Maré Vermelha

O Exército Vazou e Deixou o Complexo Mais Complexo

O exército chegou assim: botando banca com tanques de guerra e tentando fazer com que as fardas camufladas fossem um sinal de esperança e saiu do Complexo da Maré deixando um rastro digno de guerra cívil.

por Felipe Larozza
07 Julho 2015, 1:30pm

foto: Tércio Teixeira, R.U.A Fotocoletivo

Dia 05 de abril de 2014, início da operação São Francisco. Foto: Tércio Teixeira/ R.U.A fotocoletivo.

O Exército chegou assim: botando banca com tanques de guerra e tentando fazer com que as fardas camufladas fossem um sinal de esperança. Ele saiu de lá deixando um rastro digno de guerra civil. Os militares relataram terem sido atacados, em média, duas vezes ao dia durante esse período.

Registros da guerra que se desenrolou por mais de um ano entre o tráfico e o Exército. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Depois de mais de um ano de ocupação militar, o resultado deveria estar nos números divulgados pela Força de Pacificação: 674 prisões, 1.356 apreensões de drogas, armas e munições, 21 militares feridos e 22 mortes durante os confrontos, incluindo um cabo do Exército, tudo isso durante 83 mil operações.


Militares deixando a Maré no dia 30 de Junho de 2015. Foto: Fábio Teixeira

Desde abril de 2014 até o fim da ocupação em 30 de junho de 2015, a União investiu R$ 41,9 milhões de reais por mês para manter um efetivo de cerca de três mil homens patrulhando o Complexo da Maré diariamente. Ao todo, 23.500 militares passaram pela Maré. A grande missão do exército era facilitar a posterior instalação das UPPs.

Foto: Tércio Teixeira, R.U.A fotocoletivo.

"Gastaram muito dinheiro em uma coisa que não teve efetividade nenhuma. O tráfico continua forte e a população continua refém dessa política de Estado. Não tivemos um minuto de paz com essa pacificação, porque ela parte do principio de que a favela é um campo de guerra e que as pessoas que ali moram são coniventes com o tráfico. Somos suspeitos o tempo todo, também somos alvo - estamos na mira", explica a rapaziada da página Maré Vive, grande responsável por reportar os acontecimentos do dia-a-dia da favela ocupada.

Os militares estão vazando e deixando essa guerra nas mãos da polícia, que vai chegar por lá com cerca de 1000 homens, e é claro que os policiais estão com medo de assumir essa bronca e os militares estão literalmente comemorando a saída de lá.

Troca de tiros no Complexo da Maré. Foto: Reprodução Facebook. Clique para ver o vídeo.

No meio da guerra, os moradores sofreram e vão continuar sofrendo. O exército sofreu e a PM está prevendo um longo calvário por lá. Nenhuma das quatro UPPs previstas foi instalada e a PM não deu nenhuma previsão para essa instalação. Apesar de ainda não ter as unidades, os homens de preto estão em uma rotina de operações diárias no local. Desde o dia em que o exércitcito saiu fora, a PM já realizou três grandes operações e diversas incursões - com direito a Caveirão, para que ninguém por lá tenha tempo de sentir saudades de despertar ao som de motor de veiculo blindado.

No dia 01 de maio a PM assumiu o patrulhamento de mais quatro comunidades da Maré. Foto: Tércio Teixeira/ R.U.A fotocoletivo.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro diz que nesse momento está fazendo um cinturão de segurança desde a Praia de Ramos até a Salsa e Merengue, cobrindo os acessos às comunidades da Maré, com 16 pontos de baseamentos. As vias expressas que margeiam o Complexo (Avenida Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha) foram reforçadas e as ações de revista nos acessos às comunidades intensificadas.

Foto:Tércio Teixeira/ R.U.A fotocoletivo.


Os moradores não puderam perder o curioso hábito de andar com suas carteiras de trabalho nos bolsos ao invés dos RGs, a PM vai manter o controle aos acessos da favela e isso significa que para sair de casa para o trabalho é preciso passar por esses pontos de controle.


Foto: Tércio Teixeira/ R.U.A fotocoletivo.

O Estado continua justificando suas diferentes formas de ocupação militar com números. No dia 30 de junho a PM divulgou que uma grande ação na Maré resultou em dois presos, na apreensão de 9,5 kg de maconha e 1313 trouxinhas da mesma droga, dois kg de cocaína e 1293 papelotes da mesma droga, 46 pedras de crack, 20 balas de ecstasy, 19 frascos de lança perfume, 15 frascos de loló, um binóculos, uma balança de precisão, quatro carregadores de pistola, dois rádio-transmissores, sete carregadores de rádio e 5 baterias, além de 12 motos apreendidas e 16 motos infracionadas. Isso foi no dia em que o exército partiu da favela.


Foto: Maurício Fidalgo.

Os números vão continuar sendo divulgados e vão continuar satisfazendo aos que passam longe desse Rio de Janeiro bem escondido atrás de tapumes na Avenida Brasil. Hoje existe uma escola sendo construída e que não fica pronta nunca, não há linha de onibus regular dentro do Complexo e o esgoto de 130 mil pessoas continua jogado na Baia de Guanabara que já está na merda.