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Um professor de história foi confundido com um ladrão, linchado e preso

Para ser resgatado, André Ribeiro teve que provar ser professor de história dando uma aula pública sobre revolução francesa para um dos bombeiros que o ajudou a sair do chão.

por Débora Lopes
30 Junho 2014, 3:33pm

Na quarta-feira passada (25 de junho), o professor de história André Ribeiro saiu de casa por volta das 19h pra correr pelo bairro do Balneário São José, como faz todos os dias. Quando passou pela Rua do Acontecimento, percebeu que as pessoas o olhavam de maneira estranha. Ouvindo música alta nos fones, ele não imaginava que em questão de segundos seria espancado por uma multidão, acorrentado, acusado de um crime e preso. Pior: para ser resgatado, teve que provar ser professor de história dando uma aula pública sobre revolução francesa para um dos bombeiros que o ajudou a levantar do chão.

“Corro dez quilômetros todos os dias. Quando você faz cooper, você não corre rápido, como se estivesse fugindo de alguém. Vi um fusca em alta velocidade. Quando percebi que o carro ia me atropelar, levantei a mão e esperei. Achei até que era um roubo”, conta. Dentro do veículo, segundo André, estava Djalma dos Anjos Nonato, um senhor de aparentemente 60 anos, e seu filho, um cara grande e forte. “Perguntei o que estava acontecendo. Eles sequer conversaram comigo. Já foram me batendo. O filho dele me deu um mata-leão, fiquei sem ar. Aí me derrubaram no chão e foi bicuda pra todo lado. Tomei bicuda no corpo inteiro. Apanhei muito.” O professor estava sendo confundido com um ladrão que supostamente roubou o bar desse senhor.

De repente, Djalma foi até o carro, pegou uma corrente e colocou André de barriga para o chão, amarrando seus braços e pernas. A surra continuou. “Era muita gente. A vizinhança toda tirou uma casquinha. Posso falar entre 15 e 30 pessoas. Tinha mulheres também. Acho que apanhei por uns três minutos. É difícil saber.”

As coisas podiam ficar piores, principalmente quando André ouviu de um dos homens a frase “pega o facão pra mim”. Nesse momento, os bombeiros apareceram e dispersaram a multidão que o espancou, inclusive pai e filho. O professor conta que, mesmo destruído, ainda estava acorrentado e deitado no chão. “Foi quando um dos bombeiros falou para mim ‘Então dá uma aula de revolução francesa aí já que você é professor mesmo’. Eu tinha tomado tanta pancada na cabeça... Mesmo assim, falei que a revolução francesa era simples: a França era o lugar onde o antigo regime tinha maior força. A burguesia tornou-se guia da população para tomar o poder da monarquia. Ao mesmo tempo, houve apenas uma mudança de ordem social, até porque as desigualdades permaneceram. Enquanto eu não dei a aula, continuei deitado no chão. Só depois da aula que eles me levantaram e me colocaram sentado na calçada.”

André foi levado ao pronto-socorro pelos policiais, a quem ele se refere como “muito gentis”. De lá, foi encaminhado para o 101º DP, onde diz ter ficado numa cela minúscula com outra pessoa, mesmo tendo curso superior – deveria ter ido pruma cela individual, como prevê o artigo 295 do Código de Processo Penal. No dia seguinte, teve acesso à cela individual e acabou sendo transferido para o 31º DP. “Lá, já tinha me conformado. Achei que ia ficar preso mesmo, por três meses ou sei lá quanto tempo.” Na prisão, ele diz que a pior parte era imaginar que seria tolhido do que mais gosta de fazer na vida. E com a voz trêmula, desabafa: “Só pensava que eu não ia mais dar aula”.

Dois dias depois, foi solto. Acusado de roubo, artigo 157, agora responde em liberdade. Hoje, irá se apresentar com duas testemunhas a seu favor. Diz que não sente raiva de quem o espancou, mas que irá processar pai e filho. “Foi pesado. Via ódio no rosto daquelas pessoas. Parecia que os caras estavam sedentos por sangue mesmo.”

Em seu perfil no Facebook, o professor recebe mensagens de apoio o tempo todo. Inclusive, o pessoal de Parelheiros irá realizar um ato pedindo justiça.

P.S.: quando publicada, a matéria dizia que o acontecido se deu em Parelheiros. O bairro correto é Balneário São José.

Siga a Débora Lopes no Twitter: @deboralopes

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