são vistas em um dos barris.

Foto: Kátia Carvalho

Outro motivo de preocupação foi anunciado pelo coletivo para os moradores. Trata-se de uma resolução assinada pelo Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame: divulgada há duas semanas, ela regulamenta o uso da balaclava, conhecida como touca ninja. Ela será permitida em algumas operações da polícia militar do Estado. Motivo para o medo e a revolta relatados por moradores que preferiram não se identificar.

Foto: Kátia Carvalho

O jovem autista Eduardo de Souza Silva, conhecido como Dudu (de camisa verde), de 26 anos, quase levou um tiro da polícia ao ser confundido com um bandido no mês passado. Ele chegou a ganhar um crachá de identificação por um morador para mostrar que é autista.

Foto: Kátia Carvalho

De acordo com a Anistia Internacional, o Brasil é o país cuja polícia é a que mais mata no mundo: em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no país. Mais da metade dos homicídios têm como alvo jovens entre 15 e 29 anos; desses, 77% são negros, sendo a maioria dos homicídios praticada por armas de fogo. Menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. Por conta desse dado alarmante de racismo no Brasil, a Anistia lançou em sua página o manifesto "Queremos ver os jovens vivos!".

Foto: Kátia Carvalho

Em meio a essa guerra instalada dentro da favela, muitos alunos perdem aulas e pessoas continuam morrendo. Elas vivem assustadas, com medo de "bala perdida" mesmo dentro de suas casas, que ficam esburacadas durante tiroteios sem hora para acontecer.

Foto: Kátia Carvalho

O celular e as redes sociais têm sido aliados imprescindíveis para mostrar a realidade e alertar os moradores quando e onde estão acontecendo os confrontos.

Foto: Kátia Carvalho

O cartaz aponta sobre o uso do celular que ajuda a denunciar, tornando-se bastante indesejado nas favelas cariocas.

No meio desta 'guerra', policiais também morrem em serviço ou de folga

Policiais da UPP que foram colocados em contêineres no início da ocupação também foram alvo de criminosos como, por exemplo, o caso da soldado Fabiana Aparecida de Souza. Ela estava dentro do contêiner da UPP Nova Brasília, no Alemão morreu durante ataque de criminosos em julho de 2012.

De acordo com estudo realizado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio, entre 2001 e 2014, 1.715 policiais militares foram assassinados em serviço ou durante folga. Em 2014, bandidos mataram 96 policiais (18 no trabalho e 78 de folga).

Infelizmente, essa é a situação em que vivem os moradores não só do Complexo do Alemão, como também de tantas outras comunidades do Rio de Janeiro, na guerra contra o mercado varejista de drogas.

Isso sem falar nas comunidades dominadas por milicianos que vivem extorquindo e matando moradores que ousam contrariá-los.

Foto: Kátia Carvalho

Há denúncias até da "venda" de comunidades, o que aconteceu no Morro do Jordão, em Jacarepaguá (zona oeste da cidade). Uma milícia a teria vendido para o Comando Vermelho (a mais antiga facção do Rio, que também atua no Alemão) por R$ 3 milhões.

A vida anda difícil na Cidade Maravilhosa.