Acapulco, devotada à diversão e assombrada pelo horror
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Acapulco, devotada à diversão e assombrada pelo horror

Turistas ainda são atraídos belas belas praias da região apesar da sombra da violenta guerra por território entre os cartéis mexicanos.
15 Dezembro 2015, 6:46pm

Os hotéis, os bares e as praias de areia dourada de Acapulco se estendem por toda a baía espetacular do resort, mas sua promessa de diversão sem limites luta para sacudir a sombra da violenta guerra por território entre os cartéis – que nunca está muito longe.

Miguel Alemán, a estrada costeira que liga os principais pontos turísticos na praia, visa a separar esses dois mundos. A rua é patrulhada 24 horas por dia pelo exército, pela marinha e pela polícia, tentando evitar que o conflito sangrento entre traficantes alcance as áreas turísticas. Entretanto, Acapulco resiste a essa linha invisível.

Roger Castro era o dono de um restaurante conhecido localizado a um quarteirão da estrada. Quando um grupo criminoso que atua no resort exigiu dinheiro para que ele continuasse funcionando, Castro procurou as autoridades. Dois dias depois, no dia 21 de agosto, ele foi baleado e morto dentro de seu restaurante.

Execuções se tornaram lugar-comum em Acapulco em 2009, durante a administração do presidente Felipe Calderón. Apesar de os nomes dos cartéis terem mudado com os anos, a violência continua inabalável hoje no mandato do presidente Enrique Peña Nieto. Entre os dois governos, várias grandes ofensivas das forças federais fracassaram em impedir a matança.

Acapulco é a terceira cidade mais violenta do mundo, atrás de San Pedro Sula, em Honduras, e Caracas, na Venezuela, segundo o Conselho de Segurança Pública dos Cidadãos do México. Os números liberados pelo Ministério do Estado de Guerrero mostram 336 homicídios no resort nos primeiros cinco meses deste ano, um aumento de 63% comparado ao mesmo período de 2014. Um relatório publicado pelo jornal local El Sur coloca o número em 665 mortes até o final de setembro.

E, mesmo assim, Acapulco continua atraindo turistas. Os dias glamourosos quando Elizabeth Taylor passeava pela baía se foram, porém o resort ainda conta com comunidades de luxo povoadas pela elite do México. Na alta temporada, a população incha com visitantes da classe trabalhadora da capital do país.

Mesmo depois de a imagem de Guerrero ter sofrido um duro golpe em setembro de 2014, com o desaparecimento de 43 estudantes – atacados pela polícia na cidade de Iguala, mais ao norte do Estado –, os turistas continuaram chegando, atraídos por promoções e tranquilizados pelo aumento das patrulhas.

Fiz estas fotos durante as três semanas em que vaguei pela área costeira da cidade em agosto. As férias de verão estavam acabando, e, segundo as autoridades de Acapulco, os hotéis da cidade lotaram quatro quintos de seus quartos.

As pessoas que vivem embaixo das pontes, que cruzam os canais de água da chuva que vão para o mar, deixaram a impressão mais forte em mim.

Aqui, os menos afortunados se protegem do sol e da chuva, cercados pelo cheiro de solvente, mofo, água estagnada e maresia, além de serem chacoalhados pelas vibrações do trânsito ao longo da estrada costeira acima.

Uma das pessoas que conheci pediu para ser chamado de Antonio, apesar de esse não ser seu nome verdadeiro. Antonio tinha se mudado da capital para Acapulco um ano antes e trabalhava num restaurante turístico durante o dia. Ele levava seu uniforme numa mochila, usava um cano de água quebrado perto da ponte como chuveiro e pia, cozinhando para seus colegas de ponte à noite com a comida que eles conseguiam encontrar.

José Alfredo, que atendia pelo apelido "El Security", deixou uma família relativamente privilegiada por causa de brigas e trabalhava como segurança num restaurante na praia no turno da noite.

"Me fotografe como a última foto que minha mãe tirou de mim, quando eu era criança", ele disse. El Security deu um salto-mortal na praia, com o pôr do sol de fundo. Ele sorriu quando viu o resultado na tela da câmera.

AVISO: Imagens fortes abaixo.

(Todas as fotos por Hans-Maximo Musielik/VICE News)

Turistas sentados nas pedras da praia Papagayo. Essa parte de Acapulco marca a fronteira entre a cidade velha e a moderna Zona Dorada. Em 1959, os presidentes Alfonso López Mateos e Dwight D. Eisenhower assistiram a um show de esqui aquático de um iate ancorado na praia. Desde 1974, a praia recebe uma competição anual de esculturas na areia.

Os ônibus da estrada costeira Miguel Alemán são decorados com figuras populares entre os jovens. Um dos artistas de grafite de ônibus mais famosos de Acapulco se chama Antwan.

Oficiais da polícia federal observam dois garotos locais pescando perto da parte velha da cidade. As patrulhas policiais são constantes na estrada costeira, uma tentativa de impedir que a violência invada as áreas turísticas ou, pelo menos, fornecer uma ilusão de segurança.

Um corpo nas ruas do bairro El Hueso, a alguns quarteirões do centro da cidade. A vítima foi morta na frente de casa enquanto consertava uma moto. O detetive chamado à cena checou os bolsos da vítima e achou algumas moedas, uma imagem da Santa Muerte e uma bala. Alguns anos atrás, El Hueso era uma das áreas mais violentas de Acapulco. Hoje, a situação é bem melhor.

Os pescadores de Acapulco usam um método similar ao da pesca de arrasto. Dois grupos de seis pescadores se posicionam na praia e usam seu peso para puxar as redes, levadas por barcos para 140 metros de distância da praia. Puxar as redes leva cerca de duas horas.

Os pelicanos tiram vantagem do trabalho dos pescadores para pegar peixes sempre que as redes saem da água.

Camelôs oferecem todo tipo de produtos e serviços nas praias. Eles vendem desde biquínis e tatuagens temporárias a alimentos e serenatas.

As pontes sobre os canais que carregam a água da chuva para o mar servem como abrigo para os sem-teto de todas as origens. Um deles, que atende pelo apelido 'El Largo', imita para a câmera a pose de quem leva um tiro.

Limpeza é muito importante embaixo da ponte. As pessoas que vivem aqui lavam suas roupas e tomam banho todo dia num cano de água quebrado.

Alguns acham consolo em inalar solventes. 'El Largo' é um dos mais viciados.

José Alfredo vive embaixo da ponte. Conhecido como 'El Security', ele gosta de mostrar suas habilidades acrobáticas.

Turistas podem alugar iates para fazer pesca esportiva perto do antigo píer do porto. Esse tipo de pesca só é permitido se o peixe não for vendido. Os turistas tendem a dar os peixes para o capitão do barco a fim de que ele os leve para sua família.

Essa cabeça foi desovada em Diamante, uma área rica da cidade. O código da polícia para cadáveres é 'onze'.

Os mergulhadores do penhasco de Acapulco ficaram famosos nos anos 50 e continuam a entreter a multidão em La Quebrada, um pouco além da baía. A tradição de mergulho é passada de geração em geração. Muitos dos mergulhadores mais jovens são mulheres.

Um pescador trabalhando depois do anoitecer.

Músicos descansam num centro de minigolfe abandonado perto da estrada costeira. Eles dizem que a situação está difícil porque poucos turistas internacionais vêm para Acapulco agora, enquanto os turistas mexicanos não pagam tão bem.

A Zona Dourada vista do centro velho da cidade.

Um casal se beija na praia.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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