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Como superar o vício no seu ex

Uma antropobióloga explica que, no cérebro, estar apaixonado é como ser dependente de drogas e como é possível desintoxicar de uma relação.

por Bethy Squires; Traduzido por Marina Schnoor
20 Setembro 2016, 12:00pm

Ilustração por Grace Wilson.

Esta matéria foi originalmente publicada no Broadly.

Ah, o amor! Os primeiros baratos de atração romântica trazem tantas sensações novas: sua cabeça acelera, seu coração dispara, as gengivas ficam dormentes e, de repente, você tem uma ideia incrível para um roteiro e vai virar a noite escrevendo essa porra, porque você é um animal, neném! Desculpa, essas últimas partes são a cocaína mesmo.

Mas se a vida é uma caixa de bombons, então um relacionamento péssimo é muito parecido mesmo com cheirar.

"Pode ser difícil dormir, difícil comer. Você fica muito motivada e focada só nisso", diz a antropobióloga Helen Fisher sobre as similaridades entre amor e cocaína. Fisher, autora do livro Anatomy fo Love, conduziu um estudo de imagens cerebrais com centenas de pessoas em variados estágios de envolvimento romântico. Ela encontrou similaridades fortes entre as primeiras descargas do amor e o primeiro barato de cocaína. As duas coisas ativam o sistema de produção de dopamina numa parte do cérebro chamada área tegmental ventral (ATV).

A dopamina afeta várias coisas no corpo e no cérebro, incluindo os desejos. O sistema de recompensa da dopamina é responsável pelas nossas respostas para o amor, jogos, Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e drogas. A principal diferença entre elas é a duração. "Com a cocaína, o efeito passa depois de algumas horas", ela disse. "Com o amor, ele pode durar semanas, meses, anos."

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Se amor e drogas compartilham tanto da química cerebral, uma terapia voltada para o vício pode ajudar a superar um relacionamento tóxico?

Quando estamos apaixonados, o ATV produz, cientificamente falando, uma caralhada de dopamina. Dopamina é um neurotransmissor antes considerado simplesmente um químico do prazer. Mas uma teoria recente sugere que a dopamina se relaciona mais à relevância; ela diz em que prestar atenção — onde há um padrão a ser reconhecido, um estímulo doloroso ou um barato de açúcar. A dopamina é enviada do ATV para outro ponto do cérebro chamado núcleo accumbens. O núcleo accumbens é responsável pela motivação, ensinando coisas como o que procurar e o que evitar. A dopamina é produzida por uma ação, o que reforça o desejo de repetir aquela ação.

"É um sistema de busca", diz Fisher. Esse sistema é muito útil se você é um caçador-coletor aprendendo que frutas são venenosas, mas nem tanto quando está mandando mensagem para o ex às três da madrugada.

Os níveis de serotonina, por outro lado, caem significativamente. A despencada da serotonina na verdade é muito similar com o que acontece com quem tem Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). O córtex frontal, envolvido em julgamentos e tomadas de decisão, também trabalha menos. Se você acha que não consegue pensar direito quando está perto de quem ama, provavelmente tem razão.

"Até agora, observamos os vícios negativos", diz Fisher, "mas o amor pode ser um vício positivo". Num relacionamento que funciona, seus receptores de dopamina vão se animar enquanto o resto da sua vida também melhora. Seu cérebro está aprendendo que essa pessoa é digna de atenção. Mas quando você decide que não quer mais prestar atenção nessa pessoa, acabar com o ciclo de dopamina pode ser difícil.

"Não mande mensagem, não ligue, não apareça no trabalho da pessoa."

"Você precisa tratar isso como um vício", diz Fisher. "Não mande mensagem, não ligue, não apareça no trabalho da pessoa." Em outras palavras, é preciso cortar de vez a relação. Um estudo de 2007 descobriu que mesmo ouvir o nome do parceiro já é o suficiente para ter uma descarga de dopamina.

Mas como sabemos pelas taxas de reincidência de vícios comportamentais, como jogo por exemplo, força de vontade sozinha provavelmente não vai resolver seu vício em amor. Um outro estudo de 2008 colocou a taxa de reincidência no jogo em 90%. Chris Abert da Indiana Recovery Alliance disse à VICE que, quando se trata de abuso de substâncias, muitos usam uma "abordagem coerciva de abstinência".

Um exemplo dessa abordagem, que trabalha através de monitoramento severo e ações punitivas, seria dizer "'pare de usar drogas ou vamos tirar seus filhos de você ou te mandar para a cadeia'". E onde essa abordagem nos levou até agora? "Nos levou para a pior epidemia de opiáceos nos últimos 100 anos, e a maior epidemia de HIV [nos EUA]", disse Abert. A Indiana Recovery Alliance prefere usar um modelo de redução de danos, com o qual oferece àqueles que estão lutando contra o vício coisas como agulhas limpas e Naloxona. Mas também encaminha para tratamento quando os pacientes pedem. "Abstinência como abordagem não é inerentemente ruim", disse Abert, "mas tratamento com assistência médica também funciona".

Imagem via TRU STUDIO via Stocksy.

Tratamento profissional para vício em opiáceos pode incluir drogas como a metadona, que "liberam uma dose baixa de opiáceos farmacêuticos", diz Abert. Mas isso não é trocar um vício pelo outro? "Esse é um pensamento ignorante", ele diz. "Você tira a pessoa de uma droga criminalizada para o uso de uma droga socialmente aceita."

Também é um pensamento ignorante do ponto de vista de como o cérebro funciona. Seu sistema de recompensa de dopamina não pode ser desligado. Ele pode até ser literalmente sua vontade de viver. Sendo assim, em vez de desligar sua vontade de viver depois de um rompimento, o importante é encontrar novas coisas que te façam querer seguir em frente. "Saia com gente nova", diz Fisher, "novidades ativam o sistema de dopamina".

Fisher também recomenda exercícios para conseguir dopamina rápido. Exercícios também têm o poder de construir novos receptores de dopamina no cérebro. Se exercitando mais você vai tirar mais prazer de todos os aspectos da sua vida. Mas não negligencie outros neurotransmissores do cérebro. "Saia com velhos amigos e dê muitos abraços", diz Fisher. "Isso dispara a oxitocina [o hormônio dos laços afetivos, liberado por orgasmo e carinho], o que vai te ajudar a dormir melhor."

Fisher também alerta contra pensar demais numa separação. "As mulheres costumam se retraumatizar, repassando de novo e de novo o que aconteceu." O nível baixo de serotonina similar ao do TOC do amor também pode dar uma pista de outro jeito de afastar os pensamentos negativos associados a um rompimento feio.

Susan* tem TEPT e TOC. Em junho, ela foi hospitalizada por pensamentos obsessivos e autoflagelação desencadeados pelo caso Brock Turner. "Tive pensamentos intrusivos que foram de 'estupro, estupro, estupro' para 'morra, morra, morra'", diz ela. Seu psiquiatra regular sugeriu que ela tentasse parar de ter esses pensamentos. No hospital, seu novo médico pensou numa estratégia diferente. "Ele sugeriu que eu redirecionasse meus pensamentos obsessivos negativos", ela diz, "dizendo repetidamente, ainda de maneira obsessiva, 'viva, viva, viva'". Depois de deixar o hospital, Susan começou a fazer ponto cruz, uma atividade obsessiva e repetitiva, mas que resulta em algo bonito no final.

Então, se você precisa se livrar rapidamente de um relacionamento tóxico, o segredo é encher sua vida com coisas novas interessantes. Seu cérebro está tentando manter você no modo obsessivo, mas você pode enganá-lo para se fixar na vida em si. Se seu cérebro te deixa repetindo a história do rompimento toda hora, encontre um novo mantra. Viva, viva, viva.

*O nome foi mudado a pedido da personagem.

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