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O Condomínio Coimbra

Fomos até a Zona Oeste do Rio de Janeiro tentar entender como se vive nos novos complexos habitacionais que estão surgindo nos últimos anos nas periferias das cidades brasileiras.

por Claudia Bellante; fotos por Mirko Cecchi
20 Dezembro 2013, 7:00pm

O Condomínio Coimbra é o último de uma série de seis blocos de edifícios quase idênticos na Avenida Palmares, uma estrada de terra rodeada de nada no bairro de Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Para entrar, é preciso passar por um portão e ser reconhecido pelo porteiro, que anota o nome e o documento do visitante em um livro.

Viemos aqui para tentar entender como se vive nos novos complexos habitacionais que estão surgindo nos últimos anos nas periferias das cidades brasileiras. Um milhão de casas projetadas para as classes baixas da população que o ex-presidente Lula decidiu construir em março de 2009, quando junto da então ministra, Dilma Rousseff, lançou o projeto "Minha Casa, Minha Vida" e destinou 34 bilhões de reais à sua execução. Hoje, o projeto entrou em sua segunda fase, que implica, dentro de 2014, a criação de um adicional de um milhão a mais de moradias.

De acordo com os dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Habitação, desde o início da operação no município do Rio de Janeiro, foram planejadas 66.270 unidades (entregues ou em construção). Desse total, 33.363 correspondem a famílias com renda mensal de até R$ 1.600,00 e 90% delas se encontram na zona oeste da cidade. O Coimbra e seus quíntuplos de cimento foram inaugurados há pouco mais de um ano e são resultado dessa operação.

Segundo o regulamento elaborado pelo governo, as pessoas que recebem habitação gratuita têm obrigação de permanecer por pelo menos cinco anos, pagando somente o condomínio, e depois desse tempo são oficialmente proprietárias e podem vender ou alugar a casa. No entanto, são poucos os que cumprem com os acordos.

Renata Neider, responsável da área de Direitos Humanos da Anistia Internacional fez uma breve introdução ao tema: "A maioria das famílias, especialmente as provenientes das favelas mais em risco, foram distribuídas entre os prédios novos construídos principalmente na Zona Oeste, como Cosmos, Campo Grande e Santa Cruz. Lá, a terra para construir é mais barata, mas a distância do centro é de 50/60 km e os serviços são inadequados para receber um número tão grande de pessoas. Nós chamamos essa situação de "city deficit", o contrário do "house deficit" que se verifica normalmente: há moradia em abundância, mas o que falta é o tecido urbano".

O isolamento é o principal problema dos habitantes da Avenida Palmares. A principal via onde os ônibus que vão para o centro param, a Avenida Brasil, fica a dois quilômetros de distância.

Não há clubes, bares, restaurantes, só barracas dentro e fora dos condomínios e uma praça no fim da rua, onde, nas noites de sexta-feira, há festas organizadas. A música, estritamente funk, vem diretamente das grandes caixas de som que os meninos instalam no porta-malas dos carros.

Leandro. É o síndico do Coimbra, o administrador. "Esta é como se fosse a minha terceira vida", diz. "Primeiro fui bandido, depois drogado... Hoje quero entrar para a política e fazer alguma coisa para melhorar a situação dos que vivem aqui. Eu queria esse cargo porque inclusive quando morava na favela, estava acostumado a lidar com situações complicadas: rixas, brigas... Aqui eu tento fazer com que todos fiquem de acordo, mas é difícil. Tem pessoas que vêm de lugares diferentes, controlados por comandos diferentes e apesar de já não estarmos na favela, continuam se sentindo inimigas."

Waldomiro. É um velhinho de boné xadrez de lã e óculos grandes. "Tenho que tomar quatro remédios por dia. Vou continuar vivendo só com a aposentadoria, mas às vezes não é suficiente: uma caixa de remédio custa R$ 107. Meus filhos raramente vêm me ver porque esse lugar é longe, eu me sinto sozinho e quero ir embora. Vocês querem comprar a minha casa?"

"Cinquenta por cento já vendeu 'a preço de banana'. Vim para cá há um ano e já tive três vizinhos diferentes", diz Alinia, irritada, quando a visitamos. Ela mora no Coimbra com a mãe. Elas vieram da Providência, a favela mais antiga da América do Sul, fundada no fim do século XIX por ex-soldados do exército brasileiro a quem o governo prometeu casas que nunca chegaram.

Hoje, no entanto, a Providência já não é um acampamento militar nas encostas de uma cidade em expansão, mas uma comunidade povoada por milhares de pessoas que ocupam uma região, a área do porto, muito interessante do ponto de vista das propriedades imobiliárias. O projeto "Porto Maravilha" lançado pela prefeitura prevê a revitalização dessa parte do Rio perto do mar que desde os anos 1960 sofreu um processo de deterioração e abandono. O plano de desenvolvimento contempla, entre outras coisas, a criação de um museu assinado pelo arquiteto espanhol Calatrava: "O museu do amanhã". E, para abrir espaço para novas ruas, praças e edifícios, decretou a demolição de 972 casas. Alinia morava em uma das 140 que já se transformaram em escombros. "Vão fazer um teleférico para os turistas", explica enquanto termina de secar o cabelo de Marcia, sua vizinha e cliente. Alinia trabalhava em um cabeleireiro na Providência e desde que se mudou para Coimbra, abriu um salão de beleza na sala de casa.

Alinia não é a única que transformou a casa em negócio. Também o fez Lucieni, que vende amendoim, batata frita e lanches. "Abro às oito da manhã e fecho às onze da noite, mas os clientes me chamam a qualquer hora." Lucieni é da Penha, comunidade dentro do Complexo do Alemão, um bairro composto por 14 favelas que se encontra na zona norte do Rio de Janeiro.

De outro Complexo, o da Maré, que se desenvolveu perto do aeroporto internacional, vêm Janaidas e Cidicley. Eles estão casados há 25 anos Janaidas está feliz com a casa nova: "Encontrei um trabalho em uma empresa de limpeza num condomínio perto daqui. Gosto de Santa Cruz, é tranquilo e não tenho medo pelos meus filhos. Aqui não tem traficante, pode ficar o dia todo na rua. E a vida é mais barata. Na favela, a perua que levava eles para a escola me custava R$ 240 por mês, aqui vou pagar 70". Cidicley é carpinteiro em uma empresa de construção e ficou na Maré. "Venho ver ela no fim de semana, mas não posso morar aqui. É muito longe, eu perderia o emprego se me mudasse."

Mas há uma questão que poucos estão dispostos a falar e quem tem a coragem de denunciar o faz em silêncio. "Aqui tem a milícia que controla e impõe suas regras: sem drogas, se vê algum tóxico, já faz desaparecer. Não toleram violência doméstica e roubo. Eles mantêm a ordem, é verdade, mas a gente vive com medo. Igual quando morava na favela."

Pergunto como a milícia faz para enriquecer: "Cada família tem que pagar uma mensalidade. Normalmente 20 a 30 reais. É como se fossem seguranças particulares, mas se não pagamos, ameaçam de morte. A gente se vê obrigado a recorrer a eles para comprar botijão de gás e televisão a cabo, e se queremos ir a qualquer lugar, temos que pegar os ônibus que são propriedade deles. Não temos outra alternativa".

E que isso é assim é confirmado também por um contato que Renata, da Anistia Internacional, passou para nós. Uma senhora que viveu alguns meses em Coimbra, mas foi forçada a sair e que prefere não publicar seu nome, nos conta sua história.

"Eu fui embora da onde morava porque meu marido me batia. Não podia fazer outra coisa, mesmo que eu denunciasse, a polícia não ia prendê-lo porque não entra na favela, lá são os traficantes que mandam. Fui morar em um prédio ocupado. Uma construção de seis andares, com 140 famílias. Para liberá-lo, fizemos um acordo com a prefeitura e conseguimos moradia para 68 famílias em Santa Cruz. Quando cheguei, me dei conta de que a situação era dramática. Esse prédio era uma torre de Babel, não tinha nenhum tipo de organização e ninguém queria ser síndico. Muitas famílias sobrevivem graças à ajuda que o governo dá aos pais para mandarem os filhos para a escola, mas lá não tinha vaga suficiente para todas as crianças.

Fui brigar com a prefeitura, que tentou consertar com a construção às pressas de uma estrutura chamada de "Cidade dos pequenos" com uma escola nova. Mas teve que passar dois meses para começar a funcionar e, enquanto isso, muitos perderam o único auxílio que tinham. Lá, a milícia controla tudo, cada movimento, cada pessoa que entra e sai através dos registros que o porteiro tem a obrigação de preencher. Morei ali entre maio e agosto e durante esse curto período de tempo, teve quatro desaparecidos e sete expulsos, pessoas que tinham a ver com drogas, tóxicos...

Eu me rebelei, fui até a Comissão de Direitos Humanos, à Draco, que foi criada especificamente para combater o crime organizado, mas no fim me vi obrigada a fugir." Enquanto fala, ela mostra todos os documentos reunidos e guardados. "Meus amigos me ligaram no trabalho uma tarde e disseram: 'Não volta porque vão te matar'."

Quando deixamos Coimbra é segunda-feira à noite. Os postes entre um bloco e outro já acenderam e emitem uma luz suave. O sol de inverno se põe cedo no Rio de Janeiro. É sexta-feira e depois de alguns dias frios e chuvosos, a temperatura voltou a ser agradável. As crianças brincam, gritam e empinam pipas, mais populares que as bolas de futebol neste subúrbio carioca.

Fátima e Maria, duas mulheres negras e robustas com rostos sorridentes, acabam de montar suas barraquinhas e estão prontas para esquentar pizzas e fazer espetinhos de frango. Uma de marguerita custa dois reais, uma de calabresa, dois e cinquenta. Os espetinhos saem por quatro reais, mas não há limites de molhos e temperos que se pode colocar para deixá-los mais saborosos e indigeríveis. O melhor de tudo são os mousses: limão, morango e maracujá.

"Cada lugar tem seu próprio xerife", murmurara Leandro na noite de nossa chegada ao Coimbra, pouco antes dos homens no carro o chamarem.

Depois de duas horas, chegamos em casa, a 60 quilômetros de Santa Cruz, no Rio de Janeiro que todo mundo conhece e pelo qual é tão fácil se apaixonar. Aquele que dá para o oceano lânguido, abraçado e protegido pelo Cristo Redentor que nunca olha para aqueles que vivem atrás de suas costas.

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